08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

'Comerciarinhas da Batista'


| Tempo de leitura: 3 min

Esse título aí é o de um antigo poema do Luiz Vitor Martinello, escrito nos tempos quando ele ainda podia contemplar com olhos de solteiro as tais das "comerciarinhas" (termo utilizado com muito amor e carinho e nada depreciativo) da Batista. Quem, dentre nós, os varões, nunca olhou para elas todas com olhos gulosos e cheios de esperança? Os mais sortudos saíram com elas, outros casaram. Elas, as comerciarinhas, são as trabalhadoras do comércio bauruense, dignas representantes de uma categoria que muito labuta, enfrentam o touro a unha de segunda a sábado, faça sol ou chuva, dignificando e contribuindo em muito para o sucesso do que é o comércio central bauruense.

É impossível olhar para elas só com olhos libidinosos, ainda mais depois do ocorrido na tarde de segunda, quando, num grupo, protestaram pelo centro da cidade contra a abertura do comércio no próximo feriado, 12/10.

Fizeram passeata, levantaram cartazes e estiveram diante da Câmara de Vereadores protestando e clamando por um bocadinho de nossa atenção. Querem permanecer em suas casas, cuidando dos seus outros afazeres nesse dia de feriado e dessa forma, posicionamento arrojado, corajoso e justo, colocam a cara para bater e enfrentam com peculiar ousadia um velho problema dentro da sua rotina de trabalho. Pedem só um pouco mais de atenção para não ficarem tão sobrecarregadas. Afinal, feriado é feriado.

E hoje, após observar à distância como lutam essas comerciarinhas, não consegui encarar o tal do poema lá do Vitor sem tentar ir fazendo uma releitura do mesmo de forma atualizada. Ele, aliás, continua mais atual que nunca, mas pode também receber uma estrofe a mais (isso é coisa para o poeta), contendo algo da resistência e da forma consciente como enfrentam a batalha diária. Abaixo o poema e com ele, linha por linha, uma reflexão baseada em tudo o que foi presenciado nas ruas ontem. De tudo, uma só conclusão (que também deve ser a do poeta): estou é mais apaixonado por essas aguerridas trabalhadoras.

"Nutro profunda ternura
pelas comerciarinhas da rua Batista
anos atrás, eu não tinha bigodes
namorei a mais bonita
daquela loja

(conserva a loja o mesmo turco
a mesma fachada)
ela casou-se, engordou
ah! o prazer ansioso de esperá-la todas às tardes
ao final do expediente

(maldizia quando algum freguês se atrasava)
e então como era belo pegar o ônibus com ela deixá-la no portão de sua casa
fazer com ela planos para o futuro

(as comerciarinhas da Batista são pra casamento)
uma casinha do BNH
churrasco aos domingos, após a missa
teríamos assim uns dois ou três filhos
iríamos ao zoológico, aos desfiles de 7 de setembro
compraríamos arquibancadas para ver o carnaval de rua

(o rádio o dia todo ligado na Auri Verde)
no natal compraria um par de chinelos para a sogra
uma cueca para o sogro
tomaria com os irmãos e cunhados um porre de cerveja

(ela gostava de guaraná antártica)
e envelheceríamos - ela de penhoir - eu de pijama os dois juntinhos no sofá da sala
vendo a Globo
ainda outro dia, encontrei-a

(por coincidência em frente da mesma loja o mesmo turco a nos cumprimentar envelhecido)
disse que estava bem, os filhos
comendo cachorros-quentes lambuzados
de mostarda e catchup
estava ali porque sua filha mais velha

(tinha já 15 anos)
empregara-se na mesma loja
tinha nas mãos o último cd do Roberto Carlos, adoro, disse ela
ah! aparecesse lá em casa
um domingo qualquer, seu marido
fazia um churrasquinho daqui ó!
despedimo-nos e eu me fui
absorto, ausente, os braços pensos pensando nos meus antigos e longes dezoito anos.

Henrique Perazzi de Aquino, jornalista e professor de História