O radialista Chico Cardoso confirmou a máxima de que a paixão pelo rádio é um vírus. Pela sua atuação, foi condecorado do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I) com medalhas comemorativas ao centenário do Batalhão em Bauru. “Fui o primeiro civil em Bauru a receber medalhas do mais alto grau de comendas do Batalhão. Por serviços prestados à comunidade e para a PM. Uso quando tenho que ir a solenidades”, comenta.
Com cerca de 50 anos de rádio AM, Chico Cardoso começou em 1963 na Difusora de Três Lagoas (MS). Inaugurou a Rádio Urupupungá, em Andradina. Na Rádio Auri-Verde começou em 1974. Ele é responsável pela apresentação diária do programa Comando Bauruense de Comunicadores (CBC), das 7h às 8h. Apresenta 15 minutos de notícias diárias a partir das 18h. O repórter alimenta os noticiários, como Vanguardão, e tem inserções de pouco mais de um minuto durante a programação atualizando os principais fatos do dia do noticiário policial. Aos sábados, Chico Cardoso ancora o programa Polícia Comunitária, em que entrevista policiais para tratar sobre tudo relativo à polícia.
A família, para ele, é uma motivação especial. “É meu bando”, orgulha-se. Ele garante que como avô ‘estraga’ os netos, que são um grande incentivo em sua vida.
Jornal da Cidade – Como foi seu início no rádio?
Chico Cardoso – Eu nasci no rádio lavando viatura de reportagem, que era uma DKV em que a porta abria ao contrário. Isso foi no idos de 1963. Comecei como técnico de som em Três Lagoas (MS). Fui discotecário e programador. Eu era técnico de som.
JC – Você viveu na pele o golpe militar de 1964?
Chico – Em 1964, eu estava da Rádio Difusora de Três Lagoas (MS) e ainda era técnico de som. Naquele tempo o rádio tinha programa de auditório. O auditório da rádio foi tomado pelo Exército, cheio de oficiais. A ordem era uma só: “Toca o Hino Nacional o tempo todo”. De vez em quando alguém dava uma ordem: “Coloca em cadeia aí a Nacional de Brasília. Toca o hino”. Eu vivi isso porque era técnico de som. Foi uma fase muito bonita. Pelo menos umas duas vezes, para ir para minha casa almoçar, fui levado no jipe do Exército. Almoça e volta para a rádio. Não era para andar na rua. Não tinha disso. Você tinha que ter cuidado com o que dizia. A gente sabia de pessoas conhecidas. Fulano foi preso. Tentava compreender o que a gente estava vivendo. Até que comecei a aprender com os bambambãs.
JC – O rádio pegou você?
Chico – É vício. Você sai do rádio e começa a sonhar com o rádio. Hoje em dia saio da minha casa às 6h para vir para a Auri-Verde. Às 4h30 estou ouvindo a Bandeirantes, o José Paulo de Andrade. Fim de semana é rádio. Tenho um Mitsubishi pequeno, tem 50 anos de idade. É meu companheiro, de pilha. Vou pescar e carrego ele porque vou ouvir rádio. E rádio AM. Vou ouvir ondas curtas. Com todo respeito aos meus colegas de FM, mas não me atrai. Quero ouvir notícia. O ouvinte quer música, esporte e informação. Informação principalmente o dia todo. O rádio tem que despertar para isso, é prestação de serviço.
JC – Paralelamente você construiu duas barragens?
