09 de julho de 2026
Esportes

Noroeste aos 103 anos: 'esqueceram de mim...'

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 14 min

Malavolta Jr.

Para diretor da Sangue Rubro, o apoio da torcida é fundamental com relação ao incentivo necessário aos jogadores

“You’ll never walk alone”. Em tradução livre, “você nunca caminhará sozinho”, é o título de uma canção de um musical dos anos 40 que virou hino extraoficial de uma equipe de futebol com camisa vermelha, cantada por seus fanáticos torcedores a cada jogo e está gravada no escudo do clube e sobre os portões de entrada de seu estádio, o Anfield. Trata-se do Liverpool, um dos orgulhos da cidade de mesmo nome - exceção para os torcedores do arquirrival Everton -, ao lado da maior banda de todos os tempos, The Beatles.

A camisa é vermelha, mas as coincidências com o Noroeste, que completa 103 anos hoje, param por aí. Se o tradicional Noroeste não chega a caminhar sozinho, anda pouco acompanhado. Um dos símbolos e referências de Bauru, ao lado do sanduíche que leva o nome da cidade, o Norusca está meio distante, afastado e esquecido por aqueles que representa. Afinal, normalmente, o nome Noroeste vem precedido pelo complemento “de Bauru”

Não foram poucas as vezes que este repórter em viagens pelo País identificou o vermelho da camisa noroestina pelos lugares menos esperados. Bauru, de certa forma, estava lá. O centenário Norusca é sinônimo de Bauru onde quer que “caminhe”. Mas por que, afinal, a relação com a maior parte dos bauruenses esfriou? Os números não mentem. A média de público neste ano é 552 pagantes no Estádio Alfredo de Castilho. O time chegou a jogar para 177 torcedores na Série A-2 (veja números em quadro na página 12). Tudo bem que o desempenho em campo e a política do clube não ajudam, mas também são raros em temporadas anteriores públicos que superem a casa dos mil torcedores. Para efeito de comparação, o Marília, que jogou a Série A-3, teve média de 1.367 pagantes por jogo nos nove confrontos como mandante da fase de classificação. Não estão computadas as partidas da fase final, onde o time teve média de 4 mil torcedores.

O centenário Noroeste é um clube que surgiu da ferrovia e para os ferroviários. Uma relação íntima com uma categoria fundamental para o crescimento de Bauru. Porém, uma identificação gritante com apenas um segmento dos bauruenses. Quando o Bauru Atlético Clube (BAC) estava ativo, não eram poucos os que afirmavam que o clube da cidade era o BAC.

“Bauru não é realmente uma cidade identificada com o Noroeste. Até porque havia a divisão entre Noroeste e BAC. Eram dois times na cidade e era uma disputa ferrenha. Quem era noroestino não usava nem roupa azul. E do lado do BAC também ninguém punha vermelho. A cidade era menor e era uma briga. Tem muita gente ainda hoje, filhos que acompanharam o pai (baqueano) que hoje têm resistência ao Noroeste em virtude de ser baqueano”, analisa o radialista J. Augusto, que acompanha o Noroeste há mais de cinco décadas e há 23 anos é repórter setorista no Alfredão.

O jornalista e historiador Luciano Dias Pires também lembra a rivalidade Noroeste/BAC. “Bauru é difícil. Já chegou a ter dois grandes times profissionais. Na época do Bauru Atlético Clube, embora o time jamais tenha ingressado na primeira divisão, a torcida era dividida entre as duas equipes. Quando o Noroeste subiu para a divisão especial (campeão da segunda divisão em 1953), Bauru já não iria aguentar duas equipes. A atenção era voltada mais para o Noroeste”, relata.

O BAC desativou seu futebol profissional em 1952, ensaiou um retorno às competições oficiais no começo da década de 60 e encerrou de vez as atividades no finalzinho da mesma década.

Da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, o Norusca herda mais do que o nome, o vermelho e o mascote, a “Maquinha Vermelha”. “O clube foi fundado realmente por ferroviários e todos os campos do Noroeste foram construídos pela ferrovia. Em 1935, inaugurou o antigo Estádio Alfredo de Castilho, que foi consumido pelo fogo (em 1958). Depois, houve liberação de verba da rede ferroviária federal e foi construído o estádio da Vila Pacífico”, discorre Pires. Além do estádio, o clube herdou todo um complexo, com parque aquático e ginásio. A época áurea da ferrovia coincide também com uma fase brilhante do Norusca. “Havia grande lotação no estádio, eram 15, 20 mil pessoas. O Noroeste enfrentava grandes equipes aqui. Em 1954, ganhou jogo decisivo do Marília (referente ao Campeonato Paulista de 1953 e partida do acesso), quando Bauru tinha 80 mil habitantes e eram dez mil pessoas no campo. Hoje não acontece mais isso”, lamenta Pires.

