11 de julho de 2026
Polícia

Vazamento de gás amônia mobiliza Corpo de Bombeiros

Vitor Oshiro com Paola Patriarca
| Tempo de leitura: 5 min

Éder Azevedo

Equipe do Corpo de Bombeiros foi mobilizada devido ao vazamento de amônia

Um vazamento de gás amônia deixou a Vila Coralina, em Bauru, em estado de alerta na manhã de ontem. Além do susto, o produto tóxico, que vazou de um depósito de alimentos desativado, também fez com que uma mulher fosse levada ao Pronto-Socorro Central (PSC). Apesar de o risco ter sido contido, a substância foi liberada por, pelo menos, uma noite inteira.

Conforme o JCNet divulgou ontem pela manhã, o problema ocorreu na quadra 5 da rua Amapá, onde está localizado o Centro de Distribuição da Seara Alimentos. De acordo com a empresa, o imóvel “está desativado desde antes de ser adquirido pela Seara, há pouco mais de um ano”.

 

Éder Azevedo

Maria José  passou mal e foi parar no pronto-socorro após sentir o cheiro do gás

O gás é usado em câmaras de resfriamento que existem no local. Na noite de anteontem, a faxineira Maria José Moreira, de 44 anos, limpava o galpão quando sentiu forte odor.

“Na hora, tive certeza que era vazamento de amônia. Depois, passei muito mal, tive uma forte dor de cabeça e fui parar no pronto-socorro, onde fiquei tomando soro durante a noite toda”, conta a mulher, que trabalha há quatro anos no imóvel.

Apesar disso, só na manhã de ontem o Corpo de Bombeiros foi acionado. “Fiquei muito assustado quando soube do que aconteceu e senti o forte cheiro do gás. Quando cheguei pela manhã, liguei na hora para os bombeiros. Também tive tonturas e dor de cabeça”, conta o porteiro do depósito, Mauro Sérgio Bonifácio, 37 anos.

Viaturas do Corpo de Bombeiros e a Defesa Civil foram até o imóvel. Além de isolar toda a quadra que é ocupada pelo depósito, interditaram também ruas próximas que davam acesso ao local. A movimentação assustou bastante a vizinhança.

E a preocupação é justificável. O gás amônia é de alto risco, tendo em vista sua toxicidade. Além de danoso ao sistema respiratório, causa irritação nos olhos e, dependendo da exposição, tem efeito corrosivo na pele (leia mais no quadro).

Éder Azevedo

Bombeiros entraram no local com roupas especializadas

Com roupas especiais nível A (a vestimenta só é vulnerável a materiais radioativos) da corporação, os bombeiros entraram no prédio. Dentro do imóvel, usaram um medidor do ar do ambiente e constataram que realmente se tratava de vazamento de amônia.

“Isolamos o local como medida de segurança. Com roupas específicas, entramos na fábrica. Além disso, fechamos os registros de entrada do tanque e do painel de controle”, relata o comandante do Posto de Bombeiros, tenente Victor Félix Tozi Bonfim.

Além de tóxico, o gás também é inflamável. Por isso, foi desligada a energia elétrica do prédio.


Tubulação

De acordo com os bombeiros, o tanque de amônia do depósito tem capacidade de 4 mil litros. Porém, tanto a corporação quanto a Defesa Civil afirmam que o problema não estava no tanque, mas sim na tubulação.

“A amônia que vazou era dos tubos ligados ao tanque. Por isso, os registros foram fechados. Não acreditamos que houve um vazamento muito grande”, aponta o coordenador da Defesa Civil, Álvaro de Brito.

Por volta das 15h, os órgãos deixaram o depósito. O tenente Victor Bonfim explicou que, naquele momento, os níveis de amônia já eram considerados aceitáveis. “Só deixamos o local aberto para a ventilação. Se mantiver tudo fechado (os registros ligados ao tanque), não há mais riscos por enquanto”, disse o oficial.

Em relação à faxineira que foi exposta, ele afirma que ela correu grande risco por ter entrado no local sem qualquer equipamento de proteção.

“A recomendação é de que ela procure um médico para fazer uma avaliação e verificar se há alguma sequela”, completou o tenente.

A reportagem do JC esteve de volta ao local por volta das 16h30. Mesmo com todas as janelas e portas abertas, o cheiro ainda era evidente.

No fim da tarde, um técnico da Seara chegou ao local. Ele, entretanto, não foi autorizado a dar entrevistas.

“Por precaução, a empresa isolou a área e uma equipe de técnicos está no local realizando a manutenção necessária e monitorando os equipamentos”, disse a empresa, em nota emitida pela assessoria de comunicação.


Vizinhança trancou portas e janelas

O isolamento do depósito seguido da grande movimentação de bombeiros e imprensa deixou a vizinhança do imóvel assustada. Temor que aumentou quando souberam do que se tratava. E não foi para menos. Os riscos da amônia no organismo são muito preocupantes. Teve comércio que até fechou as portas.

Foi o caso de Vilma Tavares, 51 anos, que é proprietária de um petshop bem ao lado do depósito da Seara.

“Eu baixei as portas. Fiquei com medo. Além do que pode acontecer comigo, há também os cachorros que ficam aqui. Eles são mais sensíveis”, disse.

O local só foi reaberto no fim da tarde de ontem. “E o pior é que ninguém nos avisou nada. Nem quando chegaram e nem quando saíram. Ontem (anteontem) mesmo eu tive uma dor de cabeça. Quem sabe foi por conta desse vazamento”.

Já Clélia Mara Salvador Vitalino, 86 anos, mora bem em frente à entrada do depósito. Ela chegou em casa com toda a movimentação no local.

“Fiquei assustada quando vi tudo aquilo. Nunca senti cheiro de nada por aqui. Mas só fico fechada dentro de casa. Acho que nem ia sentir. Se eu tivesse que morrer, já estaria morta”, complementou.


Técnico da Cetesb vistoria o local e a companhia promete ‘medidas cabíveis’

Um técnico da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) foi até o depósito e, de acordo com a assessoria de comunicação do órgão, confirmou o vazamento do gás amônia. “A Cetesb vai tomar as medidas cabíveis”, complementou.

Em nota, a Seara Alimentos informou que, mesmo com o depósito desativado, “as manutenções necessárias foram realizadas”.

Apesar de o gás ter começado a vazar na noite de anteontem e só ter sido contido na manhã seguinte, a empresa ainda complementou que “o vazamento ocorrido nesta manhã (ontem) está sob controle e representa baixo risco, conforme avaliação do Corpo de Bombeiros e demais autoridades presentes no local”.

A quantidade de gás que vazou, contudo, não foi informada nem pela empresa e nem pelos órgãos que fizeram a contenção do problema.


No passado...

Apesar de ter sido comprado pela Seara Alimentos há pouco mais de um ano, o prédio, segundo a Defesa Civil, está desativado há cerca de uma década. E não seria a primeira vez que um vazamento de amônia acontece ali.

“No passado, quando ainda era outra empresa, houve um vazamento semelhante. Faz alguns anos que isso ocorreu já”, disse o porteiro do depósito Mauro Bonifácio.