11 de julho de 2026
Articulistas

Velocidade nos trechos urbanos de rodovias

Archimedes A. Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min

Várias têm sido as opiniões apresentadas sobre a questão da velocidade no trânsito, nas páginas do JC, nas últimas semanas. Comenta-se que o brasileiro é um "especialista" em vários temas, dentre eles o trânsito. No entanto, o sistema de trânsito é abrangido por uma subárea da Engenharia, denominada de Engenharia de Tráfego.

Segundo a obra Segurança de Trânsito, de Ferraz, Raia Jr. e Bezerra (Ed. São Francisco, 2008), a Engenharia de Tráfego contempla o sistema de operação do trânsito, a sinalização de trânsito e a gestão da segurança viária. O objetivo da Engenharia no Tráfego é fazer com que com que o deslocamento de veículos e pedestres seja realizado de maneira racional, isto é, com segurança, rapidez (fluidez) e comodidade. Assim, o trânsito é uma parte da Engenharia que deve ser tratada por um especialista.

Muitos são os estudos e pesquisas realizados no mundo inteiro a respeito do efeito da velocidade na acidentalidade viária. Os fatores de risco associados à severidade dos acidentes de trânsito são diversos, dentre eles pode-se citar a velocidade inadequada.

A velocidade alta é o principal fator associado aos acidentes com vítimas graves ou fatais. O excesso de velocidade contribui para cerca de 30% das mortes no trânsito nos países desenvolvidos e de 50% nos países não desenvolvidos, segundo estudos da Organização Mundial de Saúde.

Para cada 1 km/h a mais na velocidade, a incidência de acidentes com vítimas aumenta 3% e o risco de morte nos acidentes, entre 4 e 5%. Para uma velocidade de 30 km/h, o risco de um atropelamento de pedestre, ciclista ou motociclista resultar na sua morte é de 8%. Quando se aumenta essa velocidade para 40 km/h, esse risco sobre para 30%. Com velocidade de 60 km/h, o risco vai a 93%; acima de 80 km/h o risco de óbito é 100%.

O problema da segurança em trechos rodoviários que atravessam áreas urbanas é um assunto fartamente pesquisado pela Engenharia de Tráfego. Estes trechos rodoviários acolhem dois tipos de usuários. O primeiro trafega com velocidade alta, realizando percursos de longa distância. O segundo desloca-se com velocidade menor, buscando tornar mais célere sua viagem entre dois locais da cidade. Como consequência disto, surge um problema de conflito de interesses entre esses dois grupos.

Agravando o fato, estes fluxos heterogêneos interagem com grande número de usuários que circulam pelo local, em motocicletas, bicicletas e a pé, pela faixa de domínio da via ou a atravessando com diferentes níveis de atenção e cuidado.

Em alguns casos, registra-se traçados inadequados, resultantes de adaptações a situações pré-existentes ou que, paulatinamente, cederam espaço ao crescimento descontrolado da cidade, diminuindo a capacidade e qualidade operacional da via.

Estudos mostram que a redução de velocidade nesses trechos da via conduziram a redução de cerca de 32% dos acidentes, em geral. Enfim, o problema existe e não há como ser totalmente eliminado. Uma alternativa para mitigá-lo é a construção de marginais, bem como de passarelas em número suficiente para pedestres. Qualquer que seja a solução adotada, deve-se visar prioritariamente a segurança, em detrimento da fluidez.

O autor, Archimedes A. Raia Jr., é engenheiro, especialista em segurança viária, doutor em Engenharia de Transportes, professor associado da UFSCar e diretor de Engenharia da Assenag