08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Elvis: Today, Tomorrow & Forever


| Tempo de leitura: 4 min

Talvez nenhum título melhor que o desta bela canção - gravada em dueto com Ann Margret - para representar o legado e a memória daquele menino pobre do Mississipi que viria a transformar o mundo.

Nascido em uma pequena cidade no sul dos EUA, Elvis Aaron Presley ficaria conhecido como Elvis Presley, Elvis ou simplesmente... nada: sua fama atingiria tal patamar a ponto de se lançarem discos estampando apenas a sua imagem e o título do álbum: o nome "Elvis" se tornaria dispensável...

Ainda no fim da adolescência, viria a se tornar o catalisador das forças daquela que é chamada de a última grande revolução cultural do século XX: o rock?n?roll. Sem o inventar, lhe deu as diretrizes e formatos que hoje conhecemos: o rock de Bill Halley era muito branco, mais country; o de Little Richard, muito negro, mais rhythm?n?blues; o rock de Pat Boone, muito comportado, muito gospel. Elvis se tornaria a antena que captou a sensualidade selvagem do rhythm?n?blues negro, o pungente berreiro country dos brancos, a harmonia saltitante do gospel; colocaria tudo no liquidificador e o jogaria na face da conservadora sociedade americana dos anos 50 - branca, anglo-saxã e protestante.

Com ele, a música viria a unir pessoas, a reunir indivíduos ao redor de todo o mundo, independente de credo ou raça; o rock simbolizaria atitude de rebeldia e serviria como referência para a juventude de classe média pós-guerra. Elvis fecharia as cortinas do macarthismo e do conservadorismo, daria início ao espírito que simbolizaria as décadas seguintes.

Mas Elvis fez ainda mais que sacudir ao som de rock and roll. Após chocar a terra de Tio Sam, colocar abaixo os compartimentos que dividiam toda uma sociedade, o ex-caminhoneiro viria a deslumbrar o mundo com um veneno: o veneno de sua voz.

Dono de um perfil de efígie de moeda, de fazer inveja a qualquer Marlon Brando, Johnny Deep e James Dean, o garoto de costeletas evidenciaria que não era o que hoje se chama de "apenas um rostinho bonito". O ex-lanterninha revelaria que, além de performances ritmadas, sex appeal e rock & roll, detinha um poder vocal excepcional, verdadeiramente incomum. Mesmo sem estudo teórico, desenvolvera a capacidade de percorrer praticamente toda a escala musical - e com que facilidade!

Aquele garoto atingia a elevadíssimas notas, sem falsete, à plena voz - o chamado ?dó de peito?, alvo de todo cantor de ópera! O garoto sabia que, para atingir a eternidade, seria preciso muito mais que simples passos e sacolejos. Entretanto, em um 16/8, a despeito de uma causa mortis oficial de arritmia cardíaca, viria a ser assassinado. Assassinato? Sim! Elvis teria sido asfixiado pelo próprio veneno de sua beleza, voz e maestria. Sugado pela exposição exagerada de sua imagem em 33 filmes, pelas quase 1.200 apresentações (somente nos últimos anos)... Fora engolido pelo próprio monstro que criara, assassinado pelo veneno que brotou de sua própria alquimia.

Logo, não sem motivo, ainda evoca tanta admiração, mesmo entre aqueles que, como eu, sequer cogitavam vir ao mundo naquele 16/8, pois não apenas dividiria em duas a história cultural do século XX, mas construiria um legado moral raríssimo a um artista: são abundantes os relatos de sua inquietude diante do desejo alheio, o que o fazia, por exemplo, instintiva e obsessivamente comprar e doar carros para pessoas desconhecidas que simplesmente estavam observando e cobiçando objetos para ela inatingíveis - atitude de genuína sinceridade que deveria ser seguida pelos artistas de nossos dias, muitas vezes filantropos de ocasião, por mera estratégia.

Mas o mais admirável ainda é aquele garoto jamais se permitiria chamar por ?rei? (bem diferente dos auto-intitulados ?reis? que se seguiriam). Quando, em algum show, visse alguma faixa com dizeres como "Elvis é o rei!", imediatamente determinava sua retirada e bradava: "Não reconheço nenhum rei, além de Jesus Cristo!". É por essas e outras mais que ninguém será tão eterno como Elvis Presley

Penso que nada sintetizaria mais sua obra artística e exemplo humanitário que a inscrição contida em sua lápide: "Ele era um presente precioso de Deus, que todos estimávamos e sempre amamos. Ele tinha um talento dado por Deus e o repartiu conosco e com o mundo. Ele era admirado não somente por ser ?entertainer?, mas pela sua grandiosidade humanitária, por sua generosidade e sentimento.

Ele revolucionou o universo da música; recebeu grandes prêmios; foi uma lenda vida em seu próprio tempo; ganhou o respeito e o amor de milhões. Deus viu que ele precisava de algum descanso e o chamou à Sua casa com Ele". Por isso tudo sentimos sua falta.

Oscar Luciano Gomes Neto