09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Gisele Fernanda Simão Aidar

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Quando criança, ela já pintava o sete e esboçava os seus primeiros traços de arquitetura. Foi na infância que Gisele Simão Aidar viu despertar o seu desejo pela profissão. Casada com Halim Aidar Júnior, com quem teve os filhos Halim Aidar Neto e Fernanda Simão Aidar, Gisele pincela, abaixo, as principais passagens de sua vida profissional e pessoal.

 

João Rosan

A arquiteta Gisele Simão Aidar defende a preservação dos recursos naturais

Responsável pelo departamento de projetos de arquitetura da H. Aidar Pavimentação e Obras Ltda., e presidente do Instituto dos Arquitetos de Bauru (IAB), ela aponta os desafios profissionais como algo que impulsiona sua vida e a faz crescer. Sempre ao lado do marido, ela confessa que o apoio e a cumplicidade do companheiro sempre foram meu maior estímulo.


E por falar em família, a entrevistada de hoje é filha de um dos casais mais tradicionais de Bauru: Rubens e Cida Simão. “Quando você cria filhos, não adianta apenas ensinar, você precisa dar bons exemplos. E eu tive esses bons exemplos”.


Atenta às novidades do cenário mundial da arquitetura, Gisele defende a construção sustentável e aposta na necessidade e sucesso deste segmento para os próximos projetos. “Há pouco tempo, as pessoas optavam ou não pela sustentabilidade, de agora em diante, essa prática passa a ser uma obrigação. Economizar e cuidar dos recursos naturais são necessidades”.



Jornal da Cidade - Você encontrou a arquitetura ou ela a encontrou?


Gisele Fernanda Simão Aidar - Eu sempre quis fazer arquitetura, mas não havia faculdade em Bauru e acabei fazendo desenho industrial, em 1979.  Em 1984, eu entrei na primeira turma de arquitetura da Unesp, na época ainda não era Universidade Estadual Paulista. Como já estava casada e com filhos, tranquei a faculdade porque não estava dando conta de tudo. Bom, o tempo passou e quando os meus filhos entraram na faculdade, eu voltei para a arquitetura (risos).


JC - Então sua experiência com a prática da arquitetura veio antes da faculdade, certo?


Gisele - Sim. Eu já tinha feito inúmeros cursos, inclusive um técnico de design de interiores no Centro Nobel de Artes. Foi um bom curso feito em São Paulo, reconhecido pelo MEC e tudo mais. E eu já trabalhava nessa área. Meu escritório foi crescendo, era fora da nossa empresa e eu já tinha arquitetos trabalhando comigo. Hoje não vejo a minha vida sem a arquitetura. Já fui diretora do Instituto dos Arquitetos do Brasil - Núcleo Bauru (IAB), e hoje sou a presidente.


Gisele - Com qual vertente da arquitetura você mais se identifica?


JC - A arquitetura é algo muito amplo. Eu gosto de interiores, da área de urbanismo, mas não posso dizer que uma delas é a minha preferida, porque eu gosto de tudo nessa profissão. E aqui não temos uma especificidade. A gente trabalha com todos os tipos de projetos, como diria um engenheiro amigo nosso, fazemos de igreja a motel (risos). Todo dia é um novo desafio.


JC - Desafios recentes...


Gisele - Cada projeto novo é um desafio. Recentemente ganhamos a licitação da reforma do aquário do Zoológico Municipal de Bauru. Estamos entregando o projeto e é algo muito diferente. Tivemos de pesquisar sobre o assunto, contratar especialistas... Trabalhamos inclusive com biólogos. E essa inovação é muito rica. Nunca fazemos nada sozinhos. Eu também gosto muito da área de urbanismo e estou trabalhando muito fazendo loteamentos. Eu acho muito importante todos esses recentes planos diretores da cidade. Nós temos de pensar no desenvolvimento de maneira sustentável.


JC - Por falar em sustentabilidade, você está se especializando em construções sustentáveis, certo?


