08 de julho de 2026
Bairros

Comércio em bairros é grife de comunidades

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 11 min

Manter um negócio por décadas, contando com ajuda de familiares, resistindo à cultura do fast food, industrializados e do descartável, ainda é uma prática muito forte por toda a cidade. Os pequenos comércios e empresas de serviço são marcas inconfundíveis no Centro e nos bairros. Bar tem aos montes. Botequim com alma, tradição e ambiente são pontos cultuados pelos fregueses.

 

Éder Azevedo

cimprime toda sua paixão ao recuperar antigos carrilhões de relógios que são verdadeiras antiguidades

A compra de carnes pode ser uma visita a um amigo muito querido. É assim que as pessoas tratam os comerciantes Nelson de Souza e o casal Geancarlo Zuim e Luciana Pardo Zuim, que têm em comum o envolvimento com a revenda de carnes especiais em açougues que são grifes em Bauru.


Consertar um relógio de pulso ou de parede está fora da moda. Mas o relojoeiro Orivaldo Bellucci há 45 anos mantém a paixão por dar vida a carrilhões e azeitar engrenagens superando as adversidades de uma profissão que exige dedicação, técnica, atualização e perseverança com a concorrência dos produtos descartáveis. Esta edição do JC nos Bairros mergulha no mundo dos negócios familiares que são “marcas registradas” na cidade.

 

Bela Vista ‘exporta’ carne para Bauru

O Jardim Bela Vista é uma “cidade” como muitas que se desenvolveram dentro de Bauru. O tradicional bairro mantém um jeito de cidade pequena, com conforto de município desenvolvido. Seus moradores dispõem de todo tipo de serviços e comércio.


Há quase seis décadas, um açougue recebe clientes de todas as partes de Bauru. O entra e sai de compradores revela o sucesso do endereço de carnes especiais na quadra 16 da Padre Anchieta, esquina com a rua Bela Vista. O freguês Carlos Alberto Suaiden, 54 anos, sai da Vila Universitária para comprar carnes na Bela Vista. Ele conta que é cliente há 16 anos. “No Brasil, já viajei muito e este é o melhor açougue do País, em atendimento e qualidade do produto”, garante. Carlos cita que conhece pessoas da zona sul que só compram no conhecido endereço da Bela Vista.


Do elogio de Carlos se extrai o segredo que faz a Boutique de Carnes Onze Onze ser tão procurada. O comércio de carnes soube absorver novas demandas da clientela sem deixar de ser um típico ambiente de bairro. Segundo o proprietário Geancarlo Zuim, 48 anos, Felipe Gavioli criou o açougue há cerca de 56 anos. Em 1986, Geancarlo adquiriu o estabelecimento, tocado por ele e a esposa Luciana Pardo Zuim. Os donos fazem do relacionamento com clientes o magnetismo do lugar.  


O comerciante comenta que o salão de vendas possuía somente 48 m². Com a necessária expansão, a clientela ganhou um ambiente de 350 m² e estacionamento. Contudo, o casal e os empregados mantiveram o atendimento personalizado. “Você investe e o povo agradece”, comenta Geancarlo.


O casal de comerciantes pesquisa inovações para atualizar a oferta de serviços e manter a qualidade. O proprietário explica que, em suas viagens, absorve ideias que poderão ser adaptadas ao negócio de venda de carnes. A ideia trazida das andanças em Maringá e Londrina é uma área para assar alimentos, com churrasqueira.


Os clientes assimilam tudo o que o açougue inova. Atualmente, faz sucesso a banca de verduras. Além dos equipamentos para o preparo de churrasco, o açougue comercializa bebidas, massas, molhos, temperos.


O carro-chefe do negócio de Geancarlo e Luciana é a carne, que também é entregue em domicílio.  Os animais são comprados e abatidos na região de Bauru. Além dos cortes especiais, as gôndolas expõem produtos com a marca Onze Onze, como a linguiça suína com tomate seco.  

 

Mais do que um bar, um ponto de encontro para os amigos

A Bela Vista tem seus pontos quase obrigatórios. Alguns se concentram nas imediações da Praça dos Expedicionários. A Drogaria Bela Vista, na quadra 8 da rua Padre Anchieta, o Bar 5-40 e a Lotérica Bela Vista, ambos na quadra 5 da rua Carlos Marques, mantêm uma relação afetiva com os moradores do bairro.  


O Bar 5-40, e o Bar do Fernando, no quarteirão 9 da Carlos Marques, são pontos de encontro da comunidade. Apesar da placa na fachada anunciar Bar 5-40, ninguém saberá apontar onde fica. O estabelecimento é conhecido como bar do Élio, proprietário do estabelecimento. O local é tão conhecido que na manhã da última terça-feira, mesmo fechado, dois frequentadores deram uma passadinha.


