09 de julho de 2026
Internacional

Chegada de boliviano abre crise no Brasil

Por Gabriela Guerreiro, Valdo Cruz, Filipe Coutinho e Rodrigo Russo | Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Apesar da participação de um diplomata e de dois fuzileiros navais brasileiros, o Itamaraty informou que abriu inquérito interno para investigar a entrada no Brasil ontem do senador boliviano Roger Pinto Molina, que é opositor do governo Evo Morales e estava refugiado havia quase 15 meses na embaixada brasileira em La Paz.


A versão do Planalto e do Itamaraty é de que o governo não autorizou e nem sequer sabia da operação para retirar Molina do país vizinho.


Por isso, o Ministério das Relações Exteriores soltou nota para informar que irá “tomar as medidas administrativas e disciplinares cabíveis” contra os responsáveis.


O encarregado de negócios em La Paz (espécie de embaixador interino), Eduardo Saboia, tido como o principal articulador da ação, foi convocado por telefone e era esperado ontem em Brasília para prestar esclarecimentos.


A interlocutores, Saboia disse que não aceita a posição de “bode expiatório” e que vai contar tudo sobre a situação do senador na embaixada e sobre sucessivas advertências que teria feito ao Itamaraty, sem sucesso, de que era preciso tirá-lo de lá.


Diplomata experiente, ele foi o responsável, por exemplo, pela negociação que libertou 12 corintianos presos após a morte de um torcedor boliviano em fevereiro. Ele não foi localizado hoje pela reportagem.


O advogado brasileiro de Molina, Fernando Tibúrcio, afirmou que o Itamaraty foi avisado, durante a semana, da possibilidade de que uma medida fosse tomada para resolver a questão do asilado.


Segundo o senador Ricardo Ferraço (PMDB-ES), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, também envolvido na operação, o diplomata Saboia participou ativamente da retirada do senador e da sua proteção até a fronteira.


‘Criminoso’


Na sua primeira manifestação, o governo da Bolívia disse considerar que o senador fugiu de seu país como um “criminoso”, além de esperar explicação oficial do Brasil.


Molina é acusado por Morales de assassinato, desacato e dano ambiental. Ele nega as acusações.


Apesar disso, a ministra de Comunicação do país, Amanda Dávila, garantiu que as relações bilaterais se mantêm em situação de “absoluta cordialidade e respeito”.


O chanceler Antonio Patriota adiou uma viagem que faria à Finlândia e, conforme a reportagem apurou, telefonou para o colega boliviano, David Choquehuanca, informando que o Itamaraty foi surpreendido e não autorizou nem tomou conhecimento antecipado da operação.


A presidente Dilma Rousseff também não teria sido informada previamente e teria reagido com irritação.


A situação é classificada como “delicadíssima” no governo, mas não há intenção de extraditar Molina a La Paz, por “questão humanitária”, já que ele estaria doente.


Durante o deslocamento de La Paz até o Brasil, o grupo foi interceptado pelo menos três vezes pela polícia da Bolívia ao longo do percurso de 1.600 km, mas Ferraço disse que Molina conseguiu seguir viagem e chegar em 22 horas em razão da imunidade diplomática do veículo e da presença do diplomata brasileiro.


Ao chegar a Corumbá (MS), Molina embarcou para Brasília, onde chegou ontem de madrugada, em um avião particular cedido por um empresário capixaba, amigo de Ferraço - o senador brasileiro não revelou a identidade.


Ferraço disse que optou pela aeronave para não colocar novamente em risco a vida do colega boliviano, já que a região de fronteira é alvo de narcotraficantes.


O parlamentar boliviano recebeu asilo do Brasil em junho do ano passado.