A inversão térmica, baixa umidade do ar, aliada à poeira, transforma-se em questão de saúde pública em alguns bairros, onde a população sofre com o pó, que causa constantes doenças respiratórias e transtornos para a manutenção da limpeza doméstica. Bairros que não contam com asfalto convivem diariamente com esta realidade e seus moradores apontam as dificuldades e as providências que tomam para minimizar os efeitos da poeira na saúde e no dia a dia.
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Éder Azevedo |
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Maria José da Silva molha a rua de sua casa, no Jardim Nicéia, para combater a poeira |
A principal queixa é em relação a problemas respiratórios. “Tenho bronquite e piora bastante nesta época, sinto falta de ar”, reclama Ana Paula Ávila Rodrigues, morada do Jardim Tangarás. De acordo com ela, os sintomas se intensificam nos finais de semana, quando passa mais tempo em casa. “Já sinto muito a diferença. Rinite, sinusite, tudo ataca”, relata.
O transtorno atinge e, literalmente, tira o sono da família. “À noite, se eu não durmo, minha mãe também não dorme”, comenta Rodrigues. “A mulher do meu primo, que tem um bebezinho, reclama muito, porque o bebê também sente”, acrescenta. A consequência é imediata. “A gente vive na farmácia e no hospital”, queixa-se.
O paliativo é uma luta sem fim e ingrata contra o pó. “Minha mãe limpa a casa, tira tapete, porque enche muito a casa de terra. Dá muito trabalho”, conta Rodrigues. A solução de fato seria pavimentação das ruas do bairro, ressalta. “Poderia asfaltar logo, porque para quem tem problema respiratório é muito ruim. O asfalto está demorando a chegar, só tem na rua principal, mas aí dá na mesma, continua o pó”, constata.
Larissa Caputo não é alérgica, mas não escapa de ter problemas na família por conta da qualidade ruim do ar no Tangarás. Mãe de Leandra Vitória e Luan Miguel, de cinco anos e um ano de oito meses, respectivamente, a moradora aponta as consequências principalmente da poeira. “Piora para meus filhos, que têm bronquite e rinite. Você leva ao médico e ele fala ‘mãe é o pó’. Eu respondo ‘é o pó, eu moro na terra. Não tem como’”, lamenta.
A rotina é parecida com a da maioria dos vizinhos. “É remédio o tempo todo, farmácia, pronto-socorro e não resolve. Só transtorno”, afirma. “E eu moro justamente na rua que o ônibus passa e o pó entra. Pode limpar a casa todo dia que todo dia tem pó. Prejudica muito a saúde e é um trabalho sem fim”, acrescenta Caputo. Para resolver o problema, salienta, somente o asfalto. “Falam que vão asfaltar e não asfalta nunca”, reclama.
Ainda no Tangarás, Valderiza Maria da Silva reside perto de uma esquina que é um desafio para motoristas e motociclistas pelo grande acúmulo de areia. O trânsito no local apresenta características de um rali, com o volante “nervoso” e possibilidade de queda para quem passa de moto. Desafio também para o dia a dia de quem mora ali. “É muita poeira. Os que mais afeta é a questão da saúde e da limpeza. Os móveis ficam todos sujos. Quando passa carro, caminhão, levanta aquela poeira e suja tudo. Às vezes, tem que até lavar a roupa do varal de novo”, declara.
Com tanto pó suspenso, as idas e vindas às unidades de saúde são uma constante também na família de Silva. “Quem tem rinite, com o tempo muito abafado, piora. O vento traz a poeira e é muito complicado, tem que ir para o pronto-socorro”, observa. O alívio de fato só vem com a chuva. “Quando está chovendo fica úmido e melhora”, explica. O jeito é torcer pela chuva enquanto aguarda que o sonhado asfalto chegue à sua porta e acabe com o areião, que teima em entrar pela casa adentro.
Nicéia também sofre
A realidade dos moradores do Jardim Nicéia é similar à dos residentes no Tangarás. “É muita poeira. Não tem o que fazer, tem que aguentar”, resume Maria José da Silva, que convive com o pó na rua e dentro de casa diariamente. “A gente chega em casa e está tudo cheio de poeira, o guarda-roupa, a roupa que lava. Às vezes, tem que lavar de novo, ter dois trabalhos”, expõe. Para melhorar a qualidade de vida, a moradora destaca que joga água na rua por conta própria para tentar minimizar os efeitos da poeira.