Gisele - Sim, estou terminando um MBA em construções sustentáveis. Acredito que um bom profissional deve estar em constante pesquisa e atualização. Um bom projeto já é pensado pelo viés da sustentabilidade. Por exemplo, você economiza energia elétrica com a implantação do projeto no terreno pensando na luz solar. Sendo assim, a sustentabilidade deve estar presente desde o pensar sobre um trabalho. Outra coisa de que gosto é da reciclagem de móveis, tanto que já ministrei cursos e aulas de pinturas especiais em madeira para esse fim.


JC - A sustentabilidade ainda enfrenta muitas barreiras?


Gisele - Muita gente ainda não entende e não aceita a arquitetura sustentável. Já ouvi gente dizer que ser sustentável é fazer muros de garrafas plásticas. Ainda há preconceito e desdém com o assunto. Mas a gente propõe, já pensa o projeto de forma sustentável. Já é lei, em Bauru, a colocação de cisternas para o aproveitamento da chuva. Mas faltam regras e informações para isso. A verdade é que estamos em fase de transição. Há pouco tempo, as pessoas optavam ou não pela sustentabilidade, de agora em diante, essa prática passa a ser uma obrigação. Economizar e cuidar dos recursos naturais são necessidades.


JC - Alguns de seus projetos são integrados com o trabalho do seu marido, certo?


Gisele - Alguns, sim. Apesar de trabalharmos na mesma empresa, assim como o meu filho, muitas vezes passamos o dia todo sem nos vermos. Cada um tem a sua parte, é claro que precisamos discutir sobre alguns projetos... Minha família sempre me apoia a ir adiante com os meus desafios profissionais. A cumplicidade do meu marido sempre foi o meu maior estímulo.


JC - E quando começo a sua história com a arte?


Gisele - Eu faço cursos de pintura e desenho desde os 12 anos de idade, ou seja, sempre fui voltada para as artes plásticas. E, aos poucos, fui me engajando a grupos e participando de exposições... Até que, lá pela década de 1980, eu montei uma galeria de artes na cidade e trabalhei com ela por alguns anos. Trouxemos muita coisa para Bauru, saiu até uma matéria nossa na extinta “Veja Interior”. Aproveitamos a Lei Sarney e fizemos exposições com muita gente interessante, até que as coisas foram ficando difíceis e fechamos a galeria. Na época era muito difícil manter uma galeria em Bauru. Adoro pintar e desenhar!


JC - Você é filha de uma tradicional família da cidade. Fale um pouco sobre a sua infância.


Gisele - Ser de uma família tradicional me fez sofrer alguns preconceitos. As pessoas acham que você só vai assumir certas responsabilidades ou só fez tal coisa por ser desta ou daquela família. E você passa por isso até as pessoas reconhecem o seu trabalho. Mas eu me emociono quando falo da minha família. Quando você cria filhos, não adianta apenas ensinar, você precisa dar bons exemplos. E eu tive esses bons exemplos com meus pais. Somos em três irmãs e sempre fomos muito unidas, embora muito diferentes. Minha infância foi muito feliz.


JC - Uma viagem inesquecível.


Gisele - Graças a Deus eu pude conhecer muitos lugares. Gosto muito de viajar e acho que isso, muito além do lazer, é enriquecedor, principalmente para o meu trabalho. Não adianta só estudar, você também precisa conhecer a cultura de outros países e ver os projetos de outras épocas... Recentemente, um lugar que me marcou muito foi Budapest: incrível, mágica, em reconstrução...


JC - Novos projetos?


Gisele - Já ganhei alguns prêmios como o segundo lugar no Concurso Nacional de Projetos de Gesso, em 2008; o Prêmio Atenção Design de Interiores, em 2009; e a condecoração Amigo do Bombeiro, em 2011. Minha meta agora é levar adiante a sustentabilidade na arquitetura, de maneira efetiva. Temos um grande plano nessa área, mas ainda precisamos amadurecê-lo.