“O Élio está em São Paulo e volta amanhã (quarta-feira)”, informa “seo” Camilo Dantas, 82 anos. Ele é assíduo do bar do Élio desde 1985, quando se mudou de São Paulo para Bauru. Ele confessa que a boa frequência do bar deve-se ao fato do Élio ser “gente boa” e o ambiente ser “alto astral”. Na calçada, dois pássaros Siriris disputam a atenção. Camilo comenta que eles são “fregueses” de Élio, que diariamente joga amendoins para as aves, petisco predileto dos pássaros que comem na mão.


O cliente Milton Alves de Souza, 65 anos, e Camilo comentam que Élio adquiriu o comércio há cerca de 20 anos, que já teve pelo menos dois proprietários. Do outro lado da rua, a lotérica Bela Vista também é um ponto muito frequentado. Assim como o bar do Élio, a empresa já teve outro dono que deixou saudade em seo Camilo. “O João ficou aí mais de 20 anos”, pontua.

Éder Azevedo

Sueli e Roberto comentam que a Casa Agrícola

permanece firme enquanto muitas empresas fecharam no Centro

Família mantém estilo de negócio de 40 anos

A Casa Agrícola vivenciou a transformação de um segmento do comércio e permanece firme chegando à terceira geração. João Kernbeis, ou como era mais conhecido João Alemão,  abriu   o negócio em 1972, atualmente tocado por sua filha Sueli Lopes, 53 anos, seu marido Roberto Lopes, 58 anos, e filha do casal Beatriz Lima, 34 anos, que segue no comércio iniciado pelo avô materno.


A Casa Agrícola é estritamente familiar. “Já vi passar muitas empresas e a gente está aqui. Brinco que a gente não cresceu, mas ficamos”, ressalta Roberto.


A avaliação do comerciante explica a maneira como o negócio é tocado sem modificar a essência do comércio, porém, com foco nas necessidades do cliente. Inicialmente, Sueli comenta que o forte da loja eram sementes e pesticidas. A passagem do tempo exigiu que o negócio se transformasse oferecendo rações, animais, gaiolas, entre outros produtos afins.


A loja começou no cruzamento das ruas Treze de Maio com Primeiro de Agosto.  Em 1989, se instalou na quadra 4 da rua Ezequiel Ramos. Sueli diz que há clientes fiéis que já compravam lá quando o comércio era na Treze. Ela observa que o tempo “peneirou” as empresas do setor que atuavam no Centro, restando a Casa Agrícola e a Casa do Campo.

Centro em transformação

O comércio e o setor de serviços do Centro de Bauru passam por uma reciclagem de tempos em tempos. Quem vai à tradicional loja de calçados Burgo já notou algo de muito diferente nas pessoas que atendem. Contudo, os ícones que referenciam o dinâmico comércio da área central permanecem. Na Rodrigues Alves, quadra 7, lado a lado convivem o Avenida Foto e Vídeo e a Ótica Moderna. Na quadra 9 está a lanchonete Frutal Lima.


Contudo, a Alfaiataria Tesoura de Ouro, comandada pelo bauruense Maciel Ortiz, ao lado do Frutal Lima, fechou no final do ano passado.


No Calçadão da Batista de Carvalho, a Casa Carvalho, Unidas, Tanger, Wilson Roupas e Sampaio puxam marcas tradicionais do comércio da região central de Bauru.

A primeira empresa do Mary Dota

Comerciante participou da ocupação do bairro antes das casas serem entregues em dezembro de 1990

 

Diz o ditado que “quem chega primeiro bebe água limpa”.  A aventura de Heriberto da Silva, 54 anos, e sua família contraria o dito popular. Ao se mudar para o Mary Dota em julho de 1990, o novo bairro de Bauru não tinha água. O depósito de material de construção instalado por ele na avenida Doutor Marcos de Paula Raphael foi o primeiro. As chaves dos imóveis residenciais não haviam sido entregues, portanto, o bairro não tinha ocupação.

 

Éder Azevedo

Heriberto da Silva se orgulha de colaborar para o desenvolvimento do Mary Dota

Atualmente, Beto, como é conhecido o comerciante, brilha os olhos ao falar do primeiro neto que está pra chegar. Ele relembra que sua filha Nalice, hoje com 23 anos, estava com apenas quatro meses de vida quando a família se mudou para iniciar um negócio no novo bairro ainda não habitado.


O comerciante comenta que a padaria e uma sorveteria foram construídas um pouco antes, mas somente abriram as portas quando a população ocupou os imóveis. Beto recorda-se que as chaves das residências foram entregues em dezembro de 1990. De julho a dezembro, ele e sua família tiveram que “se virar” para viver no Mary Dota. A energia elétrica também foi conseguida graças à intervenção junto aos amigos.


