09 de julho de 2026
Articulistas

Batalha anunciada na Saúde

Nilson Costa
| Tempo de leitura: 3 min

Pronto! Acho que vai virar bagunça, e das bravas, essa luta travada a partir de alguns meses atrás, em busca de soluções para o gravíssimo problema da saúde pública do País. Quando a presidente Dilma e o alto escalão do PT acenaram com a hipótese de contratar médicos do Brasil e do Exterior, a fim de levá-los a municípios paupérrimos e longínquos, já que não conseguira encontrá-los aqui, logo explodiram brados de protesto. Especialmente porque se falou em incluir profissionais cubanos nessa empreitada.

Não se levou em conta que a pretensão governamental do Mais Médicos estava circunscrita ao dilema: se excluirmos os compatriotas de Fidel e Raul Castro, onde buscá-los? Na Ilha formam-se mais médicos do que os necessários para o atendimento interno. Os cubanos têm sido convocados e têm aceitado desafios para missões em vários países nos quais não se pode pagar muito e nem se exige o nível salarial de um Hospital Einstein ou Sírio Libanês. Todavia, o encaminhamento do Mais Médicos não é simples.

Teremos eleições ali adiante, já em outubro do próximo ano. Está em jogo o mandato da Presidente da República, dos governadores, senadores e deputados. Lula, politicamente espertíssimo, entendeu que ficará menos difícil emplacar Dilma de novo se o PT e seus aliados conseguirem finalmente fincar pé no Palácio dos Bandeirantes.

Qual é o apelo principal do eleitorado neste momento? É sem dúvida uma substancial melhora na área da saúde. Daí a idéia de convocar o ministro Padilha para a missão. E ao mesmo tempo municiá-lo com um programa que acerte na veia a chamada falta de médicos nas cidades em que a presença deles tem sido um dilema para governadores e prefeitos. Recebido inicialmente com restrições ? mais ferozes nos órgãos representativos da categoria ? pesquisas de opinião revelam que ampla maioria da população quer, sim, a presença dos doutores perto de suas casas, sejam eles argentinos, espanhóis, portugueses, cubanos ou baianos...

O governador Geraldo Alckmin percebeu que o páreo estadual de 2014 não será moleza. Parece que o candidato Padilha caminha para chegar a seus calcanhares. Lula deve ter raciocinado ao lançar depressa e prestigiar o concorrente de Alckmin: "Se o Serra, tido pelos tucanos da época como o melhor ministro da Saúde da história do País, apesar de algumas rusgas com o eleitorado, galgou os degraus da fama e chegou a ser inquilino do Palácio dos Bandeirantes, por que não chegar lá com alguém mais moço, menos contraditório e disposto a suprir de médicos as populações humildes do Brasil?

Simples assim? Não é o que parece. O governador mexeu na área da Saúde, parte para a briga e anuncia ações para enfrentar o desafio. O novo secretário da Saúde, David Uip, está anunciando a realização de concursos para médicos, de 40 horas semanais de trabalho, com salários de R$20 mil! O dobro do oferecido pelo Governo Federal!

Será que, de repente, o poder público descobriu minas de diamantes para bancar essa briga monetária? Suponhamos que continue ? e tudo indica que sim ? esse eldorado em benefício de uma área específica do funcionalismo. Muitas pessoas acham que a solução da problemática trabalhista, nesse âmbito, depende apenas da "vontade política" do governante. Tudo fácil e aparentemente simples. Não é bem assim. Vejamos o ambiente em nosso Estado. Greves e ameaças de paralisações constantes em toda parte. Quem não está parado aguarda a hora de cruzar os braços. A defasagem salarial é gritante. Se o governador beneficiar a área médica nos termos anunciados pelo secretário da Saúde, como ficarão as demais categorias? Como reagirão os auxiliares de enfermagem, os enfermeiros, os fisioterapeutas e ocupantes das demais carreiras? A batalha político-eleitoral, como disse de início, está apenas começando. O que se espera é que não resulte no estouro do orçamento do Estado e da União, com a transformação da Lei de Responsabilidade Fiscal em letra morta. E se ocorrer, quem pagará a conta? O povo, claro!


O autor, Nilson Costa, é jornalista e presidente da AB Letras