Para Pires, faltou continuidade. O parque aquático do Alfredão foi desativado e se deteriorou por anos à espera de reforma. Acabou aterrado, sepultando um passado de vida social no clube. “Não souberam aproveitar. A Vila Falcão era um bairro de Bauru carente de clubes. O Noroeste chegou uma época que era o único clube na Vila Falcão, inclusive com um grande quadro associativo, que frequentava o clube. Foi uma fase áurea, muito bonita do Noroeste.”

Pouco apoiado, o Noroeste sobrevive em altos e baixos, rebaixado e campeão na temporada passada, quando caiu na A-2 e conquistou a Copa Paulista, e novamente rebaixado neste ano. A histórica rivalidade com o BAC dentro de campo acabou há meio século, os dormentes da ferrovia apodrecem e os gritos que vêm das arquibancadas rareiam, mas o tradicional clube representa Bauru há mais de um século e é sinônimo da cidade, afinal, existe também vermelho na bandeira de Bauru. Dia 1 de setembro: 103 anos. Apague as velas, Noroeste! No pedido, deseje não vir a caminhar sozinho nunca.


Nome da cidade

Esporte Clube Noroeste. O clube de Bauru não tem o nome da cidade. Esta já foi uma crítica comum. O rival Bauru Atlético Clube, antes Lusitana, tinha. A comparação sempre era feita pelos arquirrivais. Aliás, já houve polêmica na cidade com a uma ideia de trocar o nome da agremiação para algo com Bauru no nome.

O Noroeste era o clube da Noroeste e estendia sua representatividade para Mato Grosso. Aonde a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil chegava, o clube era o Noroeste. Porém, com a decadência da ferrovia, sentiu-se a necessidade da identificação com a verdadeira terra do Noroeste: Bauru.

Assim, no início dos anos 90, o escudo do time ganhou o nome da cidade. A palavra Bauru está estampada na camisa alvirrubra como para reafirmar que o Noroeste é de Bauru. A partir de então, com raras exceções, todos os uniformes trazem o escudo com o nome gravado.

“Até então, não levava o nome. É a entidade que divulga a cidade. É o Noroeste de Bauru e resolvemos botar Bauru na camisa. Foi para combater uma eventual deficiência de não ter o nome da cidade”, declara Caio Coube, que presidiu o clube de 1990 a 1993, época na qual o nome da cidade foi adotado no escudo do time.


Problema generalizado

O historiador e jornalista Luciano Dias Pires entende que o fenômeno de diminuição de público nos estádios é generalizado no Interior. “O futebol do Interior está sofrendo muito há vários anos. É o desinteresse da Federação (Paulista de Futebol). Você pega os campeonatos da A-2, A-3 e o público presente nos estádio de 150, 180 pessoas. Não tem ajuda, colaboração”, analisa.

Pires observa que a ausência do “Trio de Ferro”, São Paulo, Palmeiras e Corinthians, e do Santos estrangula o futebol caipira. “Estão tentando até acabar com o Campeonato Paulista. Está resumido. Por exemplo, quando o Noroeste está na primeira divisão, é restrita a presença dos grandes clubes na cidade, só vêm dois”, compara aos tempos em que o Paulistão era disputado em turno e returno e os quatro grandes jogavam em Bauru ano após ano.

O Estadual, naquela época, tinha status de campeonato importante. Hoje, é considerado estorvo pelos quatro grandes clubes do Estado. “Atualmente, o Noroeste também enfrenta a concorrência do basquete (Bauru Basket). Hoje, o basquete conta com apoio de empresas e faz uma bela campanha”, acrescenta Pires.


Não houve renovação da torcida

Houve um tempo em que o Noroeste era um clube com um grande quadro de associados. Os empregados da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil formavam uma massa de torcedores completamente identificados com o clube, eram a motriz da locomotiva vermelha em todos os sentidos, desde o apoio em campo, nas arquibancadas, até no financiamento do clube, através de pontuais descontos em folha salarial. O time viajava pelos trilhos da estrada de ferro e chegou a se apresentar na Bolívia sempre levado pelos cavalos de aço da Noroeste.