Beto ressalta que “puxar” água foi um bom negócio. Ele ia abastecer o caminhão nas torneiras públicas instaladas próximas à indústria Anderson Clayton, distante do bairro.  “Minha despesa estava equilibrada”, explica. A água da represa da Quinta da Bela Olinda também era utilizada.

 

Uma cidade

O tempo passou e o Mary Dota virou uma cidade com comércio e serviços próprios. Festas próprias. “Mudou tudo completamente”, dispara Beto.


As casas de núcleo habitacional ganharam modificações, com obras de ampliação e melhoria. O Beto Materiais para Construção contribuiu. Nos festejos de 20 anos pela criação do Mary Dota, Beto recebeu uma placa comemorativa pelos 20 anos do bairro.


A empresa também tem administração familiar. O gerenciamento da loja é da esposa Celina Santos da Silva. Como o negócio cresceu, Beto coordena o depósito, que fica em outro ponto do Mary Dota, em um amplo barracão, de onde partem as encomendas dos clientes.


A filha Nalice também segue os passos dos pais trabalhando em outro depósito de material de construção, localizado na avenida Castelo Branco. Antes do Mary Dota, Beto trabalhou no depósito de um cunhado no Núcleo Edson Gasparini.

 

De ‘portinha’ à grife de alimentos

Quem passa pela avenida Nossa Senhora de Fátima, na zona sul de Bauru, não imagina como a via era 27 anos atrás. Um dos primeiros comércios a se instalar foi o açougue de Nelson Souza, 47 anos. Atualmente, ele prepara o filho Nelson Jr., 18 anos, para administrar um negócio familiar de sucesso.


A vontade de ter um negócio próprio fez com que Nelson instalasse em 1986 a Casa de Carnes Boi à Bessa. O nome sugerindo um açougue de grife não dá a real dimensão daquilo que foi iniciar um negócio familiar. Nelson ressalta que seu açougue era uma portinha, com um único balcão e somente um fornecedor de carnes.


Atualmente, dá para traçar um paralelo entre a avenida Nossa Senhora, transformada em um imenso centro de compras e serviços a céu aberto, e o açougue de Nelson.                

O estabelecimento segue a dinâmica da avenida. Disponibiliza gôndolas com produtos fornecidos por diversos frigoríficos. Só de picanha são 13 variedades.


O cliente também tem a opção do disk carne. Nas prateleiras há apetrechos para churrasco, cervejas e vinhos importados e nacionais, condimentos, entre outras delícias que combinam com carne.

 

O homem da hora certa

As novas gerações muito provavelmente jamais entrarão na relojoaria de Orivaldo Bellucci, 71 anos. Afinal, relógios de pulso hoje são mais acessórios do que um item essencial. Portanto: quebrou, é logo substituído.


Obter a hora certa também é uma informação disseminada em vários aparelhos. Entretanto, ter um relógio cuco pendurado na parede de casa não é comum como sacar um celular, que serve também como relógio, despertador, entre outras possibilidades.


Bellucci trabalhava na máquina de um relógio, na última terça-feira, com o mesmo afinco de quando iniciou no ofício. O trabalho é minucioso, é para gente detalhista, com grande concentração e habilidade nas mãos. “Minha paixão é relógio mecânico e antiguidades”, pontua.


Os clientes podem não ser mais confiáveis, assim como os produtos chineses que inundaram o mercado brasileiro com relógios descartáveis.


Mas Bellucci ainda tem uma freguesia especial que valoriza relógios de grife. Sua oficina pode não ser mais requisitada como há 45 anos, quando abriu a Relojoaria Bellucci. Muitos fregueses driblam o conserto de suas máquinas. Bellucci mostra uma etiqueta de um relógio cuco que entrou para conserto em 2009 e não foi retirado pelos donos. A pilha de despertadores deixados na oficina só cresce. Mesmo assim, o relojoeiro trabalha com disciplina. Porém, sabe que não é fácil. “Hoje a concorrência com produtos de 20 reais acabou”, avalia as condições do seu ramo de trabalho.


O luminoso continua a anunciar a relojoaria na quadra 1 da rua Campos Salles,1-16, na Vila Falcão. “Technos, o suíço mais pontual do mundo.”

Não mudou

O que não mudou no açougue é a fórmula de atender com simpatia. O segredo para manter fregueses comprando há 26 anos é a qualidade da carne, sempre fresca e desossada na hora.


Nelson tem no “DNA” a vontade de diversificar comercialmente. Ele explica que, há cinco anos, começou um novo negócio.


O comerciante de carnes criou o restaurante Espetinhos à Bessa, outra marca de sucesso instalada na quadra 9 da Nossa Senhora de Fátima. Passado um tempo, ele negociou o ponto e se manteve como fornecedor dos espetinhos comercializados no restaurante.