A última semana foi de festa para Gloria Pires, que completou 50 anos de idade no dia 23 de agosto. A atriz, que cresceu diante das câmeras de televisão, comemora suas cinco décadas de vida com um trabalho muito ousado nas telonas. Ela interpreta pela primeira vez uma homossexual em uma produção ambientada no Rio de Janeiro dos anos 1950. Além de encarar cenas de sexo com outra mulher em "Flores Raras", que acaba de estrear nos cinemas de todo o país, Gloria atua falando em outro idioma, o inglês.
Para muitos, o rosto dela é quase como o de uma pessoa da família, afinal, Gloria Pires está presente em nossas casas há 45 anos, desde que estreou na novela "A Pequena Órfã" (1968). Ela é dona de uma trajetória recheada de bons papéis, como a Maria de Fátima de "Vale Tudo" (1988) e a Norma de "Insensato Coração" (2011), atuação que lhe rendeu o prêmio de melhor atriz, na categoria televisão, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). "Em todas as personagens que caíram na minha mão, eu procurei contar o que interessava e aprender com elas", comenta Gloria.
Dedicando-se cada vez mais ao seu amadurecimento profissional, a atriz revela por que considera Lota o papel mais ousado de sua carreira e por que teve de enfrentar uma série de desafios para interpretá-la. Vale ressaltar que "Flores Raras" tem como foco o romance entre Elizabeth Bishop - poeta norte-americana vencedora do Prêmio Pulitzer em 1956 - e a arquiteta Lota de Macedo Soares, que idealizou e supervisionou a construção do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro.
Gloria interpreta Lota. "Cenas de sexo são sempre desconfortáveis para nós, atores. Mas essa história não poderia ser contada sem essas cenas", diz a atriz, que afirma que o fato de a personagem ser homossexual não era um problema e, sim, uma solução. "Eu busco desafios. São quarenta e tantos anos fazendo telenovelas. Quando esse convite veio para mim, dei pulos. Foi um presente".
Preocupação
No entanto, ela tinha uma grande preocupação na execução desse trabalho. "A questão de o filme ser falado em inglês foi complicado e me preocupavam mais as cenas de emoção. Filmar em uma língua que não é a sua é muito difícil", explica Gloria, que já morou um ano nos Estados Unidos e também contou com a ajuda de uma professora durante as filmagens.
A atriz australiana Miranda Otto veio ao Brasil para encarar a parceria em cena com Gloria. Ela dá vida a Elizabeth Bishop. "Amei o Rio, assim como a vida e a estética dos cariocas. Percebi que os brasileiros lidam com as coisas de uma forma diferente e gostei muito disso", conta Miranda, conhecida por suas atuações em "Guerra dos Mundos" (2005), "O Senhor dos Anéis - O Retorno do Rei" (2003) e "O Senhor dos Anéis - Duas Torres" (2002).
O filme, dirigido por Bruno Barreto, entrou na vida de Gloria há 17 anos, quando Lucy Barreto comprou os direitos do livro "Flores Raras e Banalíssimas" e procurou a atriz para falar sobre Lota. "Não tinha muito material sobre ela, que não gostava de fotos, mas achei livros que retratavam como Lota falava e agia. Ela tinha intimidade com os peões das obras, rolava uma camaradagem masculina", diz a atriz.
A produção foi rodada no ano passado, mas seu lançamento coincide com discussões sobre homoafetividade em toda a sociedade. "Acho que o filme é um advogado não da causa, mas do bom senso e do respeito, pois mostra de forma simples a vida de duas pessoas do mesmo sexo que se amam. Desmistifica o universo gay", aponta Gloria.
"Flores Raras" custou R$ 13 milhões e abriu o Festival de Cinema de Gramado deste ano. Gloria, inclusive, foi a atriz homenageada na abertura com o Troféu Oscarito. O filme também promete projetar a brasileira mundo afora. Foi vendido para vários países, como Alemanha, Coreia e Escandinávia. Nos Estados Unidos, a produção será lançada em novembro em cinco cidades e a ideia dos produtores é que o longa-metragem concorra em categorias do Globo de Ouro e, posteriormente, a uma vaga entre os indicados ao Oscar.
