09 de julho de 2026
Articulistas

O garfinho

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

O pintor, com a roupa velha suja de tinta, apalpa a sacolinha do marmitex e pergunta: "Não tem garfinho?". E a moça: "Hoje não vou ter mais". Vira as costas e volta para a cozinha. Ele fica paralisado. Paralisado. E sai com a comida, afinal, tem fome.

Será que comeu com a mão? Será que comeu pelas beiradas, levando o marmitex diretamente à boca? Será que na obra tem garfo? Será que pediu garfo a um vizinho da obra? Será que guardou o marmitex para a janta em casa e trabalhou o dia todo com barriga vazia?

Alguém falou durante a semana que o triunfo dos 12 condenados do mensalão, contemplados com novo julgamento, foi a prova da vitória do direito, não da justiça. Está tudo certo, tudo dentro da lei, recursos existem para isso, mas... Mas a sociedade, tal qual o pintor diante do marmitex sem garfinho, ficou paralisada diante do justo direito ao novo julgamento de condenados no STF.

Aliás, tirando a pizza jogada em direção ao prédio do Supremo - e as assustadoras atrizes de luto no Facebook -, a impressão geral é mesmo de paralisia diante da realidade que se impõe.

Virou chavão dizer que brasileiro aceita tudo. É mais tolerante (ou seria apático?) de que seus aguerridos vizinhos latinos de sangue sempre na fervura. O fato é que temos mesmo dificuldade para pensar rápido quando algo não previsto se instala como raio bem na nossa frente. Quando a doce e segura rotina é testada ou interrompida, ficamos assim: estupefatos, olhos fixos no nada, mudos.

E mesmo quando ocorrem decisões já devidamente telegrafadas, bem sinalizadas, como o decisivo voto do decano do STF, muitos ainda se pegarão surpresos e sem ação. Sem fôlego para gritar nas ruas. Afinal, é assim mesmo.

A moça da marmitaria em Bauru não mentiu, não omitiu, não manipulou. Não tem garfinho, e a vida é essa. Enfrente-a. Mas também não buscou uma solução para o cliente - que, por sua vez, conformou-se com seu destino: comer sem garfinho, sabe-se lá como. Garfinhos de plástico cortam pizzas?


O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC