Até o século 13 qualquer pessoa ligada à arte de cuidar, tratar e curar doentes era considerada médico. A palavra “médico” significa “cuidar” de pessoas. Hospitais eram locais “hospitaleiros” onde os médicos visitavam e cuidavam de pessoas sem tecnologia: a maioria se curava!
O conceito ideal de doença ainda é difícil: seria o oposto de saúde? E saúde? Não há conceito completo de saúde e doença. Um explica o outro. A definição da OMS na prática não apresenta limites precisos para afirmar quando o indivíduo está saudável ou doente. Quem está completamente saudável? Pode-se definir doença como um quadro clínico que se repete em muitos pacientes com causas, sintomas, sinais e evolução comuns.
Medicina é arte e ciência. Arte no exame do doente para a verificação do mal que o aflige e na aplicação dos remédios para curá-lo ou aliviá-lo. Ciência por aproveitar-se dos fatos observados e catalogados para investigar como esclarecer e interpretá-los para tornar mais segura e eficiente a aplicação dos métodos na arte médica.
No Jornal da USP, os sapientes Profs. Drs. Vicente Amato Neto e Jacyr Pasternak relatam que o SUS imagina um atendimento médico universal, rápido e barato. O paciente não deve ficar na fila pois, para os professores, 90% ou mais dos pacientes que procuram assistência médica tem problemas situacionais ou muito simples que qualquer médico cubano treinado é capaz de ouvir e propiciar qualquer apoio. E repetem, 90% dos pacientes ficam confortados apenas com um bate papo. Se o quadro for mais sério, vai ser encaminhado a um médico mais bem formado. Para estes professores, isto não seria “consulta médica”!
No artigo dos professores, os Convênios e Planos de Saúde almejam que o paciente seja atendido em 15 minutos, efetuando-se uma consulta resolutiva, sem muitos exames e, se possível, não encaminhar a especialistas e nem solicitar exames de imagem ou laboratório. Pelo que entendi, me pareceu um tanto parecido o atendimento do SUS e dos Planos de Saúde: nenhum dos dois atendimentos seriam “consultas médicas”!
Um terceiro tipo de medicina para estes professores seria aquele que o médico teria o tempo para analisar, ouvir, estudar, pedir exames de imagem e laboratório ou demais subsídios para o seu diagnóstico, tratar ou encaminhar o paciente para o especialista. Isto seria a verdadeira medicina e consulta médica.
Fiquei encabulado: se estes médicos experientes e titulados da USP consideram que este tipo de atividade não seria “consulta médica”, então ela poderia ser feita por outros profissionais: enfermeiros, biomédicos, nutricionistas, fisioterapeutas, psicólogos e fonoaudiólogos. O Ato Médico poderia ser estendido a outros profissionais ou ser limitado a certas situações específicas na prática clínica!
Se houvessem as “consultas médicas” assim não consideradas pelos professores citados, no posto de saúde, alguns milhões de brasileiros não ficariam órfãos porque seus pais morrem da causa mais comum: alterações circulatórias como o infarto ou derrame por hipertensão. Não haveria tanta sífilis congênita ou morte por pneumonias por não ter ninguém para prescrever um antibiótico. Nem se morreria por crise asmática e diarreias. São coisas simples resolvidas sem equipamentos e tecnologia. Seriam atendidos problemas de 90% ou mais dos pacientes! Que beleza!
Mortes idiotas são as evitáveis e são mais de 3 milhões ao ano no mundo! Para a OMS existem doenças negligenciadas: as que recebem pouco investimento para pesquisas e novos remédios.
Entre as doenças que levam às mortes idiotas estão: 1) pneumonia: 1,3 milhões de mortes/ano evitáveis ao ensinar pessoas a reconhecer sintomas como tosse com secreção, dores no peito, febre alta, respiração ofegante e procurar um médico para o diagnóstico e receita de antibiótico; 2) diarreia: 700 mil mortes/ano, a segunda causa de morte infantil evitada com saneamento, água potável, lavar as mãos e vacinação; 3) malária: 600 mil mortes/ano evitáveis ao não deixar água parada, usar mosquiteiras, repelentes e roupa sobre o corpo e, 4) dengue: 22 mil mortes/ano evitáveis não deixando água parada.
Onde nem médicos brasileiros querem se instalar, será que agentes de saúde ou profissionais paramédicos não poderiam atuar resolvendo os 90% de casos em que não se precisa de médico e se evitar mortes idiotas? Nestes lugares, os médicos cubanos poderão se fazer importantes! Reflitamos.