10 de julho de 2026
Geral

Planadores são enviados a museu para manter preservação da história

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Quioshi Goto

Emílio Fanton, do Aeroclube: “Exemplares contam um pouco da evolução dos planadores”

Capital Nacional do Voo a Vela, Bauru não tem como restaurar nem conservar planadores antigos, das décadas de 40 e 50. Por isso, nove carcaças de planadores do Aeroclube de Bauru foram encaminhadas para o Museu TAM em São Carlos para serem recuperadas.

Assim que forem reformadas, ficarão em exposição no mesmo local, mas em regime de comodato (espécie de cessão por empréstimo), segundo informa a direção do Aeroclube.

Todos os aeroplanos, já deteriorados pelo tempo, são feitos em madeira freijó e possuem mais de 40 anos de fabricação. Segundo o diretor social do Aeroclube, Emílio Fanton, eles ficaram mais de 20 anos desmontados e armazenados em um sótão de um hangar.

“Não tinha motivo para eles continuarem onde estavam. Iriam desaparecer com o tempo. Em Bauru, não haveria lugar para deixá-los, nem mão de obra especializada para fazer a restauração de modelos tão antigos. O museu de São Carlos se interessou e achamos ótima a ideia de reconstruí-los e colocá-los em exposição”, explica.

Planador Laister-Kauffmann permanecerá no Aeroclube de Bauru

Equipes do Museu TAM vieram a Bauru há pouco mais de um mês para retirar as peças, que foram cedidas em regime de comodato. De tão frágeis e deterioradas, precisaram ser transportadas em colchões, que foram colocados sobre um caminhão. Ao todo, foram necessárias três viagens. “Muitas partes estavam podres e se quebravam facilmente. A expectativa é de que a restauração demore de dois até cinco anos para ser concluída, já que é preciso obedecer às plantas originais específicas de cada planador”, frisa Fanton.


Preciosidades

O patrimônio levado para São Carlos são dois Quero-queros, um Neiva-B, um Neiva-BN1, um Flamingo, um Colibri, um Grunau Baby, um Canguru e um Urupema. Esse último será o primeiro a ser restaurado e exposto no Museu TAM de São Carlos.

Museu TAM irá restaurar aeroplanos com mais de 40 anos de fabricação, como o Neiva-BN1

Conforme o diretor social do Aeroclube reconhece, trata-se de preciosidades históricas do voo a vela. “São exemplares raros, que contam um pouco da evolução deste tipo de aeronave”, completa.

De acordo com ele, ao longo dos anos, nenhuma iniciativa do município apresentou, de maneira efetiva, um projeto para recuperar, armazenar e expor os aeroplanos deteriorados. Por serem bastante antigos e já terem sido desmontados, eles não possuem mais capacidade de alçar voos e, justamente por conta disso, ficaram tantos anos ‘esquecidos’.

A situação é diferente para outros dois planadores da “velha guarda”, que irão continuar nos hangares do Aeroclube. Um deles é o Spalinger-S25, montado em 1953 pelo alemão Hendrich Kurt, que morou em Bauru durante grande parte de sua vida e foi responsável pela difusão do voo a vela.

O exemplar é o único remanescente deste modelo em todo o mundo com capacidade de voo. O Aeroclube conserva ainda um aeroplano Laister-Kauffmann, um projeto americano de 1944 que também pode voar. Além desses dois modelos, o Aeroclube mantém outros 11 planadores – mais modernos e feitos em fibra de vidro – em seus hangares.


Bauru difundiu voo a vela no País

O voo a vela é praticado em Bauru desde 1942, quando foi introduzido pelo imigrante alemão Hendrich Kurt. Pacifista convicto, o engenheiro mecânico – que também era artista – veio para o Brasil para fugir do nazismo e, no início dos anos 40, se estabeleceu na cidade, na companhia de seu cunhado Hans Widmer, também engenheiro.

Foi Kurt quem construiu os primeiros planadores no município, entre eles o curioso Canguru. Em 1940, o Aeroclube de Bauru formou sua primeira turma de pilotos de planador. Daí em diante, por conta do pioneirismo da fabricação dos primeiros aeroplanos, da criação de um curso regular para pilotos de voo a vela e, principalmente, das abundantes ondas térmicas necessárias para manter a aeronave no ar, a cidade passou a ser cada vez mais procurada para a prática do esporte.

Nos anos 1970, o voo a vela se disseminou pelo País e Bauru, em virtude da vantagem meteorológica e da grande frota de planadores do Aeroclube, passou a ser conhecida internacionalmente como a “Capital Nacional do Voo a Vela”. Atraindo pilotos e apaixonados pelas alturas desde os anos 1940, a cidade se tornou um celeiro de campeões da modalidade.

Essa intensa movimentação chamou a atenção da Associação Brasileira de Voo a Vela e Bauru passou a sediar os campeonatos a partir de 1955, recebendo em suas dependências pilotos do Brasil inteiro. Nas décadas de 1960 e 1970, se tornou um dos principais centros de formação, recebendo centenas de interessados em aprender o volovelismo.

Segundo o diretor social do Aeroclube, Emílio Fanton, as competições foram interrompidas quando da inauguração do Aeroporto Moussa Tobias, em 2006, quando o espaço aéreo disponível para a prática do esporte teve de ser reduzido.

“Mas a escola continua com seis instrutores e cerca de 20 alunos. São feitos aproximadamente 20 voos por dia e entre 50 e 60 pilotos formados ao ano. Além disso, temos uma das melhores oficinas da América do Sul para o conserto de planadores modernos”, completa.