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Éder Azevedo |
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Edson Bicalho no Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas de Bauru e Região |
O sindicalista Edson Bicalho é um lado da moeda de um sindicalismo que escapa à ingenuidade da diferença estabelecida por séculos de guerra entre capital e trabalho. Ele integra uma corrente de sindicalistas preocupada com o homem e suas extensões, inserido em um mundo de aprendizado constante e repleto de contradições.
A própria realidade do sindicalismo atual propõe desafios micros e macros a Edson Bicalho. O sindicalista pode, no mesmo dia, ter que resolver uma demanda de um trabalhador de Bauru, enquanto negocia acordos internacionais de entidades representativas dos trabalhadores. Ele representa 5 mil pessoas respaldadas pelo Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas de Bauru e Região.
Bicalho é secretário-geral da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Químicas e Farmacêuticas, entidade que representa cerca de 165 mil trabalhadores do setor químico no Estado de São Paulo. Sexta-feira passada, ele assumiu o segundo mandato como secretário-geral da Federação. Também é secretário de Relações Sindicais da Força Sindical para a América Latina e Mercosul. Representa os trabalhadores brasileiros no Mercosul e Unasul quanto a questões trabalhistas. Nesta semana, cumpre agenda no Paraguai. Bicalho ainda integra a diretoria da IndustriALL Global Union. A entidade, fundada em 2012, reúne as três maiores federações internacionais de trabalhadores na indústria, representando aproximadamente 50 milhões de trabalhadores dos setores metalúrgico, químico e têxtil em todo o mundo.
Ele completará 48 anos no dia 20 de setembro. Com agenda lotada, mantém a serenidade de quem já percebeu que a briga não é de um homem apenas, e passa pela conscientização dos trabalhadores em todas as partes do mundo para uma vida mais digna. Na sequência, leia a entrevista do sindicalista ao JC.
Jornal da Cidade - Qual a sua grande ambição?
Edson Bicalho - No movimento sindical eu não tenho nenhuma grande ambição a não ser representar aquelas pessoas, que são os pais e mães de famílias, pessoas simples e que dependem do nosso trabalho. Nunca fui candidato a nenhum cargo público, como vereador, deputado, Senador, prefeito. Tem gente que usa o sindicato para se promover e depois que vira candidato vira as costas. Como fui um trabalhador rural e de uma indústria. Fui explorado. Venho de uma família humilde da roça. Lembro que quando trabalhava na empresa, fui explorado e não tinha quem me representasse de verdade. Quando tive oportunidade de virar um líder, a primeira coisa que pensei é que todos os dias eu lembro do meu passado. Quando alguém vem aqui, a gente tem que achar uma resposta. Positiva ou negativa.
JC - Qual a relação ideal entre patrão e empregado?
Bicalho - A relação ideal é a busca do diálogo. As pessoas têm que ter maturidade para sentar e resolver. E tem que buscar a solução. Tem trabalhador que forja coisa que não existe e tem empresário que tenta fraudar também. A época da truculência já passou.
JC - Como avalia o Brasil de hoje?
Bicalho - Precisamos de uma grande reforma no Brasil por mais transparência e acabar com a corrupção. É o grande mal que assola o País e todos nós pagamos por isso. Pagamos um preço alto. Uma das coisas que eu imagino é se colocasse na grade curricular o mínimo de noção para o aluno para você formar novos cidadãos para ter um País com mais decência e transparência e com dignidade. Cada dia que passa, novos escândalos e novas corrupções. E não acontece nada. Quando se prende, não se recupera o dinheiro roubado. É uma frustração que eu tenho.
JC - As relações comerciais no mundo transformaram a maneira de fazer sindicalismo?
Bicalho - Muito, porque é globalizado e o comércio feito por papeis e meios eletrônicos. Antigamente, cada um vivia em seu mundinho. E hoje o mundo está todo interligado com multinacionais. Relações bancárias feitas eletronicamente. Uma mudança muito radical.
JC - De que maneira a globalização ameaça os direitos trabalhistas?
Bicalho - As grandes empresas, as multinacionais, normalmente quando migram de país, migram pensando só em ganhar dinheiro. Não tem compromisso com aquele governo e com aquela população. Se preocupam com o dinheiro. Quando não conseguem mais ganhar dinheiro no Brasil, vão embora para o Paraguai, Argentina, Uruguai. O movimento está se organizando. Criamos agora a IndustriALL com representação de 140 países e 50 milhões de trabalhadores do mundo. Faço parte da direção dessa entidade. É para organizar os trabalhadores em rede. Você pega uma empresa que tem em algumas partes do mundo e organizamos os trabalhadores em rede. Qual o comportamento dessa empresa nos EUA, no Brasil ou em qualquer outro lugar. Ela não dá o mesmo tratamento no mundo todo. Nos países menores, onde a organização dos trabalhadores é frágil, acaba explorando mais. Essa entidade foi criada pensando justamente em organizar os trabalhadores em rede. O movimento na Colômbia não consegue se organizar. Lá mantam 2 mil dirigentes sindicais por ano. No momento que começou a organizar, eles foram assassinados. Na América Latina, em alguns países da África, da Índia, você tem uma dificuldade porque não tem uma cultura de organização nem dos trabalhadores e nem do lado empresarial. As empresas procuraram ir para esses países e lá exploram. Nós vimos de maneira clara na Tailândia, o prédio desabou e matou aquele monte de trabalhador. Ali não tinha organização sindical. As empresas se beneficiam com a intenção do trabalho escravo. Em São Paulo, quantos bolivianos em trabalho escravo trabalhando para grandes marcas do mundo.
JC - Na América do Sul, qual é a principal reivindicação dos trabalhadores da indústria?
