A primavera 2013 começa hoje. A natureza mostra e as estampas nas roupas confirmam que as flores estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia. Em todas as cidades da região há árvores floridas brindando a nova estação com suas cores. Em Jaú, a exposição nacional de orquídeas realizada na semana passada foi uma festa para os olhos.
Orquidófilos de várias cidades compareceram ao evento e levaram ‘seus amores’ para serem apreciados pelos visitantes. A flor que encanta a todos tem suas peculiaridades e os cuidados variam de uma espécie para outra. O que poucos sabem é que a orquídea tem uma história de amor contada na Indochina: a lenda de Anam.
Conta-se que existia uma jovem chamada Hoan-Lan que divertia-se em fazer penar suas paixões. Por um sorriso dela, o jovem Kien-Fu usou o ouro mais fino para fazer as mais lindas peças de jade. A ingrata, após se adornar com todos os presentes, o desprezou. Desesperado, ele atirou-se no Rio Vermelho.
O pintor Nguyen-Ba conseguiu obter cores desconhecidas para pintar o retrato de sua amada, que desprezou o artista. Ele desapareceu na selva. Mai-Da, apaixonado também, inventou um perfume delicioso. A ingrata Hoan-Lan perfumou-se e o mandou para a rua. Ele se envenenou.
Cung-Le incrustou nácar numa pulseira de ébano. Também desprezado, enlouqueceu. Mas o deus das Cinco Flechas, que a tudo via, julgou que era o momento de castigar a jovem. Fez com que ela se apaixonasse por Mun-Cay, que apenas se dignava a levantar os olhos para ela.
Os dias se passaram e Mun-Cay não saía de sua indiferença. Um dia, Hoan-Lan declarou-lhe paixão e foi desprezada. Em meio a seu desespero, lembrou-se do deus que vivia na montanha de Tan-Vien. A jovem dirigiu-se ao monte sagrado e implorou ajuda para conquistar o seu amor.
“Vai-te daqui”, rugiu o gênio. “O castigo que pesa sobre ti é justo. Saia do meu templo.” Na saída, Hoan-Lan encontrou-se com uma bruxa que lhe propôs vingança contra Mun-Cay. “Vende-me a tua alma e juro-te que, embora Mun-Cay não te ame, não amará outra mulher.”
Hoan-Lan voltou à sua casa. Saía para os bosques a distrair sua pena. Um dia, vendo ao longe seu adorado Mun-Cay, correu para ele e, quando se preparava para abraçá-lo, o jovem foi transformado numa árvore de ébano. A bruxa voltou e disse que tinha cumprido o prometido. “Bruxa infame”, exclamou Hoan-Lan. “O que fizeste a meu adorado? Devolva-me ou mate-me.” Hoan-Lan, abraçada ao pé da árvore, clamava desesperadamente: “Perdoa-me, Mun-Cay.”
Um gênio se compadeceu da sua dor e disse: “Procedestes muito mal. Mas tua dor purificou a tua alma, vais deixar de sofrer. Antes que a bruxa venha, vou transformar-te numa flor, esquisita e requintada, que dê a impressão do que foi a tua vida maldosa. Quem vir as tuas pétalas adivinhará o que foi o teu espírito, cruel. Concedo-te um bem: não te separarás daquele que adoras.” Enquanto falava, a túnica rósea de Hoan-Lan ia empalidecendo e tornando-se uma delicada cor lilás. Os olhos da jovem brilharam e as suas carnes tomaram a tonalidade do nácar. Os seus formosos braços enrolaram-se na árvore na derradeira súplica... Assim nasceu a orquídea.
Flores com a ‘cor’ da solidariedade
A 7ª edição da Exposição Nacional de Orquídeas foi realizada em Jaú de 13 a 15 de setembro para brindar a chegada da primavera. O evento trouxe para a região várias espécies de orquídeas para serem apreciadas e, algumas, adquiridas. A organização foi do Circuito dos Amigos Orquidófilos de J-aú (Caoja) e contou com o apoio da prefeitura e patrocinadores. Antecipando a primavera, a “cor da solidariedade” ficou por conta da Feira do Verde, que reverteu parte da renda obtida para as obras sociais do FUSS.
O secretário do municipal do Meio Ambiente, Eduardo Abussamra, entusiasta da exposição, disse que no início da primavera o circuito tem data reservada para a cidade de Jaú.
“Aqui a população da cidade e de toda a região tem a oportunidade de conhecer orquídeas premiadas que participam do ranking nacional. São expositores de 35 cidades do Estado de São Paulo que fazem parte do circuito.”
A posição geográfica da cidade é um dos itens que favorecem a vinda da exposição para Jaú, na opinião de Abussamra. “Jaú está no centro do Estado de São Paulo, tem uma facilidade para que (moradores de) outros municípios venham até aqui. O nosso clima favorece as orquídeas porque temos uma temperatura média no verão e não temos inverno rigoroso. Grande parte dos orquidófilos da cidade cultiva as flores em locais climatizados.”
O presidente da Caoja, José Roberto Pegoretti, conhecido por Zelão, diz que em Jaú há 33 associados. “O círculo foi fundado em 2005. Esta é a 7ª exposição nacional. Aqui há plantas à venda e para exposição. Algumas serão julgadas em nove categorias. Em Jaú, dos 145 mil habitantes, aproximadamente 100 mil têm orquídeas em casa.”
Cultivo
As orquídeas gostam de muita claridade com um pouco de ventilação e bastante calor. Não podem ficar no sol direto. Cada espécie tem suas peculiaridades. De modo geral, exigem adubação a cada 20 dias com adubo 20/20/20 para a manutenção e 10/30/20 para a floração. A rega deve ser feita duas vezes por semana, ensina o presidente da Caoja, José Roberto Pegoretti.
Para ele, a dificuldade é encontrar uma planta de forma boa. “A forma ideal é quando a flor atinge o formato de uma estrela de ponta-cabeça. O aspecto fitossanitário, que é a limpeza do vaso, também é considerado no julgamento.”
Para ele, o cultivo da orquídea é mais fácil do que de violetas. “A violeta acaba perdendo a folha, a orquídea não. Se você deixá-la quietinha, ela vai se ambientar e produzir flor. Uma dica é retornar a flor sempre no local onde ela está florindo, caso você a coloque na sala para receber uma visita, por exemplo.”
Sobre as novas colorações, ele explica que são as plantas híbridas. “Tem uma coloração imensa. É flameado. É vermelho com amarelo, azul com branco, azul com lilás, através de cruzamento de uma planta alba com lilás vai se dando a cor. Com a tecnologia, temos muita coisa sendo feita em laboratório.”
‘Pessoas escolhidas por Deus’
Para o presidente do Caoja, José Roberto Pegoretti quem cultiva orquídea são pessoas escolhidas por Deus. “Através dela fazemos amigos de cidade em cidade. Em janeiro, na primeira exposição do ano nos encontramos em Leme e festejamos a vida. O pessoal se emociona. São 230 associações no País.”
Ele lembra que, quando fundou o círculo, sofreu com o descrédito. “Ninguém acreditava na dimensão que isso iria ganhar com o passar dos anos. Em 2010 ficamos em 2º lugar no ranking brasileiro de orquídeas. Este ano estamos em 13º”, destaca.
Para o comerciante de orquídeas João Pedro Cid, da cidade de São Pedro, cultivar flores é sinônimo de paz. “Nosso psicológico agradece.”
Para o orquidófilo Antônio Alves Silva, de Barra Bonita, a prática faz com que ele conquiste amigos. “Tenho amigos no Brasil todo. É muito bom. Já cheguei a ficar em segundo lugar do Brasil com uma flor. É um hobby antes de tudo. Mexendo com orquídeas me sinto bem.”
Chama azul evita contaminação
Fátima Caires, comerciante de adubos participou da exposição de Jaú e levou várias novidades para aqueles que amam orquídeas. O maçarico de chama azul foi uma delas. “A chama atinge uma temperatura muito alta, mais de mil graus. É usada para esterilizar os instrumentos de corte, tesoura, alicates antes de fazer qualquer divisão na planta.”
Caires comenta que para qualquer divisão da planta é necessário esterilizar o instrumento. “Porque se uma orquídea tiver um vírus, não detectado apenas com a inspeção visual, vai ser transmitido para outra no momento da divisão se o instrumento utilizado não for esterilizado, contaminando a planta sadia.”
Cruzamentos permitem cores diferenciadas
O comerciante de orquídeas Antônio Alves Silva, de Barra Bonita, tem laboratório para fazer cruzamentos, e com a técnica faz flores de cores diferenciadas. “Faço um meio de cultura para poder tirar as mudas. Fazemos em vidro. Através desse processo consegue-se cruzar amarela com a vermelha. Se a planta é boa, é separada para fazer o meristema, um clone dessa planta. Os filhos são todos diferentes.”
Vendendo flores
O funcionário público municipal José Roberto Pegoretti, mais conhecido por Zelão, é um misto de colecionador e vendedor de orquídeas. “Eu tenho uma coleção particular e tenho plantas para venda. A comercialização é feita em minha casa. Com o dinheiro das vendas adquiro as plantas mais caras, de mais de R$ 1.500. Às vezes penso em parar, mas não consigo. Todo mundo que parou, depois voltou ao cultivo.”
