Em discurso no qual apresentou os argumentos para um ataque à Síria, o secretário de Estado dos EUA, John Kerry, deixou claro ontem que a ação militar que seu governo prepara para os próximos dias tem por objetivo preservar a “credibilidade americana” junto a regimes como Irã e Coreia do Norte.
“Isso importa além das fronteiras da Síria. É sobre se o Irã se sentirá confiante, na ausência de ação, para obter armas nucleares. É sobre Hizbullah, Coreia do Norte e todos os grupos terroristas ou ditadores que podem contemplar o uso de armas de destruição em massa”, diz.
A declaração mostra que a motivação humanitária não é a única para o ataque contra o ditador Bashar al-Assad, após o uso de armas químicas na semana passada.
Momentos após a fala de Kerry, o presidente Barack Obama também se pronunciou. Disse que a decisão sobre a iminente intervenção ainda não foi tomada e reiterou que a ação planejada será limitada e não envolve tropas terrestres.
A ideia é um ataque a alvos militares de Assad, como punição pelo uso das armas químicas, mas sem necessariamente tomar parte na guerra civil do país.
Tanto Kerry (que foi mais incisivo) quanto Obama deixaram claro que o ataque com armas químicas não ficará sem resposta.
“Eu garanto que ninguém está mais cansado de guerra do que eu, mas o que eu também acredito é que parte de nossas obrigações como líder no mundo é garantir que quando você tem um regime que está disposto a usar armas que são proibidas pelas normas internacionais sobre... pessoas, incluindo crianças, que eles sejam responsabilizados”, disse Obama.
Iraque
Kerry tentou afastar a memória dos erros cometidos no Iraque, em 2003, quando a falsa existências de armas de destruição em massa foi usada como pretexto para o ataque. Ele se preocupou em enfatizar que o trabalho da equipe de inteligência da ONU foi minucioso.
“Não vamos repetir aquele momento”, disse. Ele anunciou relatório divulgado pelo governo que trouxe, entre outros dados, o cálculo de 1.429 mortos no ataque do dia 21, incluindo 426 crianças.
Esforçando-se em fundamentar a posição, Kerry enumerou conclusões tomadas pela investigação, como o registro de que, antes do ataque, equipes do regime prepararam a área e se preveniram com máscaras.
O governo dos EUA também diz ter descoberto o horário e o local de onde partiram os ataques, em áreas sob controle do regime. Apenas destinos mantidos pela oposição teriam sido atingidos, sempre segundo a investigação americana.
Ele dedicou parte do discurso para dizer que não espera autorização da ONU para o ataque, por causa da obstrução russa.
ONU pode levar até 2 semanas para analisar amostras
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, disse aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança que a organização poderá levar até duas semanas para apresentar o resultado final das análises das amostras que inspetores recolheram no local de um ataque com armas químicas na Síria, disseram diplomatas ontem.
Ban afirmou isso a representantes de Grã-Bretanha, China, França, Rússia e Estados Unidos durante uma reunião em Nova York, afirmaram diplomatas à reportagem sob condição de anonimato.
Cameron humilhado
Humilhado pela derrota de anteontem no Parlamento britânico, o primeiro-ministro David Cameron afirmou ontem que o Reino Unido não participará de uma possível intervenção militar na Síria.
Ele prometeu respeitar o resultado da votação que rejeitou sua proposta de ação e ligou para a Casa Branca para informar o recuo ao presidente dos EUA, Barack Obama.
O revés deixou o premiê em situação frágil em seu país e no exterior. Cameron havia se antecipado ao aliado no início da semana, ao pedir aval da ONU a um ataque contra Assad. “Vamos continuar a condenar o que ocorreu na Síria. Mas uma coisa que foi proposta, o possível envolvimento britânico em alguma ação militar, não vai ocorrer”, disse.
Norte-americanos ainda são contra
A maioria dos norte-americanos continua se opondo a uma intervenção dos Estados Unidos na guerra civil síria, mas a resistência diminuiu depois do suposto ataque químico da semana passada contra subúrbios rebeldes de Damasco, segundo uma nova pesquisa Reuters/Ipsos.
O levantamento deixa claro quanto trabalho o presidente Barack Obama tem pela frente para angariar apoio popular para uma ação militar que puna o governo sírio pelo ataque.