08 de julho de 2026
Geral

Estradas matam mais no final de semana

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 10 min

As mortes por acidentes de transporte no Estado de São Paulo se concentram nos finais de semana, com exceção apenas à região coberta pela Polícia Rodoviária da região – que contempla Bauru, Lins e Jaú. Esta é uma das informações presentes na Análise da Fundação Seade que estuda “O perfil das mortes por acidentes de transporte no Estado de São Paulo”, divulgado no início deste mês.

As estradas paulistas matam sete vezes mais que no Reino Unido, embora a estatística de 20 mortes/ano por 100 mil habitantes seja inferior à média nacional. O estudo também levanta que o aumento dos óbitos não está relacionado ao tamanho de uma cidade, mas sim à estrutura do entroncamento rodoviário que a circunda.

 

Malavolta Jr.

Capitão da Polícia Rodoviaria Wanderlei de Andrade Júnior

“Temporalmente, a análise mostra que os acidentes no Estado se concentram nos fins de semana e, geograficamente, nas cidades cortadas por rodovias. As estradas paulistas matam mais homens do que mulheres, os atropelamentos registram mais idosos e as mortes com a presença de motocicleta atingem mais os jovens”, sintetiza o documento divulgado pela Fundação Seade.


A Fundação Seade aponta que os sábados (18,6%) e domingos (19,3%) geram o maior número de vítimas. Nos demais dias (úteis) da semana as proporções caem para em torno de 11% em cada dia. Nem sempre as mortes estão ligadas a feriados prolongados, “colados” em fins de semana. Os veículos de passeio matam mais em sábados e domingos e os pesados (sobretudo caminhões) geraram mais acidentes em dias úteis. Os dados do estudo mostram que os acidentes não estão concentrados em um determinado mês do ano e nem guardam relação com feriados prolongados, mas, ao contrário, estão esparsos. De fato, não é o feriado ou não que indica relação com acidentes graves, segundo a pesquisa, mas o período (hora do dia).


Segundo o estudo, o cansaço na volta e a pressa na ida podem estar associados a boa parte das ocorrências. Os acidentes aconteceram, sobretudo, entre as 5h e 7h e 18h e 19h dos sábados e domingos.


 

Região de Bauru


Mas os dados do levantamento no Estado não valem para Bauru. O capitão da Polícia Rodoviária da Base local, Wanderlei de Andrade Júnior, conta que as rodovias que cortam Bauru, Lins e Jaú registraram 18 vítimas fatais em fins de semana, de janeiro a julho deste ano, contra 53 em dias de semana.


“Aqui na região essa realidade não se aplica. Os números mostram maior movimento e acidentes fatais de segunda a sexta. Agora a faixa etária principal das vítimas segue a tendência no Estado e no País: composta de jovens em idade entre 20 e 35 anos, em sua maioria”, menciona Andrade Jr.  


O capitão revela que a abordagem da Polícia Rodoviária leva em conta as características de cada pista. “Na Marechal Rondon por exemplo é quase zero a ocorrência de colisão frontal, que é o tipo de acidente que mais causa morte nas rodovias. Já em pista simples o número de acidente por excesso de velocidade é reduzido, enquanto que a colisão frontal causada, em muitos casos, pelas ultrapassagens proibidas ou imprudentes é muito frequente. O empenho da fiscalização leva em conta essas características por trecho e por rodovia”, menciona.


Wanderlei de Andrade amplia que no trecho urbano da Rondon, por exemplo, a polícia direciona a fiscalização para o pedestre. “Há muita ocorrência envolvendo a travessia irregular e perigosa de pedestre na área urbana da Rondon. É uma característica que direciona  fiscalização nesses trechos”, completa.


A base regional da Polícia Rodoviária atende Bauru, Jaú e Lins, em uma cobertura de 1.002 quilômetros de rodovias, sendo 70% de pista simples e o restante duplicada.   

 

A pesquisa Seade

O relatório da Fundação Seade levanta que o número de acidentes fatais de trânsito caíram nas últimas quatro décadas em São Paulo. Até 1990, as rodovias paulistas matavam mais que a média nacional, segundo os dados. Para os analistas da Seade, a promulgação do então novo Código Nacional de Trânsito (CNT), em 1998, contribuiu com a redução do índice paulista de mortes em estradas. O programa de duplicação de rodovias também atuou nesse contexto. Não por outra razão, o Estado tem 19 das 20 melhores pistas de estrada avaliadas no Brasil.