Bicalho - A organização sindical brasileira, com todos os problemas que nós temos, ainda é a melhor do mundo. É disparadamente a melhor na América Latina. Temos grandes sindicatos e sindicatos fortes. Temos acordos coletivos muito bons. E aonde não tem, há a CLT. Não há nenhum país no mundo com as garantias que nós temos na CLT. Mesmo na Europa, por exemplo, você não tem as garantias mínimas. Você é contratado para trabalhar por dia, por hora e sem essas garantias. A nossa CLT, que tantos lutam para acabar com ela, é justamente para precarizar. Hoje, você tem os acordos e as convenções coletivas que passam acima da CLT. Quem não tem nada, tem a CLT. Em outros países do mundo, para o trabalhador conseguir emprego tem que ser sindicalizado. O sindicato funciona como agenciador de emprego. O sindicato é que indica você para a empresa. Na América Latina nós temos a grande dificuldade que quando se criou o Mercosul, foi pensado como acordo comercial e não tinha uma visão social. O grande desafio nosso é colocar a questão social no Mercosul. Estamos em fase de inclusão da Bolívia, Equador,Guiana e Suriname. E bem adiantada a Venezuela. O Mercosul tem um programa, o Fundo de Convergência Estrutural do Mercosul, com aporte anual 100 milhões de dólares. O Brasil aporta nesse fundo 70%, Argentina, 27%, Uruguai, 2% e Paraguai, 1%. Agora, o retorno desse dinheiro para investir em infraestrutura. O Brasil recebe de volta 10%, Argentina, 10%, o Uruguai, 32% e o Paraguai, 48%, para investimento em transporte e hidrovia. Com a entrada de novos países, como a Venezuela é um complicador. Com a possibilidade de entrada da Bolívia, Equador, Suriname e Guiana conta a visão política. Quando se tentou criar a Alca (Área de livre comércio das Américas), os Estados Unidos queriam dominar toda a América do Sul e não conseguiram porque os países fizeram resistência. Quando criou o Mercosul era para fazer frente aos Estados Unidos nas negociações comerciais, Europa e países asiáticos. Depois foi criado esse acordo Transpacífico, que é México, Chile, Peru e Colômbia. O Mercosul pensou: “Nós só vamos brigar no Mercosul para fazer contraponto ao Transpacífico.” O Transpacífico é todo liberal e tem acordos comerciais com todos países do mundo. O Mercosul só negocia em bloco. Então, trazer mais países para fortalecer o bloco para fazer frente às negociações com China, Índia, Europa, Estados Unidos.
JC - O que mudou no jeito de fazer política sindical?
Bicalho - A forma de comunicação. Antigamente você tinha o sindicato ligado a reajuste de salário. Hoje se você não tiver uma estrutura ampliada. Vai se preocupar com outros itens, como saúde e educação. Você só olhar a questão salarial, você perde a representatividade dele. Sindicato tem que ser cidadão. Se preocupar com o bairro em que ele mora, com a condição de vida que ele leva, com o transporte de qualidade no município. Ele cobra isso. Olhar as condições de trabalho na empresa. A visão do próprio trabalhador mudou e a cobrança do sindicalista ampliou muito. Tem cursos gratuito, como agente comunitário de saúde em parceria com o Senac. Semana da Diversidade patrocinamos o trio elétrico. Distribuindo material escolar para o filhos dos associados. Fazemos parte da Comissão Municipal de Emprego, do Conselho Municipal de Saúde, Conselho da Previdência em Bauru. Estamos organizando um evento para 1000 alunos do ensino médio e que, em 2014, vão cursar uma faculdade. Vamos organizar para trazer aqui o governador e o secretário do Emprego e Relações do Trabalho (Sert) e alguns prefeitos e secretários municipais de educação da região. Um profissional para falar do mercado de trabalho. Precisamos cuidar de quem vai entrar no mercado de trabalho e quem saiu e deu sua cota de trabalho.
JC - Há algum sindicalista que é seu ídolo?
Bicalho - Lula. Trabalhei em todas as eleições do Lula. Trabalhei na da Dilma. A Força Sindical é pluripartidária. Temos todas as correntes partidárias na Força. Aqui no sindicato tem pessoas em vários partidos. Sempre fui lulista. Uma pessoa que vi no movimento sindical e foi o melhor de todos. Como presidente da República, foi o melhor. À exceção dele e do Nelson Mandela, não existe. Onde ele vai, arrasta multidões. Não só no Brasil, mas fora também. Atrai trabalhadores, estudantes e empresários. Se não fez tudo que poderia pelo País, sempre foi um cara de diálogo. Diferente da Dilma, que não ouve muito as pessoas e é mais mandona. Ele construía as propostas, e isso faz dele uma pessoa diferenciada.
JC - O que pensa da reforma sindical?
Bicalho - Sou favorável à reforma e que não tenhamos a proliferação dessa indústria de sindicatos. Porque quanto mais você divide, mais você enfraquece a organização dos trabalhadores e fortalece a organização empresarial. Tem muito sindicato de gaveta, que não funciona. Tem que existir quem tem compromisso com o trabalhador. E que venha a reforma. Virou um meio de vida para muitos e que não tem nenhum tipo de compromisso com o trabalhador.
Perfil
Nome: Edson Dias Bicalho
Idade: 47 anos
Local de Nascimento: Pacaembu, SP
Signo: Virgem
Esposa: Vilma Ralo Bicalho
Filhos: Gabriele Ralo Bicalho e Michele Ralo Bicalho
Hobby: Futebol
Filme preferido: Comédia
Estilo musical predileto: Sertanejo
Time: Corinthians
Para quem dá nota 10: é difícil
Para quem dá nota 0: classe política brasileira
E-mail: bicalho@fequimfar.org.br