Porém, a ferrovia caiu em decadência, os tempos mudaram e o contingente torcedor alvirrubro envelheceu e se esvaziou. O vínculo frágil do time com a cidade de Bauru se escancarou com a não renovação de seus torcedores. A constatação é de dois profissionais da imprensa que falam com propriedade sobre a história alvirrubra: os radialistas J. Martins e J. Augusto, que acompanham o time há mais de 50 anos e trabalham há décadas como setoristas no Complexo Damião Garcia.

“Até o estádio ser passado para o Noroeste, o clube tinha dez mil sócios da rede. Embora o cara fosse praticamente obrigado a contribuir, porque vinha descontado no holerite, o clube tinha dez mil sócios, tinha o clube social, com piscina e lazer aos domingos. Isso, com o tempo, foi acabando e distanciando”, analisa Augusto. “Então, não houve uma renovação para o pessoal mais jovem acompanhar o Noroeste. Os ferroviários foram acabando, deixando de lado e o Noroeste foi diminuindo, diminuindo e houve um distanciamento da cidade”, acrescenta.

Martins e Augusto concordam que o período de decadência nas arquibancadas se acentuou a partir dos anos 90, coincidindo com uma fase ruim do Noroeste, que amargou 12 anos nas divisões de acesso do Campeonato Paulista. “O fato do time ter ficado 12 anos longe da primeira divisão antes da chegada do seo Damião (Garcia, presidente do clube de 2002 a 2012) não criou novos torcedores. O time estava sempre muito embaixo, sempre na segunda, terceira divisão, e não criou uma geração que foi acompanhando”, aponta Martins.

A consequência desta era apelidada de ioiô é o envelhecimento da torcida e desinteresse das novas gerações pelo Alvirrubro, entende Martins. “Os torcedores que vão hoje são os remanescentes da grande torcida que o Noroeste teve um dia. Não se criou uma nova geração em função da falta de aproximação e da falta de identidade de um clube vencedor. O Noroeste ficou 12 anos na Série A-2, Série A-3. Tudo isso ajudou para o afastamento de uma nova geração. Eventualmente, vai um filho, um neto (dos torcedores mais antigos), mas são poucos”, diagnostica o radialista.


Cidade cresceu e clube diminuiu

Outro motivo do desinteresse do bauruense pelo Noroeste, refletido na baixa presença de público no estádio - mesmo com o clube na primeira divisão, os jogos que realmente atraíram presença maciça de torcedores foram contra os quatro grandes clubes do Estado e duelos com Marília, salvo raras exceções - é que a cidade cresceu e o Noroeste deixou de ser a atração para se tornar mais uma opção. É o que entendem J. Augusto e J. Martins. “Hoje a cidade é metrópole e tem muita coisa para as pessoas irem além do futebol. No passado, havia só o futebol. Hoje, não, são vários eventos”, resume Martins.

Augusto argumenta que, em uma cidade menor, o clube de futebol é fator natural de atenção. “Compara-se o Noroeste com Lins, Itápolis, Penápolis, mas para estas cidades é praticamente uma novidade ter um time em uma situação dessas (disputando principais campeonatos). Em uma cidade menor é mais fácil aglutinar o povo em torno de um time de futebol, porque é praticamente a única atração que ele tem”, aponta o radialista.

Augusto entende que o clube diminuiu na importância para o bauruense à medida que a cidade cresceu. “Bauru, com a facilidade e opções de lazer, foi se afastando e não houve renovação. Hoje, muita gente não se identifica com o Noroeste. Tem a Torcida Sangue Rubro, que é muito mais nova do que muitos torcedores antigos, mas é a única que tem e não é um grande número de integrantes”, lembra.

 

Não confio ou não precisa

Augusto destaca que o isolamento do clube se reflete no apoio financeiro local. “As próprias empresas de Bauru não têm esta identificação com o clube. Antes da era Damião Garcia, o que se dizia era: ‘não confiamos em quem dirige o Noroeste’. Não ajudavam. Quando veio o Damião: ‘ah, o Damião não precisa de dinheiro’. E ficou nesta situação”, diagnostica.


