08 de julho de 2026
Articulistas

Sinal aberto digital

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

A produção de informação por canais públicos sempre foi vista com certo desdém, ou olho torto, no País. Parte desse processo se deve ao estágio de aculturação do cidadão, o distanciamento dos poderes republicanos de seus representados e ao ainda jovem aprendizado histórico da participação política a partir da redemocratização. Outra parte desse "desvio de arquétipo" vem da qualidade nas transmissões em relação às TVs do circuito comercial. Sem as milionárias carteiras de publicidade, inclusive de órgãos governamentais em todas as instâncias, os veículos públicos tiveram de sobreviver com tecnologias superadas, isso quando a realidade não exigiu atuar em plataformas sucateadas.

Em Bauru esse processo é diferente. No ar desde 1 de agosto de 1998, o primeiro canal do Interior do País da rede legislativa, a TV Câmara de Bauru, soube conciliar pioneirismo com mudança de rotina de conteúdo e de tecnologia. O "segundo estágio" desse processo foi consolidado agora, no último 1 de agosto deste ano, quando foi descerrada a placa de entrega do sinal aberto de televisão digital. Ao sintonizar o canal 60.3 UHF, a TV Câmara de Bauru escreveu mais um capítulo de vanguarda. O canal que se posicionou como o primeiro do segmento a levar para a tribuna livre do plenário a inovação de matérias externas como suporte da atividade parlamentar também entra para a história nacional de comunicação como o primeiro a funcionar em plataforma de multiprogramação.

Se você sintonizar o canal 60.3 UHF digital terá à sua frente a programação da Câmara Federal, da Assembleia Legislativa Paulista e do Parlamento Municipal atuando juntos, cada qual com grade de programação que gira 24 horas. Sintonizado no global e posicionado no regional, o cidadão, de fato, quer saber sobre sua aldeia, discutir os problemas que afetam sua rua, seu quintal comunitário e, no processo, quer ouvir e discutir suas temáticas com os atores locais. Esse papel apenas as emissoras locais podem alcançar fisicamente. Com conteúdo e tempo disponível na mesma proporção, com escusa aos demais veículos que transmitem por televisão, apenas a emissora pública, de interesse público, ou quiçá uma educativa, consegue protagonizar.

O fato é que o marco da entrega do sinal aberto digital não abre horizontes apenas para a qualidade de veiculação no estágio da iminente aposentadoria do sinal analógico. A TV Câmara Bauru também quebrou paradigmas. Poucos deram mão à palmatória, e outros teimarem em não perceber, que o canal não vinha com a tarja de chapa branca inundando sua linha editorial. Faltou compreender que de fato, o Poder Legislativo, pela sua própria natureza, é a caixa de ressonância da comunidade, aqui e em qualquer lugar. E o fato, por si, reforça a vocação de discussão, abordagem e veiculação de temas e pautas de várias tendências. Outro ponto que o canal legislativo desmistificou: a TV Câmara dentro da rede legislativa não é o canal deste ou daquele vereador, mas da sociedade, também pela mesma razão anterior: porque o mandato, com erros e acertos, não é somente efêmero, mas ele não pertence ao eleito de ocasião. O vereador tem de representar os seus, senão a carta de alforria política é tirada de suas mãos em apenas quatro anos pela força democrática do voto. E que venham os novos capítulos da rede legislativa de TV, a emissora pública que mudou a forma e o conteúdo de se praticar política na arena do plenário em Bauru e em todo o Brasil.

O autor, Nélson Itaberá Gonçalves, é jornalista e compositor