Chico – Trabalhei na Camargo Corrêa e na Cesp Jupiá e Ilha Solteira. Era auxiliar administrativo da sessão de pessoal. E simultaneamente fazia um pouco de rádio. Resolvi vir para Bauru porque meus pais estavam aqui. Deixei a barragem de Ilha Solteira e cheguei na Auri-Verde. Coincidentemente um dos meus irmãos, o José Cardoso Filho, já trabalhava na Auri-Verde. Cheguei e comecei a conviver com o Sica (Silvio Carlos Simonetti), Paulo Sérgio Simonetti, Maria Dalva, Pedro Norberto. Os Tarzans que faziam o Vanguardão e o CBC. Eu redigia no tempo da máquina de escrever. Você gravava em um gravadorzão Akai e tinha que copiar tudo aquilo em quatro vias de papel carbono. E se você errasse muito, ouvia dos apresentadores. A Auri-Verde era a única emissora. Não se falava em FM. Isso era 1974. Simultaneamente na rádio, eu entrei na Clark Michigan (atual Volvo) no administrativo. Ficava em Pederneiras até 17h30, trabalhava na rádio até 1h e voltava para Pederneiras. Depois teve um período que me afastei do rádio. Nunca fiquei muito tempo afastado. Falei: “Vou ficar de vez”. Vim para a Auri-Verde definitivamente e continuei na Clark. Deixei a Clark e mudei para Bauru com toda minha família. E continuei na Auri-Verde. Trabalhando com Carlucci (Carlos Alberto Soares), Sueli Sanches, Rita de Cássia. O povão que sabe o que é fazer rádio. Daí já era redação, porque já vim com aquela experiência de ter trabalhado com Eduardo Nasralla, Pedro Norberto. Era datilógrafo das notícias que hoje chamam de redator. Hoje é uma figura importante, mas nós redigíamos o noticiário. Você escrevia aquilo que você estava ouvindo da Tupi, da Nacional do Rio de Janeiro, da Gaúcha, que eram as bambambãs de notícia. Você tinha um tempinho para puxar daqueles gravadores Akai. Você gravava o noticiário com todas as interferências, porque são ondas curtas. Escrevia e entregava para os apresentadores.
JC – Como você iniciou na cobertura de polícia?
Chico – O rádio é uma escola que você não para de aprender. Não sei nada de rádio. Só sei que hoje eu não cometo erros que cometia antes. O sargento Padovini iria sair de férias e a parte da Polícia Militar ficou comigo. A parte da Civil era o Flávio Parra quem fazia. Fui conhecendo os oficiais que hoje são coronéis. Tenente Meira (o coronel Benedito Meira, atual comandante-geral da PM), o capitão Lamoso (coronel aposentado Pedro Batista Lamoso) são meus amigos. Padovini volta e diz que eu também faria polícia.
JC – Como era estar na linha de frente da cobertura de reintegração de posse em fazenda?
Chico – Enfrentei a invasão do MST na fazenda Val de Palmas (Bauru). É tenso. Me chamaram para conversar. O coronel da PM avisou que tinha 10 minutos para descer senão iriam me buscar. Subi com eles. Tocaram fogo em serraria centenária que a engrenagem é de madeira. A famosa mesa que Getúlio Vargas despachou jogaram no meio do quintal.
JC – Que acidente de trânsito te marcou?
Chico – Tem um monte que não sai da memória. Teve de um motoqueiro que entrou com tudo na roda de um caminhão. A cabeça dele sumiu a 100 metros de distância. Chega lá de noite com a viatura da rádio. Tem que procurar a cabeça do cara. A cabeça dentro do capacete. Você tá na rua e passa o Corpo de Bombeiros e você vai até o Nova Esperança, no Caic. Daí você vê o corpinho do menininho de 4 anos debaixo da roda do caminhão de gás. Dois policiais militares que morreram perto da Cesp, quando um rapaz jogou o carro contra a viatura. Grandes amigos meus. Você vive isso e começa a ficar frio. Não te emociona mais. Pra mim isso é normal.
JC – Rebelião em penitenciária também é tenso.
Chico – Cobri uma na Penitenciária I que destruíram tudo. A cozinha, a fábrica de bolas de futebol. Você via frango, panela e bola de futebol jogados para todo lado. Tocaram fogo na Penitenciária. Eu estava lá dentro com a PM. Como repórter, tenho grandes amigos no sistema penitenciário. Para acalmar o motim, o doutor Lourival Gomes, secretário de Administração Penitenciária (SAP) da época, me viu e chamou: “Chico, entra comigo”. Os outros amigos repórteres acharam ruim. Só ouvi. Eles queriam conversar com o secretário e queriam um repórter. Fomos até a grade frente a frente com os amotinados. Nessa hora você treme.
JC – Vivenciou alguma perseguição com tiroteio?
Chico – Houve troca de tiros e o marginal morreu. Quando eu voltei, o então capitão Meira, que era comandante da única 1ª Cia de Polícia, me chamou. Ele disse: “nunca mais o senhor vai atrás de viatura em emergência. Há uma troca de tiros e se acontece alguma coisa com você eu serei responsabilizado”. Porque na troca de tiros falam na favela que leva meia hora, 20 minutos. Uma troca de tiros com marginal é 10 segundos. Você nem sabe o que aconteceu e só escuta: “pow, pow, pow”. Pronto. É só. De repente você está exatamente nesse local e uma bala perdida te pega. Quem vai ser responsabilizado é o Estado. Sobre esse negócio de repórter correr atrás da polícia trocando tiro, ele tem que saber o que está fazendo.
