08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Fausto Longo

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 10 min

O arquiteto e urbanista Fausto Longo é o primeiro brasileiro a ocupar o cargo de senador italiano. Eleito dia 25 de fevereiro deste ano, Fausto tomou posse no dia 15 de março, em cerimônia no nada modesto Palazzo Madama, uma construção do século 16 entre as muitas imponentes de Roma.

Ele é o primeiro brasileiro eleito por sul-americanos para o Senado italiano e é secretário-geral do Partido Socialista Italiano (PSI) na América do Sul. Em média, Fausto permanece 23 dias por mês em Roma. Desde 2001, italianos e ítalo-descendentes residentes na América do Sul elegem deputados e senadores para o Parlamento italiano. 

O mandato de senador tem duração de cinco anos. Porém, o regime político italiano é parlamentarista puro. Em caso de queda do governo, o presidente dissolve o Senado e há novas eleições. Outra característica do processo eleitoral italiano é que o voto recebido é revertido em recursos financeiros para o fundo partidário.

Fausto recebeu cerca de 30 mil votos que, multiplicados por 4 euros (valor de cada voto), arrecada para o PSI cerca de 120 mil euros por ano. Ele comenta que o Parlamento acaba de aprovar uma proposta para a redução gradativa do valor de cada voto.

O salário de um Senador italiano é de 5.122 euros por mês e mais 4 mil euros mensais para gastos com secretária, telefone e sala, com reembolso do Senado somente com a devida apresentação de comprovantes de despesas. Fausto comenta que não há carro, não há segurança e nem residência funcional. “Nesse aspecto o Parlamento é levado muito a sério”, define.

Ele já se empenha em acelerar os processos de concessão da dupla nacionalidade aos descendentes de italianos. Como Fausto é muito bem relacionado com o setor industrial, muitos empresários procuram o senador para azeitar a aproximação com o Brasil. Fausto pretende trabalhar para que a cidade de São Paulo tenha o Hospital Italiano. A Capital já teve o Hospital Humberto Primo, conhecido como Hospital Matarazzo, e que foi extinto.

Fausto Longo foi recepcionado na última quinta-feira no espaço Café com Política do JC por várias autoridades. No staff do prefeito Rodrigo Agostinho estavam os secretários Elson Reis (Cultura) e Paulo Ferrari (Planejamento), além de Giasone Cândia, presidente do Departamento de Água e Esgoto (DAE). A Câmara Municipal de Bauru foi representada pelo presidente Sandro Bussola (PT), Renato Purini (PMDB) e Markinho da Diversidade (PMDB). Acompanhe entrevista em que o senador recupera um pouco da cultura italiana muito presente em Bauru.

Jornal da Cidade - O que você herdou do seu bisavô Cândido Longo, que veio da Itália em 1892?

Fausto Longo - Eu sou arquiteto. Ele era escultor. Eu sou um exímio desenhista e cartunista.

JC - Você tem relação com a criação do Salão de Humor de Piracicaba?

Fausto - Sou fundador do Salão de Humor de Piracicaba, há 40 anos. Nasci em Amparo. Mas a gente veio para Piracicaba com 3 a 4 anos de idade. Minha vida, a educação, a cultura e a parte política foram desenvolvidas em Piracicaba.

JC - Você conhece uma explicação pitoresca de como surgiu o termo máfia?

Fausto - Dizem lá que a cidade de Gênova (região da Ligúria) vendeu a Córsega para a França. É uma história um pouco confusa porque a família Savóia, para ter os exércitos da França para lutar a favor dela com o intuito de um membro se tornar rei da Itália, fez essa venda. Os italianos que moravam na Córsega não se conformavam com a venda para a França. Daí criou-se um movimento de ódio que se chamava “Morte aos Franceses Invasores e Assassinos”. Máfia. Para alimentar esse movimento, esse dinheiro vinha de fora. Da Sardenha, Sicília, Nápoles. Para entrar na Córsega, entrava de uma forma não legal. Só que daí a Máfia, como o dinheiro entrava fácil, caminhou para o lado da criminalidade. O movimento acabou não existindo porque os franceses acabaram se fixando na Córsega.  