Ricardo Prado conta que os transtornos em sua família são mais sentidos no período noturno. “Nesta época de tempo seco fica complicado. Para dormir fica muito ruim, as crianças não conseguem dormir à noite e muitas doenças atacam, sinusite, tudo. As crianças ficam doentes”, destaca. Molhar a rua também é o meio encontrado por Prado para diminuir os efeitos do ar seco e do pó nos pulmões da família.
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Inversão térmica e baixa umidade são preponderantes na baixa qualidade do ar |
Como minimizar efeitos em casa
Se a agressão ao nosso organismo é inevitável nesta época do ano em ambientes externos, dentro de casa é possível tomar algumas providências para minimizar ou diminuir os danos à saúde. A Secretaria de Saúde de São Paulo dá algumas dicas de como lidar melhor com o ar seco e o acúmulo de poluentes na atmosfera. Tomar bastante água é uma providência simples para reidratação do organismo. Principalmente crianças e idosos sofrem com os efeitos da baixa umidade e requerem atenção. Sucos e água de coco também são aliados.
A poeira deve ser combatida para evitar desencadeamento de processos alérgicos e crises de doenças respiratórias. Outro inimigo é a fumaça de cigarro, cujos efeitos noviços podem durar meses no interior da casa. Portanto, com um ar já “agressivo”, fumar em ambientes fechados é potencializar a má qualidade da “atmosfera” local.
Dormir em local arejado e umedecido (com tolhas molhadas e recipientes com água) atenua os efeitos do ar seco e carregado de partículas nos pulmões e vias respiratórias. Ingerir alimentos leves e frescos dá uma forcinha para o organismo reagir às adversidades climáticas. É ideal ainda evitar banhos com água muito quente.
Abra a casa
Arejar o ambiente doméstico é mandamento básico também. Pesquisa do Departamento de Energia do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, nos Estados Unidos, noticiada recentemente pelo New York Times e reproduzida pelo jornal O Tempo, revela que hábitos corriqueiros como cozinhar libera substâncias poluentes no interior das residências.
O estudo estima que as emissões de dióxido de nitrogênio nas casas com fogão a gás ultrapassam a definição de ar limpo da Agência de Proteção Ambiental norte-americana em 55% a 70% das casas. A análise conclui que a quantidade de poluentes em uma cozinha fechada supera as maiores ocorrências de neblina de poluição registradas em Pequim, na China.
Jennifer M. Logue, engenheira de qualidade do ar do Laboratório Berkeley, analisou efeitos à saúde em longo prazo estimados das centenas de substância químicas encontradas em uma residência e concluiu que o impacto na saúde da população é maior do que o fumo passivo ou radônio, por exemplo.
Qualidade do ar cai com tempo seco e concentração de poluentes
Inversão térmica e baixa umidade dificultam dissipação de gases e partículas suspensas e causam alerta
Não é preciso ser nenhum especialista para constatar que a qualidade do ar nesta época do ano piora drasticamente. É uma mera questão de respirar. A combinação de ar seco e inversão térmica contribui para a concentração de poluentes e partículas suspensas e sensação de desconforto. É comum ocorrerem complicações respiratórias devido ao ressecamento das mucosas, provocando sangramento pelo nariz, ressecamento da pele e irritação dos olhos e garganta. Para quem tem histórico de problemas respiratórios, a situação se agrava e a ocorrência de alergias e sinusite até casos mais graves se torna comum.
André Mendonça, metereologista do Instituto de Pesquisas Metereológicas da Unesp (Ipmet), explica como a inversão térmica funciona e afeta a qualidade do ar que respiramos principalmente nesta época do ano. “A temperatura tem que diminuir conforme a gente sobe na primeira camada da atmosfera. A inversão é que, ao invés da temperatura ir diminuindo à medida conforme sobe, aumenta. E funciona como um tampão, impedindo que os poluentes se dispersem nas camadas superiores da atmosfera”, discorre.
O resultado, de acordo com o meteorologista, é que toda a concentração de poluição oriunda das indústrias e automóveis, através de combustíveis fósseis, fica presa próxima à superfície da Terra. Isso diminuiu a qualidade do ar. A combinação torna-se pior com a época característica de estiagem e, consequentemente, de baixa umidade. “A gente tem uma massa de ar seco e isso favorece valores de umidade do ar bem baixos. É uma característica da estação com o agravamento desta concentração de poluentes. Tudo isso piora as condições de saúde não só da população, mas dos animais”, pontua Mendonça.
