No momento em que os mercados de câmbio e financeiro são submetidos a enormes tensões em todo o mundo por conta de anúncios equivocados de mudanças na laxista politica monetária americana ? que vêm produzindo enorme confusão - é tranquilizador acompanhar as respostas rápidas e eficientes das autoridades monetárias brasileiras.
A decisão unânime dos membros do Conselho de Política Monetária do Banco Central na última quarta-feira de elevar em meio ponto percentual a taxa referencial de juros - a SELIC para 9% - numa rápida reunião trouxe mais tranquilidade aos mercados financeiros , ao sinalizar a continuidade da estratégia cujos resultados se aproximam do objetivo para a meta da inflação este ano.
Foi igualmente serena a ação do Banco Central logo após a divulgação da Ata da reunião de 30/31 de julho do Comitê Monetário do Banco Central dos Estados Unidos, quando o nervosismo tomou conta dos mercados de câmbio porque os operadores entenderam que fora decidida a antecipação para setembro do processo de redução das compras mensais de 85 bilhões de ativos, incentivo que mantém a taxa de juros real americana próxima de zero e o dólar desvalorizado em relação às outras moedas.
A cada reunião do FED o mercado tenta prever quando este movimento vai começar porque isso produzirá uma reorientação do movimento dos capitais. Antecipa, assim, uma desvalorização de todas as moedas dos países emergentes, dando origem a um forte processo especulativo que costuma fugir a qualquer tentativa de controle. Em menos de três meses as esperadas atas do FED provocaram graves distúrbios no mercado financeiro internacional. A mais recente Ata (de 31 de julho) não conseguiu transmitir qualquer informação útil que o mercado já não soubesse e não forneceu nenhuma indicação de que o próprio FED saiba um pouco mais do que já sabia. O que restou ao "mercado", portanto, foi continuar especulando...
No Brasil o efeito mais visível daquelas tensões revelou-se no nervosismo do mercado cambial. A taxa de câmbio deu a impressão de que estava fora de controle e assistimos a uma queda dos preços dos papéis do Tesouro devido à alta da taxa de juros que induziu os investidores a mudarem seus portfólios. As respostas das autoridades monetária e fiscal foram prontas e adequadas. A Secretaria do Tesouro recomprou papéis para dar saída menos onerosa aos seus portadores. O Banco Central fez intervenções precisas e rápidas para reduzir a volatilidade, sem se comprometer com a defesa do nível da taxa. A decisão de dar liquidez diária e assumir o papel de fornecedor de "hedge" para o mercado de câmbio, como já fez no passado em outros momentos delicados, foi correta, transparente e sinalizadora, de forma suficiente a tranquilizar o mercado.
O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC