08 de julho de 2026
Geral

Nos bastidores do espetáculo

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Éder Azevedo

 Números de força, concentração e equilíbrio levam a plateia a um mundo de sonhos

Alegria, apreensão, espanto, admiração. De um extremo a outro, esses são alguns dos sentimentos que uma trupe de artistas consegue provocar no público que visita o Circo dos Sonhos, que permanece em turnê em Bauru até 20 de outubro. Durante uma hora e quarenta minutos de espetáculo, eles apresentam cerca de dez números que resultam em explosões de risos e aplausos da plateia.

Se a história que contam no picadeiro é mágica, a realidade que vivem nos bastidores é tão ou mais interessante. A preparação para entreter crianças e adultos com suas habilidades precisa começar bem antes.

Em muitos casos, muitos anos antes, ainda na infância. E nunca acaba. Passa pela maquiagem que cada um aprende a fazer sozinho, pelo condicionamento físico com o uso de aparelhos disponibilizados pelo próprio circo ou em parceria com academias dos municípios, pelo treinamento diário dos números que cada um apresenta e pelo desenvolvimento ou aprimoramento das técnicas.

Um universo de muita disciplina, mas também da descontração e intimidade próprias de quem passa muito tempo junto. No terceiro dia de permanência do grupo no estacionamento do Boulevard Shopping Nações, o JC foi acompanhar de perto os preparativos para mais um dia de show e conhecer as histórias de quem faz o circo acontecer.


De perder a cabeça

Filho de um locutor de circo e de uma bailarina já aposentados, o mágico Wander Rabelo, 31 anos, não poderia ter destino diferente. Nasceu no circo e, já com 11 anos, começou a fazer os primeiros truques, que foram aperfeiçoados ao longo do tempo.

 

Nascido no circo, Wander Rabelo começou a fazer mágicas com 11 anos

Ainda criança, testou suas habilidades em outras modalidades, como malabares e acrobacia. “Mas me identifiquei, mesmo, com a mágica”, garante.

No Circo dos Sonhos, ele apresenta seis números, sendo o da “mulher que perde a cabeça” o que mais surpreende os espectadores. “O mais recompensador é ver a reação das pessoas. Tenho paixão pelo circo”, comenta.

A possibilidade de conhecer muitas cidades, para ele, é outra vantagem que o mantém tão ligado à sua atividade. “Conhecer gente nova e desenvolver novos números quebram a rotina e são sempre um desafio para manter a gente vivo”, observa.

 

Priscila Vasconcelos dá vida à Alice, personagem central do espetáculo

Criança mãe de criança

Em um dos camarins, o pequeno Arthur, 4 anos, corre até os braços de uma jovem que finaliza a maquiagem colorida diante do espelho. Ele nem sabe, mas sua mãe, a atriz Priscila Vasconcelos, 23 anos, também é uma criança.

É ela quem dá vida à Alice, personagem central do espetáculo, uma garotinha que cai no sono logo no início da apresentação para embarcar num mundo de sonhos povoado por malabaristas, equilibristas e contorcionistas.

Mas, na vida real, o personagem central da vida de Priscila é mesmo Arthur, fruto de seu casamento de sete anos com Márcio, o palhaço Maskarito. “Nos conhecemos quando trabalhávamos em outro circo e conseguimos continuar trabalhando juntos, o que é bom para o nosso filho”, pondera.

Arthur acompanha a vida itinerante dos pais e, amparado por lei federal, tem os estudos garantidos em escolas das cidades por onde o circo passa. “Comigo também foi assim. Comecei no circo com 14 anos e não tive nenhum problema para concluir o ensino médio”, destaca Priscila.


 

Treinamento de 4 horas por dia leva o malabarista Tiago Oliveira à perfeição

Longe de casa

A trupe é eminentemente formada por jovens. Um deles é Tiago Oliveira, 27 anos, responsável por dois números diferentes no Circo dos Sonhos. É equilibrista sobre pranchas e cilindros, mas também faz malabarismos com bolinhas, aros e claves.

Consideradas as modalidades que mais exigem do artista, ele precisa treinar cerca de quatro horas diárias para manter as habilidades e a concentração em dia. É Tiago, também, quem passa o maior período se aquecendo antes de cada espetáculo: cerca de 40 minutos.

O interesse pela atividade surgiu aos 7 anos de idade, quando ele começou a frequentar aulas de uma escola de circo que existia perto de sua casa, em São Paulo. Nove anos depois, o que era para ser brincadeira se transformou em profissão.

“No começo, ainda garoto, foi difícil ficar longe de casa, mas, agora, já estou adaptado. Quero fazer isso até quando eu puder”, conta. Segundo ele, o retorno para a casa dos pais acontece a cada um mês e meio, nos intervalos de temporada entre uma cidade e outra, que duram cerca de cinco dias.

 

 Na pele de Maskarito, o ex-metalúrgico Márcio Garcez faz o público gargalhar

Da metalurgia à palhaçada

Olhando para a roupa colorida e os trejeitos desengonçados, nem parece, mas o homem que dá vida ao palhaço Maskarito já foi metalúrgico. A transição entre uma profissão e outra, no entanto, não foi tão brusca quanto se possa imaginar.

“Eu vivia fazendo brincadeiras e as pessoas já me chamavam de palhaço. Resolvi levar isso a sério”, brinca Márcio Garcez, 48 anos, o mais “experiente” de toda a trupe. Entre cursos de mímica e interpretação, ele decidiu abandonar a função de metalúrgico com “rotina de cartão de ponto” e abraçou a arte como profissão em 1997.

O nome do personagem foi escolhido como homenagem a Oscarito, um dos maiores mestres da arte de fazer rir. “Fiz uma junção com a palavra máscara, numa menção ao nariz vermelho que identifica os palhaços mundialmente”, revela.

Assim como ele, todos os integrantes do Circo dos Sonhos aprendem a fazer suas próprias maquiagens. O exagero de cores e traços é proposital, para que toda a plateia, até a última fileira, possa perceber as expressões faciais dos artistas no picadeiro.

 

A turnê do Circo dos Sonhos permanece em Bauru até 20 de outubro no estacionamento externo do Boulevard Shopping Nações - onde funcionava a pista de kart.

As sessões ocorrem de terça a sexta-feira, às 20h (inteira a R$ 20,00 e meia-entrada a R$ 10,00); sábados, domingos e feriados, às 15h, 17h30 e 20h (inteira a R$ 30,00 e meia a R$ 15,00).

A meia-entrada é válida para crianças de 2 a 12 anos, estudantes e pessoas com mais de 60 anos. Os ingressos podem ser adquiridos no site www.ingresso.com ou na bilheteria do circo, que funciona de terça a domingo, das 13h às 20h.

Mais informações podem ser obtidas pelos telefones (14) 4003-2330 (ingresso.com), (11) 2076-0087 ou (11) 2076-0001.