Há três meses, eles surpreenderam a cidade com sua primeira assembleia que se transformou em um grande ato em frente à Câmara Municipal. Dias depois, levaram 6 mil às ruas, pedindo a redução da tarifa do transporte público. Hoje, o Bauru Acordou busca se consolidar como movimento social aberto e horizontal - sem lideranças -, ampliou suas bandeiras e pretende atuar ativamente contra as mazelas na área pública, inclusive por meio de denúncias ao Ministério Público.
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Aceituno Jr. |
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Há 3 meses, eles foram aos milhares para as ruas com o grande objetivo de provocar mudanças profundas no País |
Atualmente, o grupo é dividido em três Grupos de Trabalhos (GTs) temáticos. O primeiro segue discutindo o Transporte; e os outros dois focam na Educação e na Saúde. É este tema, aliás, que tem recebido maior atenção e dedicação do Bauru Acordou e motivou, inclusive, a ocupação da Secretaria Municipal de Saúde, há nove dias.
O executivo de contas Yuri de Freitas, 31 anos, conta que membros do grupo registraram em vídeo o sucateamento do Hospital de Base (HB) e contaram 150 leitos da unidade desocupados. “É algo muito chocante e entendemos que a população precisa saber disso. Inclusive, nossa intenção era exibir esse material durante a última ocupação”.
A espera por leitos hospitalares já motivou a morte de quase 600 pessoas, o que despertou a indignação dos jovens do Bauru Acordou. “Se tem tantas vagas paradas, não é possível que não se dê um jeito”, completa Charles Belluco, 37 anos.
O GT da Saúde também dedicou muito tempo para apurar os problemas na rede municipal. A estudante Marília Pereira da Fonseca, 27 anos, relata o caso que acompanhou, no Pronto-Socorro Central (PSC), de um bebê que estava com uma moeda entalada na garganta e não conseguiu receber atendimento no município. “Tiveram que transferir para outra cidade”.
Ela presenciou ainda um homem, com o ombro quebrado, que aguardou horas pelo atendimento de um ortopedista na unidade. “E na escala, constava que este médico deveria estar lá. Pela Lei da Transparência, é possível saber se ele recebeu ou não por aquele dia de trabalho”, afirma Marília.
O grupo alega possuir registros e relatos em vídeo desses e outros casos e tem feito também pesquisas junto a pacientes e profissionais da rede de saúde.
“Nossa intenção é materializar tudo isso e denunciar ao MP. Há muitos casos de pessoas que não conseguem sequer receber medicamentos que deveriam ser fornecidos pela rede pública. Existem mais de 180 ações desse tipo na Justiça. Agora, imagina quantos não voltaram para casa de mãos abanando por não conhecerem seus direitos. São pacientes de classe menos abastada”, argumenta Yuri.
De olho
O Bauru Acordou diz ainda que tem acompanhado as discussões orçamentárias. Na última semana, participou da reunião do Conselho Municipal de Saúde, que adiou a votação do Plano Plurianual (PPA).
“O secretário [Fernando Monti] estava lá e não fizemos qualquer tipo de pressão. Só assistimos e tiramos algumas dúvidas. Entidades apontaram falta de transparência na condução das discussões e a votação foi reagendada”, conta Yuri.
Tentar atrair pessoas que já militam nas lutas pela Saúde, Educação e Transporte é outra estratégia do Bauru Acordou, segundo a estagiária Rosangela Diegoli.
“Nós não damos conta de tudo. Então essas pessoas colaboram e nos ajudam muito. Além do clamor popular, foi o contato com os funcionários da Famesp, durante nosso apoio a greve deles, que tomamos ciência da dimensão dos problemas na Saúde. Isso é muito importante para nós. Precisamos dessas ferramentas para que o que a gente mostre não fique só no denuncismo. A gente busca elementos para despertar a conscientização”.
Convite
As assembleias do Bauru Acordou acontecem todos os domingos, às 16h, no Parque Vitória Régia. O grupo é aberto e convida a todos os interessados em lutar por suas bandeiras a participar das discussões. Além das assembleias, os encontros dos Grupos de Trabalho temáticos também são semanais e acontecem, normalmente, em praças públicas ou até mesmo lanchonetes.
“Lá, cada um expõe o que pesquisou e aprendeu. Os nossos atos são simbólicos e têm como objetivo atrair a atenção da população e instigar nelas a vontade de lugar. Mas mais importante do que isso, é estudar para reivindicarmos com embasamento”, afirma Rosangela.
