08 de julho de 2026
Geral

Em comum, a rua e seus cãezinhos

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Aceituno Jr.

Morador de rua há 20 anos, Naninha afirma: “O Bandoleiro se tornou a minha família”

Bandoleiro e Mel. Ele, um legítimo vira-lata magricela com a pelagem amarelada. Ela, uma rechonchuda cadela branca com um sem número de pintinhas ‘à la dálmata’, também sem raça definida. Ambos com aquele olhar pidão que todo cachorro já nasce sabendo fazer. Os dois, porém, têm mais em comum: são fiéis a quem, aparentemente, nada podia lhes dar. Aparentemente.

Há dois meses, com a pata machucada e cheio de pulgas, Bandoleiro andava sem rumo pelas proximidades do terminal rodoviário de Bauru. “Eu encontrei ele e já gostei na hora”, conta Edvaldo Fraga, 31 anos, o Naninha.

Morador de rua há 20 anos, o homem, que se livrou do vício da cocaína, mas, hoje, chega a tomar álcool de posto, usou parte de suas “economias” adquiridas com programas de renda do governo e complementadas nos semáforos para tratar do bichinho. A pata machucada foi curada. As pulgas ainda insistem em ficar mesmo com as coçadas firmes de Bandoleiro.

O cão foi grato pelo tratamento. Hoje, segue seu dono aonde ele vai. Segue e defende. “Esses dias, um homem veio para cima de mim e o Bandoleiro avançou nele. Fez isso pra me defender”, conta Naninha, que não mantém mais qualquer laço com a família do Paraná. “E nem quero. O Bandoleiro se tornou a minha família”.

A história de Naninha se repete na maioria dos outros casos de moradores de rua. Brigas familiares e drogas impulsionaram quase todos a abandonar seus antigos lares. Vida que não é nada fácil.

“Esses dias, tomei uma tijolada na cabeça. A ambulância veio para me  levar pro hospital. Eles disseram que o Bandoleiro não ia poder entrar na ambulância. Eu desci tontinho, mas não ia deixar ele sozinho aqui”.

Ninguém nunca vai saber ao certo a idade de Bandoleiro. “Pelos dentes, eu acho que ele é velho já”. Pelas brincadeiras, parece um filhote. Na rua, usa o que encontra como brinquedo. Esconde os bonés dos outros moradores de rua e as garrafinhas de aguardente do dono. “Acaba até fazendo bem para mim, né?”, brinca Naninha.

Fora o período em que os dois percorrem os sinaleiros em busca de trocados – ou lanchonetes por uma metadinha de bife para Naninha e uma metadona para Bandoleiro –, eles passam grande parte do dia no Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop). É lá também que, enquanto o sol está a pino, a Mel tem “passe livre”.

 

Quioshi Goto

César Tadeu Oliveira, o Sabotage, brinca com a cachorra Mel, que está com ele há cinco anos

Doce Mel

“Um dia, vi um homem com uma cachorrinha passando aqui em frente e disse que ele podia entrar. Ele olhou para a cachorra e perguntou: e ela? Só entro se ela também puder”. Foi assim que, segundo a agente social Laura Camargo, Mel e seu dono chegaram ao Centro Pop.

A pequena rechonchuda nasceu na Capital. Foi a mais “feinha” de toda a prole. O dono vendeu os outros filhotes e, sem nenhum interessado pela cachorra pintadinha, acabou doando a pequena com quatro meses para o amigo César Tadeu Araújo Silva Oliveira, 39 anos. Nome grande, mas, apelido simples. “Sabotage. Sem o ‘m’. Igual ao rapper”.

Sabotage não fala muito sobre o que o levou a morar na rua. Pintor, conta que já ganhou R$ 2,3 mil por mês. “Hoje, não tenho nada. Na verdade, tenho tudo. Faz cinco anos que tenho a Mel e ela é tudo para mim”.

E ele também parece ser tudo para a Mel. É só o Sabotage falar a frase mágica “cadê meu beijo?” e a cachorrinha, sentada durante toda a entrevista em uma cadeira ao lado do dono, levanta o focinho em direção a ele.

Mas, assim como é com Naninha e Bandoleiro, a vida nas ruas não é de beijos. “Ontem (anteontem), estava chovendo. Ficamos embaixo de um toldinho, mas que estava pingando. Eu sei que eu posso me molhar, mas ela não. Tirei minha camiseta e coloquei nela. A galera até ficou me zoando”.

Marmita

Pouco depois, a chuva passou. A fome não. Naquela noite, não conseguiram a marmita que comumente dividem. “Eu fui dormir com fome mesmo”, relembra Sabotage. E a Mel? “Ela não. De jeito nenhum, rapaz. Eu descolei um rango para ela”.

Quando a reportagem acabou já era por volta das 17h e o Centro Pop estava perto de fechar. Como os cachorros não ficam nos albergues noturnos, os donos nem cogitam ir para lá. Mais uma noite, Mel, Sabotage, Bandoleiro e Naninha vão se encontrar pelas calçadas de Bauru.

“Dá uma tristeza nessa hora. Dá uma tristeza em pensar que toda noite temos que arrumar um novo lugar para se proteger. O que me dá felicidade é só a minha cachorrinha mesmo”, finaliza Sabotage. Com uma lambida no rosto do dono, Mel mostra que o sentimento é recíproco.


‘Tinha só duas camisetas. Dei uma delas para a Mel’

Sabotage tinha apenas duas camisetas. Tinha. Assim como faz com as marmitas, uma delas foi para a Mel. “Ela ficou bastante fashion”, brinca. O estilo, porém, durou pouco. Dias depois, a roupinha da Mel foi furtada com a mochila do dono. “A rua é só maldade”.

As roupas compartilhadas são só um exemplo de como Sabotage é cuidadoso com a Mel. “Nunca fizeram nada contra ela. Contra mim já. Quando um morador de rua tropeça nela, ele já vem correndo me pedir desculpa. Eu não admito”.

Acariciando a cachorra, Sabotage ainda lança um desafio: “pode procurar. Pode ficar o dia procurando. Duvido que alguém encontre um só carrapato nela. Se alguém encontrar, eu como”, completa.


São Francisco de Assis

Hoje é celebrado o Dia de São Francisco de Assis, santo conhecido como patrono dos animais e do meio ambiente. Por isso, alguns consideram ainda que a data de hoje é também o Dia do Cão ou o Dia dos Animais.

Francisco de Assis foi um frade católico italiano. Depois de uma vida mundana na juventude, passou viver em meio à pobreza. Era comum vê-lo pregar com vários pássaros e animais ao seu redor.

 

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