JC – Você já foi ameaçado ou a sua família?
Chico – Não. Nunca. Eu fico me perguntando se isso não é fantasia. Faz mais de anos que faço rádio e nunca ouvi essas coisas.
JC – Você tem muita história com o delegado de polícia J.J. Cardia?
Chico – Grande delegado de polícia. É uma figura folclórica. Convivi com ele muito tempo e até depois da aposentadoria dele, a gente continuava juntos. Não tive uma passagem marcante porque todos os dias estava na DIG ou ele me ligava. Ele me chamava de Negão. O Cardia marcou uma era. Com a polícia não tem mais ou menos. Olho no olho. Ou acredita em você ou não acredita em você. Teve notícia que deixou ele puto da vida. Ele passou uma informação e disse que só poderia sair no dia seguinte. Estávamos em três repórteres. Um deles saiu e divulgou na hora. Desmontou todo serviço que a polícia tinha preparado. Quebrou a confidencialidade.
JC – Em sua trajetória já ajudou algum bandido?
Chico – Recebi uma informação de que determinado preso precisava conversar com diretor da penitenciária. E o diretor não recebia ele. Liguei lá e falei: “o cara quer pedir para rever o caso dele”. Uma semana depois, trombo com o cara na rua: “Chico Cardoso, quero te agradecer. Pedi para rever minha pena. Já tinha vencido e o juiz mandou me soltar”.
JC – Como é a interação do rádio com o ouvinte?
Chico – A mulher ligou dizendo que há três dias faltava água e o DAE não ia na casa dela. Quando foi à tarde, ela ligou e disse que todos os vizinhos tinham água e só na casa dela não tinha água. Liguei para o DAE e passei o caso. Retornaram pra mim dizendo que ela estava com vergonha de ligar para mim porque eles foram na casa dela só para abrir o registro do cavalete dela que alguém fechou. E não é uma vez só que acontece.
JC – O programa Polícia Comunitária é seu xodó?
Chico – É o primeiro e pioneiro em todo Brasil. Já recebemos visitas aqui de policiais japoneses que queriam entender como é que é isso. Fui chamado aos Estados Unidos para receber uma comenda da Swat. Policiais norte-americanos vieram para ver como o programa é feito. O programa é da polícia e nasceu em maio de 1999, com 15 minutos. A Auri-Verde permitiu ir para 30 minutos, para uma hora e meia. Se eu não seguro, atravessa o meio-dia que começa o Vanguardão. Todas as polícias são entrevistadas. O programa não trata de ocorrências. Sábado passado veio o Meira por causa da morte do casal de policiais. O programa é ao vivo e já tínhamos dois policiais, o major Martins e o capitão Terra, sabendo que a qualquer momento o comandante-geral da PM poderia chegar. Então inverte o programa. E tem a participação do ouvinte para questionar e falar o que quer.
JC – Que sugestão você dá para quem pretende iniciar na profissão de jornalista?
Chico – Penso que o pessoal que estuda jornalismo deveria começar pelo rádio. E não pensar que vai ser jornalista para aparecer na ‘plin plin’. Não é por aí. Tem gente que pensa que vai ser artista da TV. Isso é sonho e hoje nossa juventude não cai na real. Tem um meio de comunicação que é fantástico, que é o rádio. Porque ele não te dá tempo para você escrever. Te dá tempo para ponderar uma informação, dar dois ou três telefonemas para saber se aquela informação tem credibilidade e você formata ela mentalmente e diz o grosso daquela notícia. O rádio tem que ser já. O rádio pelo celular resolve.
Perfil
Nome: Francisco Cardoso
Idade: 63 anos
Cidade: Garcias, patrimônio de Três Lagoas (MS)
Esposa: Maria Aparecida Gandis Cardoso
Filhos: Juliano, Marcela, Márcia e Marisa e mais dois filhos adotivos; oito netos
Hobby: pescaria
Livro: “Uma História que Vem de Longe”, do jornalista e membro da Academia Bauruense de Letras Benedito Requena
Filme preferido: “filmes de cowboys”, “filmes de faroeste” (western); filmes de guerra e ficção científica
Estilo musical: Tango e bolero
Para quem dá nota 10: Jornal da Cidade e Rádio Auri-Verde; Corpo de Bombeiros, Samu, PM e Polícia Civil
Para quem dá nota 0: Políticos
E-mail: chicocardoso@auriverde.am.br