Crítica: ?Flores Raras?
A relação entre a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) e a paisagista brasileira Lota de Macedo Soares (1910-1967) é o tipo da história que pede para ser contada. Além do romance entre duas mulheres criativas, inteligentes e ousadas, e seus naturais choques pessoais e culturais, surge aí a possibilidade de um retrato de época do efervescente Brasil do início dos anos 1950 e 1960, atropelado pela ditadura militar, e tantos outros temas, comportamentais e políticos, que poderiam caber num filme.
Flores Raras, o filme do diretor Bruno Barreto que tenta dar conta de alguns aspectos dessa fascinante história, tem alguns trunfos a seu favor, o principal deles a presença de duas atrizes experientes e carismáticas, a brasileira Gloria Pires para o papel de Lota, e a australiana Miranda Otto como Elizabeth.
Se o filme tem alguma carga de emoção, isto se deve sobretudo à entrega das duas intérpretes que, não raro, superam as limitações de um roteiro irregular, que passou por várias mãos - primeiro Carolina Kotscho, depois Matthew Chapman e Julie Sayres, tendo como ponto de partida a biografia de Carmem L. Oliveira, "Flores raras e banalíssimas", que inspirou o título do filme.
Incomoda, especialmente, uma inadequação da direção das atrizes, que se observa particularmente em Gloria Pires, em alguns momentos, transformando a impetuosidade e energia de sua Lota numa caricatura de masculinidade forçada. Sai-se melhor Miranda Otto para encarnar a delicadeza instável da poeta, sofrendo de alcoolismo e depressão e que vai desabrochar no Brasil sua personalidade literária mais profunda, vencendo, enquanto vivia aqui, seu primeiro prêmio importante, o Pulitzer, em 1956.
O filme apresenta uma figura menos conhecida, e o terceiro vértice de um triângulo amoroso, a americana Mary (Tracy Middendorf). Companheira de Lota, ela era ex-colega de Elizabeth na Universidade de Vassar. A poeta vem visitá-la, em 1951, no auge de uma crise pessoal. É aí que Lota se apaixona por Elizabeth, iniciando-se uma relação que duraria quase 20 anos.
O contexto histórico e cultural, aspecto importante num filme que transita entre dois países e duas culturas, num momento histórico muito rico, é outro aspecto em que roteiro e direção falham. Por mais que o foco seja a relação entre as protagonistas, há diversos momentos em que a realidade política permeia sua história, até porque um dos melhores amigos de Lota era o jornalista e político Carlos Lacerda (Marcello Airoldi).
O retrato de Lacerda, aliás, é uma das maiores inconsistências históricas do enredo, edulcorando a figura do político, conspirador de primeira hora, quando governador da então Guanabara, a favor do golpe de 1964. Este e outros aspectos passam ao largo, atenuando-se o lado mais polêmico de Lacerda, apresentado como um intelectual tranquilo, que falava tão bem o inglês, além de um governador de visão, que chamou Lota para idealizar o Parque do Flamengo.
Mesmo quando tenta introduzir a realidade social, de desigualdade do país, no oásis do magnífico sítio na Samambaia, em Petrópolis, onde viviam as protagonistas, falta sutileza - caso da sequência em que Lota acompanha Mary à casa de uma família pobre, concretizando a virtual "compra" de um bebê para a companheira, obcecada pela maternidade.
As questões que esta história atravessa, sejam íntimas e pessoais, sejam históricas, certamente são de uma complexidade enorme. Assim, seu tratamento no filme ressente-se não só de um aprofundamento, como de um tom menos mecânico da direção. Por tudo isso, escapa nas entrelinhas o grande filme que Flores Raras poderia ter sido.