Heróis da resistência

A Sangue Rubro, torcida organizada do Noroeste, tem o princípio de nunca deixar o time entrar em campo sem que tenha pelo menos um integrante na arquibancada para apoiá-lo. Tem sido assim nos 26 anos de existência da facção - a Sangue completa 27 anos no dia 13 de dezembro. “O cara deixa a família e vai, para mostrar que existe alguém lá na arquibancada apoiando. Sempre vai ter alguém. O jogador olha e pode ser dois, três torcedores, mas sabe que os caras saíram de casa, madrugaram e foram. O mínimo que ele pensa em fazer é lutar e mostrar disposição”, declara José Roberto Pavanello, diretor de patrimônio e um dos fundadores da Sangue.

O torcedor admite que a torcida merece mesmo o rótulo de “heróis da resistência”. “Chega mesmo a ser cansativo e, muitas vezes, as pessoas nos perguntam ‘como é que vocês resistem?’. É só viajar com a gente e ver o que a gente gasta e o que a gente come. Não vivemos do clube, porque o clube não tem nem para ele”, enfatiza. Entre as ações da Sangue em prol do clube, Pavanello lembra a mobilização em pontos da cidade para venda de ingressos e pacotes dos campeonatos. “Ficamos no Calçadão e muitas vezes somos até motivo de piada e chacota”, aponta.

Pavanello lamenta o distanciamento do clube da cidade e afirma que no período recente a política noroestina foi de isolamento dos torcedores e de ex-ídolos. Para o integrante da Sangue a “Era Damião Garcia” trouxe grandes recursos ao clube, estabilizou e fez o Noroeste crescer, mas afastou o Alvirrubro de seu seguidores e de sua história.

“A minha crítica é em relação às pessoas que eles (família Garcia) trouxeram para administrar o clube. Neste período, o torcedor foi tratado como um desconhecido, você estava impedido de entrar em sua própria casa”, reclama.

O torcedor lamenta que não tenha sido implantada uma política ou ação de marketing para valorizar figuras históricas do clube. “Era uma burocracia. Um monte de torcedores e ex-jogadores foi barrado na portaria. Pessoas que têm uma folha de serviços prestados ao clube. E não é que as pessoas quisessem entrar lá na hora de trabalho, de treino, entrar em vestiário. Não tinha um dia que se pudesse visitar o clube. Acredito que o seo Damião nunca ficou sabendo disso. Acho que ele jamais iria admitir isso.”


Norusca blindado intensificou distanciamento

Se “as vacas magras” da fase pré-Damião Garcia afastaram o torcedor e dificultaram a identidade do bauruense com um Noroeste vencedor, com a chegada do benemérito, que tirou o time da iminência de fechar as portas e o levou de volta à primeira divisão, o problema foi outro: com o vigor financeiro e a consequente boa fase técnica, veio uma administração mais centralizada e completamente independente de Bauru no bom e no mau sentido.

O clube “ensimesmou-se” e gelou uma já historicamente abalada relação Bauru/Noroeste. “O fato de seo Damião ter tido uma administração regada a finanças poderosas, sem precisar tanto do auxílio da cidade, afastou certamente as pessoas que viviam em torno do Noroeste. A própria administração centralizada dele afastou aqueles que ajudavam quando havia necessidade”, analisa J. Martins.

J. Augusto corrobora a tese. “Com a fase Damião Garcia, embora financeiramente a coisa tenha melhorado, afastou-se ainda mais o torcedor. Não houve uma identificação com a cidade. Eles colocavam o dinheiro e a pessoa que eles queriam aqui. Às vezes, chegava um ex-jogador lá e era uma dificuldade para entrar, assim como para os noroestinos antigos, ex-presidentes. Houve um afastamento geral”, constata.

Para Martins, a blindagem alvirrubra ainda reflete na imagem do clube. “A política implantada de blindar o clube, afastando antigos dirigentes, ex-jogadores, criou um clima de antipatia de certa forma. Hoje, o Noroeste não é um local que as pessoas que vêm à cidade querem conhecer, como era no passado. Teve uma boa fase, quando não se precisava de ninguém, que se fechou a porta para ex-dirigentes, ex-noroestinos, ex-jogadores”, declara.

Martins também observa que o clube perdeu a oportunidade de aproveitar a estabilidade financeira para estreitar relações com a cidade através de ações de marketing efetivas. “Não se implantou uma política de trazer novos torcedores. Não houve um projeto para aproximar o clube das escolas, das crianças e não houve uma grande promoção neste sentido. Houve lampejos, mas foram coisas esporádicas”, lamenta. O radialista acredita que o isolamento foi potencializado também pela falta de representatividade das pessoas que falavam em nome do Noroeste, comandando o futebol e o dia a dia do clube em Bauru. “O Noroeste se tornou uma ilha em um oceano”, declara.