JC - Pelo que você conta, a imigração italiana para o Brasil não tem nada de romântica?

Fausto - As pessoas pensam que os italianos saíam da Itália para se aventurar, para construir a América. Na verdade os dois primos da nobreza, o rei da Itália Humberto Primo e o imperador do Brasil Dom Pedro II fizeram um acordo. Humberto Primo estava sendo pressionado pelos agricultores que exigiam a reforma agrária na Itália. Porque eles estavam passando fome e o pouco que eles conseguiam tirar da terra tinham que entregar para os latifundiários. Humberto Primo ainda era pressionado pelos latifundiários para não permitir essa reforma agrária. Aqui no Brasil o mundo pressionava Dom Pedro II para o fim da escravatura. Os barões do café exigiam que houvesse uma substituição da mão de obra escrava por uma mão de obra barata que pudesse continuar operando as fazendas de café e de cana de açúcar. Com isso, Humberto Primo e Dom Pedro fizeram um acordo em que Humberto abriria a Itália para o Império Brasileiro promover uma propaganda exacerbada dizendo que aqui no Brasil eles encontrariam os próprios castelos, terra de graça e que o governo daria implementos agrícolas e compraria a produção. Os italianos largavam a miséria em que eles estavam e vinham buscar essa oportunidade que o Império estava dando. Quando chegavam à realidade era para pegar na enxada e carpir e substituir a mão de obra escrava praticamente em troca daquilo que comiam nas fazendas.

JC - O tratamento dado aos imigrantes era degradante?

Fausto - Não eram tratados como aventureiros ou grandes homens que vieram para trabalhar para a construção da América. Eram tratados como substitutos de mão de obra escrava. Quando desciam dos navios, não podiam sequer pisar o chão do Brasil. Pisavam sobre uma taboa do navio até os vagões do trem. Quando chegavam à Casa do Imigrante, em São Paulo, eram recebidos a jato d’água. Porque os bombeiros tinham medo que eles carregassem doenças que vinham nos navios, como peste, tuberculose. Depois desse banho involuntário, eram separados. Pai, mãe e filho iam um para cada lado para saber para qual fazenda seriam transportados para trabalhar na lavoura. 

JC - Durante a Segunda Guerra a situação também foi difícil para os descendentes aqui no Brasil?

Fausto - Meu avô Santo Giuliano Longo era escultor, artista. Sobrevivia de fazer esculturas, altares e túmulos. Essa era a vida da minha família que sempre mexeu com mármore, desde 1892. De 1940 para frente, quando a Itália se aliou a Adolf Hitler, os italianos passaram a ser malquistos a ponto de a Igreja Católica, por exemplo, não contratar mais serviços da marmoraria. Nem os clientes que não eram italianos contratavam serviços da marmoraria. Meu avô, para tentar resolver o problema, mudou o nome para Júlio. O jota não existe na Itália. Não admitia que se chamasse Santo. Ele proibiu falar que era italiano. Também proibiu que falasse a língua italiana na casa dele. Pegou todos os documentos da família e colocou em uma caixa de madeira. Fez um degrau de mármore na frente da casa e encaixou a caixa dentro.   

JC - Como surgiu o termo carcamano?

Fausto - Quando os italianos começaram a sair do papel de substituição de mão de obra escrava para começar a criar seus próprios negócios, pequenas oficinas e seus armazéns, a população, como os espanhóis e portugueses, comprava nas lojas dos italianos. Mas não gostava dos italianos. Eles falavam que os italianos eram ladrões. Ao vender 1 quilo de batata, eles colocavam 700 gramas e colocavam a mão na balança por trás na hora de pesar. Por isso que eles chamavam carcamanos. Porque carcavam a mão na balança para mudar o peso e roubar um pouco de batata. Isso é uma invenção dos adversários. 

JC - Como recuperou os documentos para obter dupla cidadania?

