08 de julho de 2026
Regional

Piratininga terá ?empresários do lixo?

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 4 min

No dicionário, lixo é definido como “tudo aquilo que não presta e é jogado fora”. Um projeto em Piratininga (13 quilômetros de Bauru) quer mudar este conceito. Trata-se da construção de uma cooperativa de profissionais da reciclagem. O projeto, que é uma parceria da Prefeitura e da Câmara da cidade com a Estre Ambiental, empresa que administra o Centro de Gerenciamento de Resíduos (CGR) Centro-Oeste, visa formar “empresários do lixo”.

Anteontem, um evento aberto à população no Piratininga Tênis Clube foi mais um importante passo para a viabilidade do programa. No encontro, foram apresentados os conceitos básicos de funcionamento e estrutura de uma cooperativa de reciclagem, com aspectos gerais da Política Nacional dos Resíduos Sólidos e os benefícios das cooperativas para que os cidadãos se interessem em participar.

“O que nós queremos aqui é algo diferente de uma cooperativa de catadores. Nosso objetivo é que eles se tornem microempresários. Ou melhor, empresários do lixo. Isso é bastante diferente”, explica a gerente de sustentabilidade da Estre, Sônia Manastan.

De acordo com ela, a expressão “empresários do lixo” é a que mais converge com o conceito pretendido, uma vez que “os cooperados poderão ter um negócio lucrativo em mãos. Queremos mostrar que eles serão os donos do próprio negócio”.

Além da parte social envolvida, o vereador Bruno Pereira Chies (PSB) destaca ainda que a cooperativa possui todas as arestas da sustentabilidade. “Fora a parte social de inclusão dessas pessoas, o projeto terá o lado ambiental, pois reduz significativamente o volume de lixo jogado no aterro; e a parte econômica, por reduzir os custos da prefeitura e movimentar a economia da cidade”.

O prisma ambiental é realmente muito importante. Hoje, segundo dados apresentados no evento, Piratininga despeja 270 mil quilos de lixo por mês no aterro. Cerca de 30% desse total poderia ser reciclado.

Como é uma parceria entre o poder público e o privado, há contrapartida de todos os lados. A Estre fica responsável pela estrutura da cooperativa, com os equipamentos e um caminhão de coleta. A empresa ainda fará toda a divulgação e o treinamento e capacitação dos cooperados.

Já a prefeitura deve encontrar um terreno e doar o galpão para o funcionamento do empreendimento. O município custeará ainda o motorista para conduzir o caminhão e o combustível.

“Já estamos com algumas possibilidades de terrenos. Só vamos ter pontos positivos com essa iniciativa que visa, acima de tudo, preservar a natureza. Esperamos ser um modelo de cooperativa para todo o Brasil”, comenta o prefeito Sandro Bola (PSDB).


Exemplo de sucesso

O evento realizado esta semana contou com a palestra do diretor-presidente da Cooperlínia Ambiental do Brasil, José Carlos Silva. Ele falou sobre a experiência em dirigir a cooperativa em Paulínia, que já está com 12 anos e é a única do gênero a obter a certificação ISO 14001.

“Temos que observar a realidade e a capacidade de cada município. Aqui (em Piratininga) é bem diferente de Paulínia”, ressalva José Carlos. “Mas o essencial para uma cooperativa dar certo é a união entre os cooperados, a população, condições dadas pelo poder público e de parcerias”.

Ele faz questão também de ressaltar que, mesmo com a rentabilidade de uma cooperativa de reciclagem, ainda há muito preconceito. “E isso é de todo mundo. Até da população que não separa por não querer por a mão no lixo. Mas a reciclagem é algo lucrativo. E é o que queremos mostrar aqui.”


Previsão

O cronograma inicialmente pensado é que a cooperativa entrasse em funcionamento ainda este ano. Porém, o prazo foi esticado para meados de 2014. “Fizemos uma reunião e ficou decidido que não há mais tempo viável este ano. Então, queremos tê-la em funcionamento no meio do ano que vem”, prevê o vereador Bruno Chies.

Um estudo prévio já foi realizado em Piratininga e apontou que a cidade possui seis catadores autônomos e um sucateiro licenciado. “Queremos deixar bem claro que não vamos tirar o espaço dessas pessoas. A cooperativa é para elas participarem. É para elas criarem um modelo de negócio”, destaca o parlamentar. 


Quanto vale o lixo?

De acordo com estudo feito pelo gerente do CGR Centro-Oeste, Rafael Máximo, Piratininga tem capacidade para movimentar cerca de 1,2 milhão de quilos de recicláveis por ano, sendo 10 mil quilos de alumínio, 48 mil quilos de latas de aço, 847 mil quilos de papel e papelão, 228 mil quilos de plástico e 130 mil de vidro.

Por meio desses dados, o estudo verificou quanto seria o valor local da tonelada desses resíduos se fossem vendidos para a reciclagem. “Em Piratininga, o valor médio todo esse lixo seria de R$ 302,00 por tonelada”, destacou o diretor-presidente da Cooperlínia Ambiental do Brasil, José Carlos Silva.