11 de julho de 2026
Articulistas

Análise da economia é um filme e não um retrato

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

O governo se sentiu saindo do inferno e chegando ao céu na semana passada. Em meio à onda de pessimismo quanto ao desempenho da economia brasileira veio a notícia do bom desempenho do Produto Interno Bruto brasileiro no segundo trimestre deste ano. Bastou esta notícia para que o ministro Mantega (sempre ele) já cantasse de galo. Frases como "o pior já passou", "a economia está em recuperação", foram ouvidas aos quatro cantos.

Quem acompanha meus artigos sabe que minha posição é de fazer análises mais realistas do desempenho econômico, sem, contudo, perder de vista o enorme potencial da economia brasileira, evitando criar um ambiente de pessimismo. O que existe não prática é que nenhuma análise que envolva tantas variáveis como é a condução da política econômica nacional deve ser feita pontualmente. O que quero dizer é que a análise econômica deve ser efetuada como se fosse um filme e não um retrato.

O retrato é pontual, instantâneo. Sorriu, captou. Chorou por qualquer motivo, a imagem está lá, registrada. Bocejou, piscou, enfim, tudo que fizer no momento da foto ficará ali registrado. E neste contexto não é possível avaliar se a coisa é real mesmo. Um choro pode ser de felicidade. Uma piscada pode ser de conquista, um sorriso pode ser falso. Já um filme é outra coisa. Há uma sequência. Ninguém conseguirá manter a mesma posição e comportamento o tempo todo. Analisar a economia levando em conta divulgações pontuais é não entender como a dinâmica da economia funciona.

Nem um indicador muito bom deve ser entendido como definitivo, tampouco bons números localizados devem ser assumidos como verdadeiros. Cada qual indicará o que é para indicar, em seu limite. Na análise dinâmica da economia, em filme, é preciso entender as variáveis envolvidas e o comportamento ao longo do tempo. O resultado final é verificar se foi instalada uma tendência confiável que permita tomar decisões presentes que impactarão no futuro.

Os agregados analisados são baseados no Consumo das famílias, nos Gastos governamentais, nos Investimentos produtivos, nas Exportações e nas Importações de produtos. As variáveis que influenciam estes agregados estão ligadas aos tributos, à política de gastos do governo, à taxa de juros, política de crédito, a emissão de dinheiro, à política de rendas, à taxa de câmbio, entre outras, tudo isso alicerçado na capacidade de gerar e manter empregos, distribuir a renda de maneira justa, e de levar o país ao crescimento econômico, com controle pleno dos preços, evitando a inflação.

Observem que não são tarefas fáceis e que o equilíbrio econômico passa necessariamente pela boa condução, harmônica, destas variáveis. Por exemplo: o bom desempenho do PIB no segundo trimestre, como já colocado, deve ser alinhado à geração de empregos e ao mesmo tempo com o controle de preços. Se uma decisão em elevar os juros tem como objetivo segurar o ímpeto dos preços, e isso se deu agora, é evidente que a contaminação no desempenho da economia em alguns setores se dará ao longo do tempo. Além dos aspectos objetivos, há ainda a chamada confiança dos agentes econômicos. Toda vez que o meio empresarial ou o consumidor perde confiança no futuro da economia não há política econômica que faça a economia deslanchar.

Em resumo: fica o indicativo de que é preciso avaliar o desempenho econômico em toda sua dimensão e abstrair questões pontuais, que nem sempre nos levam a entender qual é a tendência estabelecida. O que podemos avaliar é que o filme da economia brasileira está sendo conduzido por roteiristas que não deixaram claro se seu final será feliz ou não. Na verdade, são muito confusos para a função. Se fosse uma novela, eu diria para finalizar: vamos ver cenas dos próximos capítulos. Neste momento, é melhor filtrar tudo e estabelecer as estratégias mais seguras para conduzir os negócios e comportamento enquanto consumidores.

O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC