A tradição atribuiu a Homero as duas primeiras obras literárias do ocidente: Ilíada e Odisseia. A primeira conta a Guerra de Tróia e a segunda, o difícil retorno de Odisseu (Ulisses) a Ítaca, após muitas aventuras. Uma delas aconteceu no país dos Lotófagos, seres comedores de uma substância ? lótus ? que tinha efeitos estranhos. O fato é que os homens de Odisseu ao se alimentarem de tal substância, "doce como o mel", esqueciam-se de tudo e não mais queriam voltar à pátria. Odisseu precisou arrastá-los aos navios e amarrá-los, para que pudessem partir.
Hoje faz um mês que, vencendo muita resistência interna e cansada de ser olhada por parentes, amigos e alunos como um ser jurássico, entrei no facebook. Ele teve sobre mim efeito semelhante ao da substância dos Lotófagos! Fiquei, e ainda estou, raptada por esse fenômeno. Trabalho muito no computador ? traduzindo, preparando cursos, escrevendo artigos ? e o "face" bagunçou meu ritmo, desfocou meu olhar. Então comecei a refletir. Mas trata-se de um fenômeno recente e próximo e ainda não tenho a distância necessária para vê-lo com clareza.
Algo já sei: como tudo, ele é bom e ruim. Bom, porque encontramos pessoas perdidas no passado, porque nos permite expressar ideias, sentimentos, opiniões ? e olha que alguns se empolgam nessa prática! É um meio fantástico de divulgação e, de certo modo, nos faz companhia. É gostoso ver o que os amigos postam, o que fazem e pensam. Mas é ruim porque, tragados pelo "lótus", corremos o risco de negligenciar a vida fora da tela! Muitas vezes esquecemos os que estão próximos, aqui e agora! Tenho visto, recorrentemente, a seguinte cena: pessoas juntas no restaurante, mas cada uma com seu "i" isso, "i" aquilo: iphone, ipad, ipod, pode??? Jantarzinho romântico nem pensar: os olhares mal se cruzam, pois, a cada cinco minutos, é necessário checar o "face"! Será que estamos desaprendendo a conversar face to face, quero dizer, "ao vivo e a cores"?
Fico pensando nos psicólogos lidando com a nova ansiedade: pessoas deprimidas porque suas postagens receberam poucas "curtidas" ou não foram "compartilhadas"! Outras, ao contrário, abandonam a terapia, pois a autoestima decolou após adicionarem 4326 "amigos" no "face"! Aliás, nesse caso, não sei se "amigo", é o termo melhor! Alguns até perdem amigos lá, perdem namoradas, maridos, funcionários!
Sem dúvida, o facebook é nosso novo brinquedo; brinquedo múltiplo, mágico, colorido! Será ele outra armadilha dos deuses aos mortais, tal como, in illo tempore ("naquele tempo"), eles enviaram aos homens Pandora e sua "caixa" cheia de males??? Só o tempo dirá! Enquanto isso, que encontremos o antídoto para o alimento dos Lotófagos e possamos, de vez em quando, desfrutar um jantarzinho a dois ou uma boa conversa com amigos não virtuais!
A autora, Cristina Rodrigues Franciscato, é jornalista e doutora em literatura grega antiga