08 de julho de 2026
Polícia

Tráfico busca drogas por ?consórcio?

Por Vitor Oshiro | Lilian Grasiela
| Tempo de leitura: 6 min

Não é de hoje que a lógica do mercado serve de diretriz ao tráfico de drogas. Agora, mais uma vez, outra noção do comércio foi adaptada pelo crime. Para buscar o entorpecente em outros Estados e até em outro País, os traficantes fazem uma espécie de “consórcio”. Além de dificultar ainda mais as apreensões, tanto quem manda buscar quanto quem faz o serviço sai lucrando.

 

Quioshi Goto

40 pacotes de cocaína e crack estavam escondidos em carro

A informação chegou ao JC por meio de um delegado da região que pediu para ter a identidade preservada. Em meio às investigações, ele descobriu a nova estratégia dos criminosos. O procedimento dos traficantes é simples: eles se juntam, fazem uma “vaquinha” e pagam uma única pessoa para buscar a droga de todos de uma só vez.


Apesar de nunca ter tido uma confissão formal dessa estratégia em Bauru, Ricardo Dias, que responde pela divisão de investigações sobre entorpecentes da Central de Polícia Judiciária (CPJ), confirma que já soube informalmente desse “consórcio do tráfico”. “Acredito que é realmente algo bem possível de estar sendo feito”.


Assim como é qualquer atividade comercial bem-sucedida, a analogia com o comércio também continua, uma vez que todos os envolvidos lucram. Ao se juntar, cada um dos traficantes paga menos pelo transporte. E o transportador, como atende mais gente, acaba recebendo um valor bem maior.


Além da vantagem financeira, há ainda outro fator: colocar um obstáculo maior ao trabalho da polícia. Como são realizadas menos viagens para buscar o entorpecente, a probabilidade de apreensões é menor.


“O transporte ‘picado’ continua, porém, acho que essa estratégia pode estar ocorrendo justamente porque o tráfico procura cada vez se especializar mais. E isso dificulta a fiscalização, uma vez que haverá menos veículos trazendo drogas”, complementa o 1º tenente Vitor Tamarozzi, que responde pela área de Bauru do Batalhão da Polícia Rodoviária.


Em meio à estratégia dos traficantes, um ponto da legislação também auxilia. O delegado Ricardo Dias explica que a Lei de Drogas (Lei 11.343/06), em seu artigo 33, prevê pena de 5 a 15 anos de prisão para o tráfico. Independentemente da quantidade de droga que a pessoa esteja transportando, a pena máxima não pode ser alterada.


“A pena só muda quando é confirmado o tráfico transnacional, o que é muito difícil de se provar. Então, se a pessoa estiver com 50 quilos ou 5 toneladas, isso não muda nada pela legislação. Pode ser um agravante na hora de o juiz determinar a pena, porém, o máximo é 15 anos de reclusão mesmo”, pontua o delegado.



9 toneladas


Somente de janeiro a agosto deste ano, a Polícia Rodoviária já apreendeu grande quantidade de drogas sendo transportadas pelas rodovias da região de Bauru. De acordo com dados da corporação, foram 9,1 toneladas de entorpecentes apreendidas.


Apesar de muitas apreensões menores, algumas ocorrências vultosas podem comprovar o tal “consórcio”. Em junho, a região foi cenário de um dos maiores golpes ao tráfico no Brasil em 2013. Em Bocaina (69 quilômetros de Bauru), a Polícia Rodoviária, com o apoio da Polícia Militar (PM), apreendeu mais de oito toneladas de drogas, entre maconha e crack. O valor da carga ultrapassava R$ 2,8 milhões.

 

Para despistar, motoristas usam família e bons carros

Mas quem são os motoristas desses “consórcios”? Segundo a polícia, os transportadores de entorpecentes são pessoas que, além de não possuir passagens pela polícia, estão acima de quaisquer suspeitas. “Vemos muitos transportes de pessoas em carros luxuosos, bem vestidos e de boa aparência”, revela o delegado Ricardo Dias.


De acordo com ele, em alguns casos, muitos fazem as viagens até com a própria família para despistar as fiscalizações.


Conforme explica o tenente Vitor Tamarozzi, parte ínfima das apreensões ocorre após denúncias. Por isso, os policiais rodoviários precisam ter ampla experiência nas fiscalizações para notar qualquer atitude suspeita.


“É uma espécie de tirocínio. Os policiais, principalmente do Tático Ostensivo Rodoviário (TOR), desenvolvem isso e têm uma estratégia para notar as situações suspeitas, incluindo o nervosismo dos motoristas”, explica.

Outra tática é botão secreto ‘hi-tech’

Em apreensões distintas, ontem, droga era transportada em dispositivos secretos acionados por botões ou sequências

Além de se apossar das estratégias comerciais, o tráfico de drogas ainda tem vários outros artifícios para tentar escapar de apreensões. Ontem, duas ocorrências em Bauru chamaram a atenção. Em ambas, os veículos utilizados para transportar drogas tinham um compartimento secreto acionado por um botão ou por uma sequência. Ao todo, foram apreendidos aproximadamente 56 quilos de entorpecentes.

 

Renan Casal

16 quilos de pasta base de cocaína eram transportados por casal de namorados

A primeira apreensão ocorreu na manhã de ontem no trevo de acesso ao Núcleo Octávio Rasi. A Polícia Militar (PM) abordou um Fiat/Uno Way, placas de São Bernardo do Campo ocupado por um casal.


De acordo com a polícia, Wesley Patric Soares, 25 anos, e Juliana de Jesus Araújo, 26, apresentaram nervosismo acima do comum e levantaram suspeitas. Eles disseram ter vindo de Limeira para visitar a avó da jovem, em Bauru, contudo, não souberam informar em que rua ficava a casa da familiar.


No momento da abordagem, uma viatura da Polícia Rodoviária passou pelo local e ajudou nas buscas no carro. Até o canil da Polícia Militar (PM) foi acionado, porém, nada foi localizado.


Os 16 quilos de pasta-base de cocaína só foram achados após os policiais descobrirem um dispositivo na coluna esquerda do carro que abria um compartimento secreto. Na frente do passageiro, onde deveria estar o sistema de airbags, o entorpecente estava escondido.


Inicialmente, o casal negou saber da existência da droga. Eles diziam que o carro havia sido adquirido há dois meses e, assim, desconheciam o produto. Porém, depois, acabaram confessando.


Wesley Soares disse que sua namorada, Juliana, não sabia do transporte. Porém, o delegado plantonista Paulo Calil autuou ambos em flagrante por tráfico de drogas e associação ao tráfico.


Além da droga, foram apreendidos três celulares e um GPS. Também foram recolhidos R$ 535,00.


No fim da tarde de ontem, outro veículo foi abordado pela Polícia Rodoviária na Marechal Rondon. Em frente ao Graal, a Ecosport, placas de Dourados (MS), também estava equipada com um compartimento secreto onde devia estar o airbag do carro. O motorista Jairo Martins de Souza, 40 anos, teria confirmado o transporte.


“Em fiscalização de rotina, o veículo foi abordado e o motorista apresentou uma história desencontrada”, revela o 1º tenente Vitor Tamarozzi.

 

Renan Casal

 


 

Botão na coluna esquerda do carro era acionado e abria um compartimento secreto onde estava a cocaína

Violão denunciou


Ele alegava que era evangélico e chegou a mostrar várias bíblias aos policiais. Entretanto, um dos indícios de que se tratava de uma história armada foi um violão no banco de trás do automóvel. Questionado sobre qual seria a marca do instrumento musical, ele não soube informar. “Qual músico não conhece seu próprio instrumento?”, indagou o policial.


Por uma fresta do painel, os tijolos de droga foram visualizados. “Era um compartimento protegido por sequência. Ele ligava um fio e fazia uma sequência na chave para abri-lo. Já sabíamos dessas estratégias de painéis secretos, porém, o crime está aperfeiçoando isso para dificultar a fiscalização”, explica o tenente Tamarozzi.


Ao todo, foram localizados 40 pacotes divididos entre cocaína e crack, totalizando 40 quilos. Jairo Martins de Souza teria dito aos policiais que levava a droga de Marília para Botucatu, porém não deu mais informações. Sem passagem pela polícia, ele receberia R$ 2 mil pelo serviço. Até o fechamento desta edição, o caso estava sendo apresentado na CPJ.

 

Histórias ensaiadas

Apesar do nervosismo, os motoristas geralmente já saem para realizar o transporte com histórias ensaiadas e com elementos que as confirmam. Na primeira apreensão de ontem, o falso álibi era uma visita a familiares. Já na outra, o motorista carregava vários objetos religiosos para despistar os policiais.


“Eles já chegam com histórias ensaiadas. Por isso, o policial precisa ter um instinto muito apurado para pegar as incongruências no que chamamos de ‘entrevista’. Alguns motoristas possuem até comprovações dessas histórias inventadas”, explica o tenente Vitor Tamarozzi.