Ela diz que muitas pessoas perguntam se as decisões por ocupação de prédios públicos acontecem na hora do fato. “A maioria das pessoas não sabe o quanto a gente se dedica e o que está acontecendo. A gente comete muitos erros, mas nada disso é feito por acaso”.
Apoio popular
Atualmente com aproximadamente 40 membros efetivos, o grupo Bauru Acordou garante que a redução do número de participantes nos atos já não preocupa mais. “Tínhamos quantidade maior, mas hoje temos pessoas muito mais comprometidas, que respiram o movimento. Mas, em todos os lugares, sinto as pessoas a nosso favor”, argumenta Marília Pereira da Fonseca.
Gabriel Machado alega que a diminuição do tamanho dos movimentos sociais é uma tendência nacional. “Houve um momento de empolgação em que muitos se juntaram. Isso depois passou”.
Já Yuri de Freitas acredita que ampliar bandeiras e diminuir erros é a melhor forma de atrair mais adesão, embora não considere a missão de caráter essencial. “Muita gente se afastou também pela cobertura negativa da mídia no âmbito nacional e pelas reações violentas da Polícia Militar”.
O grupo, por outro lado, comemora as conquistas em tão curto espaço de tempo, como a redução da tarifa do transporte para estudantes e os avanços na aplicação local da Lei de Acesso à Informação. Todos os dados referentes a contratos com as concessionárias do serviço foram disponibilizados no site da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb).
Além disso, Yuri enaltece o canal de diálogo estabelecido junto ao prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), que, por diversas vezes, falou diretamente com os manifestantes. “Mesmo que, para isso, a gente precise ocupar um prédio público”, brinca.
Na Educação e no Transporte
O GT da Educação, segundo o estudante Gabriel Machado, 22 anos, está iniciando suas atividades. Ele adianta, no entanto, que o foco do Bauru Acordou, sobre esse tema, será sobre a falta de vagas no ensino infantil, número excessivo de alunos em sala de aula e os baixos salários na rede estadual.
Quanto ao Transporte, o Bauru Acordou entende que a luta ainda está longe do fim. Atendendo a reivindicações do grupo, o prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) enviou ao Legislativo, em meados de agosto, projeto de lei que sobre de 25% para 50% o desconto na tarifa de estudantes.
O grupo comemora a conquista, mas a classifica como parcial, primeiro porque a promessa era de que a nova regra já valesse a partir de agosto, mas a proposta ainda tramita na Câmara Municipal.
“Outro ponto é que, do jeito que está a prefeitura está desviando dinheiro de outros lugares para pagar essa diferença às empresas e nossa luta era pela redução do lucro das concessionárias. Além disso, não fica muito claro que o impacto dessa medida será o mesmo valor pago pelo município”, pontua Yuri de Freitas.
Ocupação feita na Saúde é avaliada
O Bauru Acordou admite que foi negativa a repercussão do último ato, no dia 6 de setembro, que ocupou a Secretaria Municipal de Saúde, mas nega que o grupo não tinha bandeiras ou ocupou o prédio errado, bem como as acusações de agressão contra uma servidora.
“Infelizmente, só sobrou a ideia de que os vândalos tinham entrado no lugar errado porque não conseguimos exibir todo o material que preparamos com as denúncias sobre a saúde”, diz Yuri de Freiras, 31 anos.
Ele alega que o principal erro do grupo foi não ter levado todo o material necessário para ocupação para o interior do prédio. “As coisas estavam dentro dos carros próximos. Pensamos que poderíamos entrar e sair, como aconteceu na primeira ocupação da prefeitura”. A diferença, da última vez, é que, para evitar a ocupação do prédio pela Polícia Militar, os manifestantes trancaram as portas e, consequentemente, também tiveram os acessos restritos.
O grupo conta que também esperava o apoio irrestrito dos funcionários da secretaria, o que não ocorreu. Embora Yuri argumente que 80% dos servidores saíram do local sem questionar a ação do Bauru Acordou.
Os manifestantes, porém, reclamam que houve truculência por parte de alguns deles, especialmente os que possuem cargos comissionados. Segundo eles, chegaram até a atirar pedras contra o prédio da secretaria.
O Bauru Acordou entende ainda que, apesar de não possuir nem regular leitos hospitalares, é do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) a responsabilidade final pela saúde pública no município.