A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) tem uma estação de monitoramento da qualidade do ar em Bauru, que mede a quantidade de dióxido de nitrogênio, material particulado inalável e o ozônio no ar, além de verificar a umidade atmosférica. O período crítico, com o ar mais seco, de acordo com as medições da Cetesb, costuma ocorrer entre 13h e 16h. “De madrugada, a umidade sobe. Tanto é que a queima de palha de cana-de-açúcar só é permitida no período noturno”, discorre o gerente da Cetesb, Alcides Tadeu Braga.
A queima de palha da cana nos canaviais era o principal vilão para os pulmões na região, causando grande quantidade de fuligem e gases. Na tentativa de minimizar o problema, resolução da Secretaria de Meio Ambiente do Estado determina que a queima só pode ser efetuada entre 20h e 6h. A permissão pode ainda ser revogada de acordo com as medições da umidade do ar e será proibida sempre que a umidade do ar for menor que 20%.
Braga revela que a quantidade de poluentes e partículas no ar oriundos da queima da palha da cana-de-açúcar ainda é um fator negativo na qualidade do ar, mas vem diminuindo paulatinamente. “Hoje, em função do protocolo assinado entre os usineiros e o governo do Estado de São Paulo a queima diminuiu em torno de 80%, que é o percentual de mecanização da colheita. Isso melhorou bastante. Vai chegar o momento, a partir de 2014, que em área que pode ser mecanizada será proibida a queima de cana”, comenta. Braga explica que, em áreas íngremes, existe um prazo maior para o fim da queima, que vai até 2017. “O setor sucroalcooleiro evoluiu muito, até no resíduo, que hoje é usado para gerar energia nas caldeiras. Teve uma acentuada melhora no que tange ao controle de poluição do ar”, destaca.
Com a diminuição das emissões de poluentes nos canaviais, o principal inimigo do bom oxigênio do dia a dia se tornou a poluição gerada na região urbana, produzida por atividade industrial e pela crescente frota de veículos motorizados, além da poeira. Em vias de grande movimento, os veículos têm influência direta no material particulado suspenso no ar. Dos escapamentos e chaminés saem uma variedade de poluentes que vão desde fuligem a gases tóxicos, que agridem mais o organismo em “parceria” com a baixa umidade. “Mas, apesar de tudo, estamos em uma região que tem muita árvore, uma cobertura vegetal muito grande e já ajuda”, pondera Braga.
Ciesp garante ação constante
O Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) garante ação constante para controle das emissões de poluentes durante todo o ano. A atividade industrial, juntamente com a frota de veículos e a poeira e a baixa umidade, são os principais responsáveis pelo declínio da qualidade do ar. “Nesta época do ano, o ar seco alerta a população para a questão da poluição do ar. Porém, para as indústrias, ao longo do ano todo, o controle das emissões de poluentes oriundos do processo produtivo é um dos principais focos de atenção dos gestores”, comenta Kláudio Cóffani Nunes, coordenador de meio ambiente do Ciesp/Bauru.
De acordo com Nunes, quando as empresas pleiteiam a licença ambiental, apresentam à Cetesb as estimativas de emissões gasosas de seus processos produtivos e apresentam também toda a tecnologia e equipamentos que utilizam para garantir que as emissões obedeçam os parâmetros legais. “As empresas da regional do Ciesp/Bauru, conforme o tipo de poluente que suas atividades emitem, utilizam diferentes tecnologias, tais como pulverizadores, lavadores, coletores secos, absorventes, filtros de tecido e precipitadores”, explica.
Nunes garante que as empresas mantêm políticas constantes de qualidade do ar até por questão de produtividade. “Várias empresas implantam vaporizadores de umidade dentro de suas estruturas produtivas. E todas monitoram aspectos da qualidade do ar periodicamente. Para as empresas, manter a qualidade do ar é fundamental, pois isso garante a saúde de seus trabalhadores, que as metas de produção sejam mantidas e a tranquilidade frente a Cetesb”, declara. O coordenador revela que o Ciesp oferece orientações e eventos relacionados a gestão de resíduos.