A análise Seade pontua que o endurecimento na legislação, como o advento da lei Seca, gerou, por outro lado, tímida influência sobre redução no número de vítimas fatais no meio até o final da última década. É que o aumento vertiginoso da frota, no mesmo período, pesa no sentido inverso da aplicação mais dura da lei, medida que só veio no ano passado.


Mas, considerando aumento da frota e população em confronto com o acirramento da lei seca, em 2012, os analistas do estudo Seade ponderam que o resultado paulista vai ser ainda melhor que o nacional. Com base em dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), o estudo traz que em 2.000 ocorreram 54 mortes por 100 mil veículos no Estado, contra 33 por 100 mil em 2011. A redução é de 40% no período.


Em 2011, o Sistema Único de Saúde (SUS) registrou 174.115 internações por acidentes de transporte no País, dos quais 44.027 (25,3% do total) foram em terras paulistas.


A análise dos tipos de acidentes fatais de transporte mostra que não há distribuição homogênea entre as causas. Os pedestres representaram 26,6% das vítimas em 2011 e os acidentes de motocicletas 22,8%. Os veículos de passeio contemplaram 18,4% da participação nas ocorrências.


A área com menor taxa de mortalidade é a região Metropolitana de São Paulo, abaixo de 15 óbitos por 100 mil habitantes entre 2006 e 2011. As maiores taxas foram das regionais de Registro (34,1) e São José dos Campos (30,6 mortes x 100 mil pessoas/ano).


Bauru encontra-se na média das demais regiões do Estado, com taxa de mortalidade por acidente de transporte na faixa de 20 a 25 óbitos por 100 mil habitantes. O dado ruim da região é que Bauru apresentou, de 2006 a 2011, elevação significativa nos registros fatais em relação às outras áreas do Estado, com 41% de crescimento.

Estudo da Confederação

Estudo da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) lançado recentemente elenca os 100 municípios do país com as maiores taxas de mortes por acidente de trânsito. Este levantamento tem como base os dados de 2005 a 2007. O estudo da Fundação Seade refere-se ao período de 2006 a 2011.


Em linhas gerais, os dados da CNM ratificam que o maior número de ocorrências está registrado em municípios de pequeno e médio porte, com população de 1.209 a 47.260 habitantes.  Ou seja, ambas as análise depreendem que os acidentes de trânsito não são um problema concentrado nas grandes cidades e não tem relação direta com o tamanho do local, mas com o entroncamento rodoviário que cerca uma comunidade.

 

Quando a estrada muda o curso da vida

Viúva de policial rodoviário morto durante o trabalho, ao socorrer acidente em Bauru, fala do enfrentamento da dor


A estrada mudou pra sempre a vida de Lilian Mariana Zardetti em maio do ano passado. Ela perdeu o marido em acidente em um sábado pela manhã na rodovia Deputado João Lázaro Almeida Prado (SP-255), que liga Barra Bonita a Igaraçu do Tietê. Os policiais rodoviários cabo Alberto Borges Pinheiro e soldado Rodrigo Ferreira morreram durante o trabalho, ao serem colhidos no acostamento da rodovia enquanto socorriam a outro acidente.


Rodrigo, desde então, não mais voltaria para casa, como todos os dias, ao encontro dela e dos filhos, hoje com 7 e 13 anos. O cabo Alberto Borges Pinheiro e o soldado Rodrigo Ferreira foram enterrados no mausoléu da Polícia Militar. Do acidente também morreu Nélson Ferreira Carvalho, 53 anos. Morador de São Bernardo do Campo, o motorista deixou a esposa e dois filhos, um de 14 anos e outro de 27 anos.


Somente agora, 16 meses após a tragédia a viúva Lilian começa a reagir. “Eu fiquei a primeira semana inteira no escuro em casa e não tomava nem água. Algumas amigas me ajudaram, me chacoalharam. Conseguiram me fazer enxergar que eu tenho dois pequenos que dependem de mim, meus filhos. Por eles eu levantei, mas foi muito duro”, conta.


Lilian recorda que logo no início após a tragédia produziu quadros grandes com fotos de seu marido. “E alguns meses depois a psicóloga me convenceu que isso estava piorando ao invés de ajudar, porque eu o tempo todo lembrava dele. Comecei a conseguir fazer trilha de bicicleta recentemente, voltei a pedalar depois de 10 anos e também comecei a fazer dança agora. Eu aconselho quem passar por isso a buscar uma atividade física. Pra mim ajudou e muito”, sugere.


A vida mudou pra sempre não só emocionalmente. Lilian teve de deixar o trabalho para se dedicar aos filhos. “Como eu trabalhava até as 18h, um dia os meninos ficavam com minha mãe e no outro na folga do marido. Eu não voltei mais a trabalhar para cuidar deles. Os seis primeiros meses foram os mais difíceis. Acho que também ajudou muito, agora olhando para o tempo, eu colocar tudo pra fora, chorar muito sempre que a dor apertava”, revela.


Os filhos de Lilian continuam com ajuda de psicólogo. Segundo ela, eles devem ser liberados pela profissional nas próximas semanas.


O acidente fatal

As três vítimas fatais decorreram do violento acidente registrado em maio de 2012 na SP 255, em Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru). Segundo informações na oportunidade prestadas pelo Policiamento Rodoviário de Jaú, o cabo Alberto Borges Ribeiro e o soldado Rodrigo Ferreira estavam estacionados no acostamento do quilômetro 176 da rodovia, próximo à Usina da Barra, para sinalizar um trecho, conhecido popularmente como “curva do fedor”.


Um caminhão com placas de Dois Córregos (SP) havia caído em uma valeta às margens da pista. Conforme o JC veiculou, por volta de 9h do sábado daquele mês de maio, um caminhão bitrem com placas de Torrinha (SP), que seguia no sentido Barra Bonita-São Manuel, perdeu o controle na curva.


Durante a tentativa de frenagem, os dois semi-reboques do veículo se deslocaram em “L”, atravessando toda a largura da rodovia, e outra carreta que vinha em sentido contrário acabou sendo atingida. Com o impacto, a cabine da carreta teve a parte superior arrancada e ficou completamente destruída. Os dois policiais, que estavam ao lado da viatura, no acostamento, foram atingidos violentamente.

Falha na base de dados de órgãos oficiais dificulta acesso e pesquisa

A base de dados para pesquisar acidentes de trânsito no Brasil apresenta lacunas. O cruzamento de informações de registros de mortes com outros elementos do mesmo gênero, como número de internações no sistema SUS relacionados às mesmas causas, também é problemático.  


O Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) elabora seus anuários estatísticos a partir dos boletins de ocorrência lavrados pela polícia. Portanto, são levados em conta apenas as mortes “in loco”, o que provoca elevada distorção na classificação de dados como o sexo das vítimas, faixa etária e tipo (condutor, pedestre).


Muitos acidentes com vítimas não são registrados pela polícia, porque ela nem sempre é acionada. Além disso, como muitas mortes ocorrem depois do acidente, no hospital por exemplo, isso atrapalha o estudo, porque essa informação não integra a estatística.


Já o Ministério da Saúde, através do DataSUS, elabora as estatísticas de óbitos das pessoas atendidas em estabelecimentos de saúde. Esta foi a fonte utilizada pela CNM, por ser a única que disponibilizou a quantidade de mortes por município. O DataSUS leva em conta o preenchimento dos atendimentos na entrada dos pacientes no sistema, em cada unidade.  


Nos casos de óbitos por causas acidentais ou violentas o dado do Instituto Médico Legal (IML) também é considerado. Os dados são consolidados pelo Centro Nacional de Epidemiologia (Cenepi). Mas como esses registros demoram muito para chegar ao sistema nacional, depois de passar por município e Estado, a última base estatística disponível é de 2007. Outra dificulta dessa sistemática é a elevada incidência da subnotificação.


Por fim, os dados do seguro obrigatório (Dpvat), criado em 1974 no Brasil, também são utilizados como fonte, mas também com deficiências. A instituição que administra o Dpvat divulga a quantidade de seguros pagos por mortes no trânsito/ano por região e perfil das vítimas.


Segundo o estudo da CNM, essa base de dados é a fonte mais próxima da realidade, em confronto com as demais aqui citadas. No entanto, assim como no Denatran e no DataSUS, também há subregistro. Mesmo pagando regularmente esse seguro, muitos brasileiros desconhecem o direito de receber indenização em caso de morte, invalidez permanente e despesas médicas e hospitalares de vítimas de acidentes de trânsito.


Assim, nem todos os casos de morte no trânsito geram pedidos de indenização junto às seguradoras do Dpvat, o que também afeta os números.