08 de julho de 2026
Articulistas

Sem surpresa

Antonio Delfim Netto
| Tempo de leitura: 3 min

Não houve nada de "surpreendente" na decisão desta última quarta-feira (18.09) do FED ? o Banco Central dos Estados Unidos ? de manter inalterado seu bilionário programa de compra de títulos do Tesouro "até receber provas da melhora do mercado de trabalho e se convencer que a recuperação da economia atingiu ritmo sustentável".

Para quem não apostava na retirada dos estímulos, a agradável surpresa foi constatar o reconhecimento do presidente Ben Bernanke quanto às falhas de comunicação que produziram o aumento de volatilidade nos mercados de câmbio nas últimas semanas, levando-o a prometer que as autoridades do FED vão se esforçar para esclarecer melhor as suas intenções para a política monetária. E garantiu transparência na comunicação.

Ele próprio foi muito claro quando respondeu a questionamentos na entrevista coletiva à imprensa, dizendo que "não podemos deixar que as expectativas do mercado determinem nossas decisões futuras". De acordo com os relatos transcritos da mídia americana, a maioria dos membros do Comitê de Mercado Aberto concorda em manter as taxas de juro de curto prazo próximas de zero, o que é coerente com a continuidade do programa de estímulos monetários para ajudar a melhorar a lenta recuperação da economia americana. Aparentemente também cessaram as divergências (públicas, pelo menos) quanto à necessidade de se aguardar a melhora da taxa de ocupação do mercado de trabalho, para níveis de emprego que justificariam o inicio da desaceleração no programa de compras dos ativos.

Apesar da confusa comunicação, da qual ele tem sido a maior vítima, Bernanke sempre defendeu aguardar a queda da taxa de desemprego para 6,5% antes de começar o ajuste no ritmo das compras ? no que teve o apoio explícito da vice-presidente Janet Yellen ? agora com chances aumentadas de substituí-lo na presidência do Federal Reserve, com a desistência do ex-secretário do Tesouro Lawrence Summers.

O desemprego vinha caindo ? de 8,1% em agosto de 2012 para 7.3% um ano depois ? mas está dando sinais de resistência, levando a dúvidas quanto à natureza dessa rigidez: se a lenta recuperação da economia está desestimulando temporariamente a procura por emprego ou levando até mesmo à desistência de muitas pessoas que não mais retornariam ao mercado de trabalho. As expectativas passaram a se encaminhar para um período mais longo de juros básicos próximos de zero, na medida em que for mantida a determinação de aguardar o fortalecimento do mercado de trabalho e o alcance do limite de desocupação de 6,5% para taxa de desemprego dos Estados Unidos.

O mandato de Ben Bernanke na presidência do FED termina em 31 de janeiro próximo e ele já comunicou oficialmente que não disputará um terceiro mandato, de forma que presidente Obama não deve demorar muito a anunciar um nome para substituí-lo, pois a indicação ainda terá que ser aceita no Senado. Tem que agir rápido e simplesmente não pode errar, pois qualquer hesitação acrescentará alguns níveis de inquietação e volatilidade aos mercados, algo particularmente indesejável na atual situação de fragilidade fiscal e com o aumento do risco de engajamento em nova e custosa aventura externa.

O autor, Antonio Delfim Netto, é professor emérito da FEA-USP, ex-ministro da Fazenda, da Agricultura e do Planejamento e articulista do JC