08 de julho de 2026
Bairros

Caixas eletrônicos: bando é preso

Por Vitor Oshiro | Colaborou Isabela Ribeiro
| Tempo de leitura: 6 min

Foi por muito pouco. Na noite de anteontem, a Polícia Militar (PM) impediu o que seria um grande assalto em Bauru. Quatro integrantes da quadrilha, que planejava abrir caixas eletrônicos localizados nas secretarias municipais do Planejamento (Seplan) e do Meio Ambiente (Semma), foram presos. O vigia do local já estava até amarrado quando a ação foi desarticulada.

O cenário do crime seria o prédio localizado na quadra 14 da avenida Nuno de Assis. Mas não foi lá que o plano foi descoberto. Por volta das 19h, viaturas de Força Tática passavam por uma pensão na rua Primeiro de Agosto e desconfiaram de um carro, com placas da Capital.

Os policiais conversaram com a proprietária do imóvel e ela indicou o quarto dos hóspedes. Lá, abordaram o feirante Emerson Cristiano Fernandes, 36 anos, e o manobrista Ronivon Moreira da Silva, 28.

Segundo o 1º sargento da PM Jener Zorzi, durante a revista aos suspeitos, foram localizadas as chaves de mais dois veículos: um deles era um Peugeot 307, que estava estacionado ao lado em uma via ao lado da pensão.

Neste veículo, as verdadeiras intenções dos falsos hóspedes foram reveladas. Lá, havia um botijão de gás de cozinha, um cilindro de oxigênio, um extintor, uma lona preta, fitas adesivas, luva, um bico de maçarico e ferramentas como pés de cabra, alicates e chaves de fenda. Foi descoberto ainda que este veículo fora roubado em março deste ano em um bairro nobre da zona Oeste de São Paulo.

Questionados a respeito do restante da quadrilha, Emerson e Ronivon informaram que eles estariam passeando. Porém, dois homens telefonaram para os já detidos avisando que o local do assalto estava preparado, uma vez que o guarda já estava rendido.

Ao escutar a conversa, os policiais se passaram pelos indivíduos abordados e pediram para eles voltarem à pensão para ajudá-los com o carro, alegando que havia quebrado.

O mecânico José Fernando Alves de Lima, 34, e o vendedor Alex dos Santos Sampaio Pedrosa, 27, que estavam no prédio onde o assalto ocorreria, voltaram para a pensão e tiveram a desagradável surpresa: também foram detidos.

A dupla foi até o local em um Pálio, que pertence a Alex. No carro, foram achados um rádio HT sintonizado na frequência da polícia, uma mochila, uma blusa de frio, um colete à prova de balas falso (feito de papelão) e uma farda completa da PM.


Enquanto isso...

Enquanto os policiais agiam na pensão, o vigia continuava amarrado no prédio público. Às 18h, o funcionário, de 58 anos, havia sido rendido por José, Alex e outro homem, todos armados com revólveres.

Só por volta das 22h, ele foi solto pelos policiais.  Um pouco antes de a PM chegar, o guarda responsável pela ronda havia passado por lá e chamado o vigia várias vezes.

Como não obteve resposta, o guarda acionou os supervisores e entrou no prédio, assustando os bandidos, que fugiram pelos fundos. De lá, eles voltaram para a pensão, onde foram presos.

Segundo a polícia, dos detidos, Emerson Cristiano Fernandes e o manobrista Ronivon Moreira da Silva não possuem passagens criminais. Já José Fernando Alves de Lima respondeu por porte de arma de fogo e Alex dos Santos Sampaio Pedrosa, por roubo.

Todos foram autuados em flagrante por tentativa de roubo qualificado, formação de quadrilha e também pelo veículo roubado que estava com o grupo. Eles foram encaminhados para o Centro de Detenção Provisória (CDP) de Bauru.


‘Até minha marmita eles comeram’

Vigilante há 20 anos, P.C. (o nome foi reservado pela reportagem), 58, nunca havia sido assaltado. Pelo contrário: em 2006, trabalhava em um dos locais atacados em Bauru pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). No dia, porém, estava de folga.

