08 de julho de 2026
Geral

Bauruense já sente saudade da Kombi

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 4 min

A Kombi chegou ao fim da linha. Por motivos de avanços tecnológicos impossíveis de serem embarcados no modelo, a Volkswagen não irá mais fabricar a perua. A Kombi, assim como o Fusca, é caso de paixão nacional. A Volks interromperá sua fabricação em dezembro deste ano após produzir a utilitário por 56 anos.

Se a Kombi não se encaixa mais nos padrões de segurança estabelecidos pelo governo, as vendas não decepcionam. De janeiro a agosto deste ano, foram comercializadas 15,4 mil unidades, apesar de apenas um único modelo continuar em produção na fábrica de São Bernardo do Campo.

O bauruense Sérgio Antunes de Oliveira, 66 anos, coleciona veículos, motos, lápis, chaveiros, bicicletas, miniaturas de garrafas, rádios, gramofones, toca-fitas de manivela, troféus, medalhas e moedas. Em sua coleção de veículos há uma Kombi. O modelo 1970, motor 1500, foi adquirido do seo José Bascini, há seis anos no município de José Bonifácio (SP). Bascini foi o primeiro dono.

Oliveira comenta que só teve que fazer a pintura externa. Não houve necessidade de restauro da parte interna. O banco da parte central teve o estofamento recuperado. Proprietários de Kombi têm o hábito de retirar esse assento para ampliar o espaço para carga. 

Ele acrescenta que tinha vontade de comprar um modelo com seis portas. Porém, quando viu a do seo Bascini, não quis perder a oportunidade. Mantém o cuidado de sempre colocar a Kombi para rodar. Ele comenta que a gasolina distribuída no Brasil possui elementos químicos solventes que corroem o sistema de injeção de combustível. “Você deixa esses carros 15 dias sem funcionar e a gasolina evapora do sistema de carburação”, esclarece.

O modelo da Kombi de Oliveira é standard. A Volks colocou no mercado brasileiro os modelos luxo, conhecidos como “saia e blusa”, devido à pintura em duas cores. Oliveira lembra ainda do modelo seis portas utilizado por taxistas. Também tem a versão picape com a carroceria usada para transporte de carga.

Ele costuma expor sua Kombi em encontros de antigomobilismo, inclusive é o atual vice-presidente do Clube de Carros Antigos do Centro-Oeste Paulista, que atua em Bauru marcando presença em várias exposições de carros antigos e eventos. É quando os colecionadores e aficionados por carros antigos trocam ideias, encontram peças e criam laços de relacionamento.

Quanto ao fim da fabricação da Kombi, Oliveira entende que é a evolução por questões de segurança. Ele comenta que, quando o carro foi lançado, ganhou o apelido de “Jesus me chama”. O design do carro deixa os ocupantes da frente – motorista e passageiro – expostos ao impacto frontal, em um eventual acidente. “Os joelhos são o parachoque”, comenta.

Estreia

Após a pintura do veículo, a Kombi de Oliveira teve uma missão importantíssima. Levou uma noiva para a igreja. O proprietário conta que a noiva era colega de trabalho de seu filho. Certo dia, o rapaz comentou com a noiva que seu pai havia comprado uma Kombi. Ela sonhava chegar ao casamento no religioso em um modelo desses e Oliveira realizou o desejo da moça. Oliveira também teve uma Kombi cabine dupla, modelo ano 1982, a diesel, usada para trabalhar.


Standard

A Kombi de Sérgio Antunes de Oliveira mantém itens originais. Em dois anos rodou cerca de 1.500 quilômetros. “Fui a dois eventos em Pirajuí e Araraquara e em Torrinha e Duartina. Sem contar andanças em Piratininga e Bauru”, relembra. 

A fechadura da tampa do abastecimento é modelo chave allen (hexagonal). As lanternas traseiras estão desbotadas. Oliveira mostrou um curioso objeto de ferro com duas pontas em formato de pinça. É o gancho para a retirada das calotas.

O som da buzina é outra raridade. Ele comenta que, certa vez, uma pessoa ouviu o som de sua buzina na rua e pediu para que buzinasse. Enquanto ouvia o som, o homem comentou que o som lembrava o chamado do perueiro que buzinava na porta de sua casa anunciando que era hora de ir para a escola.

O burucutu do para-brisa é original e, ainda que desgastado, funciona normalmente. Burucutu é o dispositivo que esguicha água para limpeza do vidro. Por falar em vidro, a Kombi de Oliveira tem em todos os vidros que circundam o carro o emblema da Volkswagen.  

A dobradiça de uma das portas dupla permanece com sua correia de segurança original. “Pode colocar ela à prova. É só montar e seguir tranquilo”, finaliza.


Companheirona à prova do tempo

O comerciante bauruense Luiz Roberto Ribeiro, 61 anos, deve muito da sua vida profissional à utilitária robusta da Volks. Grande parte de sua vida profissional foi com as mãos no volante de uma Kombi dirigindo pelas ruas da cidade de São Paulo. Um período transportando gente na Kombi versão lotação. Outro trabalhando em uma transportadora. Outra época atuou fazendo entregas com a Kombi.

Atualmente, ele carrega em um modelo 1999 suas mercadorias comercializadas em banca instalada na quadra 3 da rua Azarias Leite, centro de Bauru. O modelo atual, adquirido há seis meses, é amarelo e foi adquirido de um particular que comprou da frota do Correios. 

“Não vão inventar outro modelo”, lamenta Ribeiro. Para ele, a Kombi é uma utilitária completa, com baixo custo de manutenção e boa relação de consumo de combustível. “Sabendo andar”, sugere. Ribeiro não concorda com o fim da fabricação da Kombi.