Fausto - A gente não sabia nem de qual cidade tinha vindo da Itália. Porque simplesmente eles apagaram essa memória. Um dia fui visitar a Casa do Imigrante. Tinha uma sala com todos os livros e registros de chegada dos imigrantes no Brasil. Fui pedir à diretora para olhar. Ela falou que não podia porque os livros estavam sendo recuperados, seriam microfilmados e colocados à disposição. Naquela época não era escaneado. Só que naquele dia chegou uma pessoa entregando um livro já recuperado. Ela disse para dar uma olhada. Abri o livro e exatamente na página que eu abri, o primeiro nome da lista era Santo Giuliano Longo, nome do meu avô. Ela disse que nunca tinha acontecido aquilo. Foi nos arquivos e me entregou os documentos que davam pelo menos um norte para procurar as origens. Nesse mesmo dia, às cinco horas da tarde, recebo uma ligação. Que a Prefeitura de Amparo, que foi a cidade em que meu avô havia enterrado os documentos no degrau, havia retirado os degraus para deixar a calçada mais livre. E encontraram a caixa com os documentos e devolveram. No mesmo dia descobri o registro de entrada do meu avô no Brasil e os documentos. Passaporte, os registros, certidões de casamento. Foi aí que regularizei minha cidadania.    

JC - Como desburocratizar os pedidos de cidadania dos ítalo-brasileiros?

Fausto - Eu procurei o cônsul e me coloquei à disposição dele para saber o que ele precisa. Eu sou eleito senador no Parlamento. O Parlamento é o Legislativo, faz lei e fiscaliza o governo. O Consulado Italiano no Brasil é um órgão do governo italiano. Meu papel é fiscalizar a atuação do corpo consular no Brasil. Nesse contexto, antes de criticar, em uma reunião junto com o embaixador em Brasília, eu me coloquei à disposição do que precisa ser feito no sentido que o Parlamento possa contribuir para desobstruir um pouco essa burocracia.

JC - A América do Sul tem uma Itália de descendentes italianos?

Fausto - A Itália tem 60 milhões de habitantes e a América do Sul tem outros 60 milhões. Cerca de 20 milhões estão espalhados pela América do Norte, Europa, Ásia, África e Oceania. O Brasil tem 30 milhões. O Estado de São Paulo concentra 16 milhões. É um país do ponto de vista econômico e é uma potência. Como que a Itália pode não ter uma política especial voltada para o atendimento desses 16 milhões de possíveis consumidores, já que no Estado de São Paulo é onde se concentra o maior número de consumidores da América do Sul?

JC - Que lutas políticas você já travou?

Fausto - Eu lutei em 1983 pela manutenção do Parque Ecológico do Tietê que, no governo Montoro (André Franco Montoro, governou o Estado de São Paulo de 1983 a 1987), havia a intenção de devolver aos antigos proprietários a área desapropriada onde é o Parque Ecológico do Tietê, zona leste e Tamboré. Eu era diretor do parque e me rebelei contra essa entrega porque achava que o parque era o único eixo de organização da cidade de São Paulo que poderia ser recuperado do ponto de vista ambiental, inclusive para evitar enchentes. A gente desenvolveu uma campanha em conjunto com dom Paulo Evaristo Arns e com a Assembleia Permanente de Entidades em Defesa do Meio Ambiente (Apedema/SP). A gente conseguiu preservar dos 64 milhões de m², 17 milhões de m². A área onde já há benfeitorias pelo governo do Estado a gente conseguiu preservar. Conseguimos preservar uma área importante de manejo hidráulico do rio Tietê.


Perfil

Nome: Fausto Longo

Idade: 61 anos

Cidade: Amparo (SP)

Esposa: Sheila Prabo

Filhos: Luccas, Leonardo e Luigi

Hobby: paraquedismo e carros antigos (antigomobilismo)

Livro de cabeceira: “Governança Inteligente para o Século XXI”, de Nicolas Berggruen e Nathan Gardels

Estilo musical: sertanejo e música italiana

Time: XV de Piracicaba

Para quem dá nota 10: Paulo Skaf

Para quem dá nota 0: regimes totalitários

E-mail: faustolongo@hotmail.com