Neste fim de semana, não teve a mesma sorte. Ainda com as mãos trêmulas, ele mostrava como havia sido amarrado e relembrava a ação dos criminosos, que comeram até sua marmita.

JC - Como você foi abordado?

Vigia - Assumi meu turno às 18h e, quando coloquei a chave na porta, senti dois canos na minha nuca. Eles já agarraram a gola da minha camisa e me jogaram para dentro.

JC - O que eles diziam?

Vigia - Diziam que só queriam o caixa eletrônico. Perguntei se iam me matar e eles disseram: “pode ficar tranquilo, velho”. Eu rezava e pedia para Deus afastar os inimigos.

  

JC - E onde você ficou?

Vigia - Eles me levaram para a cozinha e me colocaram de frente para uma parede. Disseram que era para eu não me virar. Pegaram os meus próprios cadarços e amarraram as minhas mãos nas costas.

  

JC - E nessas quatro horas?

Vigia - Eles reviravam gavetas e falavam no celular. Também tomaram o refrigerante da geladeira. Até minha marmita eles comeram.


JC - Sua marmita?

Vigia - Sim. Tinha levado arroz, feijão e um ovo por cima. Eles comeram tudo.

JC - E como você foi solto?

Vigia - O ronda passou e me chamou. Como eu não respondi, ele pulou lá dentro. Escutei os bandidos falando: “sujou, sujou”. Quando o ronda me viu, eu mostrei minhas mãos amarradas. Logo, o policial chegou e me tirou.


JC - E como você está agora?

Vigia - Estou meio ‘baleado’. Fiquei com muito medo. Fui para o Pronto-Socorro e eles me deram um remédio. Fecho os olhos e sinto o cano no meu pescoço.


Esqueceu o RG

Um dos integrantes do trio que rendeu o vigia no prédio da prefeitura conseguiu fugir da polícia. Porém, cometeu um erro capital. Douglas Martinez, 30 anos, acabou esquecendo o RG na cena do crime.

“Iremos verificar a autenticidade deste RG e, provavelmente, pedir a prisão preventiva deste suspeito”, explica Kleber Granja, titular da Delegacia de Investigações Gerais da Central de Polícia Judiciária (DIG/CPJ).

A vítima reconheceu a fotografia no RG como sendo de um dos que a renderam. Além dele, havia suspeitas de um sexto participante. “O grupo nega e será muito difícil localizá-lo. Provavelmente, ele não é da cidade”, completa o delegado. O vigia alega que uma voz feminina estava do outro lado da linha com os bandidos.


Farda da PM

No carro de Alex dos Santos Sampaio Pedrosa, os policiais encontraram uma farda da PM. A Polícia Civil investiga a autenticidade do uniforme. Conforme o JC apurou, o policial dono da farda seria familiar do acusado.

“É algo que iremos apurar para verificar se há qualquer ligação”, pontua o delegado Kleber Granja.

O setor de relações públicas do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I) diz que a corporação também deve instaurar um procedimento apuratório para verificar os fatos. Contudo, ressalvou que a farda pertenceria a um policial aposentado e não é do batalhão de Bauru.


Alex fazia ‘elo do crime’

Há dois anos em Bauru, o comerciante Alex dos Santos Sampaio Pedrosa montou uma lanchonete na cidade. Ele, porém, seria o intermediário de toda a ação criminosa. Plano que, de acordo com as investigações, foi elaborado quando ele cumpria pena por roubo em um presídio no Capital.

O restante do bando é de São Paulo. Até a modalidade do crime confirma isso. “O furto de caixas usando explosivos é algo que se vê na região de Campinas. Já com maçaricos e com o arrebatamento de alguém é uma modalidade de crime da Capital”, explica Kleber Granja. O delegado conta que a Polícia Civil vai checar possível ligação com outros casos, como um roubo recente na rodovia Castelo Branco.


Há 20 dias

Conforme o JC apurou, o bando já planejava a ação há tempos. No início deste mês, eles já teriam realizado um reconhecimento prévio da área a ser roubada.

A quadrilha esteve no prédio onde funciona a Seplan e Semma há 20 dias. Enquanto duas pessoas ficaram no carro, outros dois subiram até o imóvel. Como eles não solicitaram nenhum serviço, o fato alertou os funcionários.