O comerciante Willian José dos Reis Furquim, de Sorocaba, trabalha com o comércio de orquídeas exóticas. “Essa orquídea é do México. Eu trouxe uma muda e foram feitos cortes dessa planta. Ela gosta de boa luminosidade para florir. O cultivo é fácil em lugar bem iluminado. Floresce uma vez por ano e sem segredo, o adubo deve ser colocado a cada 30 dias.”
Para ele, sabendo trabalhar, vender flores dá dinheiro. “Cultivo desde criança, tenho 50 mil plantas. A venda é devagar porque é uma espécie diferente, trabalhamos mais com plantas exóticas. O preço varia de R$ 5,00 a R$ 5 mil. Há plantas que têm preço de até R$ 40 mil.”
O comerciante João Paulo Cid veio de São José do Rio Preto para expor e vender orquídeas. Trouxe novidades, uma orquídea de nome difícil, mas que visualmente é uma obra de arte: a dendrobium densiflorum. “Ela é hibridação, floresce em dois anos.”
Cid levou à exposição orquídeas tailandesas com raízes expostas. “São importadas e podem ser cultivadas em vasos. Com as raízes mais arejadas, a planta desenvolve melhor. A adubação é foliar com produto químico. Dilui na água e pulveriza na folha da planta.”
A comerciante Vera Lúcia Pires da Silva, de São José do Rio Preto, levou uma orquídea com flores mini. “O cultivo é fácil, basta ficar em local úmido. Floresce uma vez por ano. Num vaso maior ela não vai crescer na altura e vai espalhar, por isso costuma-se colocar três mudas num mesmo vaso para ganhar corpo”.
Expositor seleciona melhores plantas
Há mais de 35 anos, o carpinteiro Rubens Zanollo Jr., morador da cidade de São Carlos, descobriu que cultivar orquídeas era um hobby que lhe fazia bem. Interessou-se pela atividade. Já teve 2.500 plantas, mas resolveu selecionar as melhores e atualmente seu orquidário conta com 300, número que ele considera pequeno.
“Comecei a cultivar orquídeas quando era criança. Na minha família, tinha o irmão de minha mãe que gostava de orquídea, mas ele não era um orquidófilo, coletava as plantas no mato. Através dele comecei a me interessar. Hoje, eu doo algumas plantas para ele.”
O carpinteiro confessa que, o que parecia uma simples diversão, passou a ser hobby e hoje é amor. “No começo, cultivar a orquídea foi uma diversão, depois passou a ser um caso de amor. Duas vezes por dia visito meu orquidário, antes de sair para o trabalho e no retorno dele. São momentos especiais.”
Ele explica que, como o espaço é pequeno, teve que selecionar as plantas. “Procurei fazer uma seleção nesses mais de 35 anos. Fiquei com as melhores, cheguei a ter 2.500 plantas. As orquídeas não são julgadas pela cor, e sim pela forma. O valor da planta está na forma”, ensina.
Zanollo Jr. explica que, para chegar à melhor forma, imagina-se uma estrela de seis pontas. “Quanto mais perto chegar do círculo, melhor a planta. Dentro da categoria de híbrido, essa é a mais perfeita que eu tenho. Em mais de 30 anos não vi nenhuma igual.”
A orquídea que o colecionador considera a mais bonita e que ocupa espaço especial em seu orquidário ele não leva para exposições. “A que eu mais gosto tem amarelo, está em casa e não trago para a exposição porque judia muito.”
Ele lembra que a altitude da cidade influencia no cultivo da orquídea. “Se você quer cultivar uma orquídea típica de cidade com altitude baixa não adianta levar para São Carlos. Ela vai morrer ou vai ter uma floração pífia, bem inferior do que ela realmente ela é. São Carlos tem uma altitude que varia de 800 a 1.100 metros. Jaú é mais baixo. A altitude é um fator impar no cultivo de orquídeas. Influi muito na floração, que é o resultado final.”
Vaso ideal
O vaso de barro é o mais indicado para o cultivo de orquídeas em cidades com altitude muito alta, como São Carlos, explica Zanollo Jr. “Uso vaso de barro porque o vaso de plástico segura mais a umidade. O ideal é plantar em madeira, material que mais se assemelha ànatureza. Mas para o expositor não é o melhor material, porque as raízes ficam expostas e começam a quebrar. Há uma possibilidade grande dessa planta adquirir um fungo ou bactéria nessas raízes quebradas.”
A comerciante Fátima Caires diz que as orquídeas podem ser cultivadas em vaso de plástico, barro ou pedaços de madeira. Ela explica que o de barro “segura” mais umidade nas paredes e deixa o substrato mais sequinho. “É indicado para ambientes mais úmidos. O confeccionado em material plástico retém mais umidade, indicado para espaços secos.”
Como o xaxim é um produto que está proibido, tanto a extração quanto a comercialização em nível nacional, o mercado de orquídeas descobriu uma saída. “Temos a opção de casca de pinus tratada, chip de coco tratado ou o carvão comum.”