08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Pare


| Tempo de leitura: 4 min

Um poeta parnasiano brasileiro do início do século XX que teima, e lima, e sofre, e sua; um padre português da Companhia de Jesus, que recebeu a missão de catequizar milhares de indígenas em terras desconhecidas. Olavo Bilac e Padre Manuel da Nóbrega, vultos históricos que habitam livros pedagógicos e que dão nome a uma centena de ruas Brasil afora. Em Bauru, a logística urbana proporciona o encontro desses dois personagens no Jardim Bela Vista, próximo ao fórum da cidade. Cruzamento da rua Olavo Bilac com a rua Padre Nóbrega. Pedestres e condutores de automóveis, bicicletas e motos passam por essas ruas diariamente, sem se lembrar de que estes personagens já foram (um dia) indivíduos. Olavo Bilac tem um trânsito intenso e contava assim com a preferência do cruzamento até poucas semanas atrás. Padre Nóbrega tem bom movimento também, mas não é igual a Olavo Bilac. O fluxo intenso da rua do padre se dá porque é caminho para uma escola tradicional da cidade localizada na rua Santo Antônio, que recebe o nome de São Francisco de Assis.

Ocorre que, após intensos (será?) estudos realizados pelo órgão competente, considerou-se que Padre Nóbrega deveria contar com a preferência da rua. Olavo Bilac ficou possesso, pois não foi consultado sobre a alteração. Reuniu seus colegas parnasianos e cogitou emitir um manifesto contra a mudança da preferência da rua, mas foi alertado pelos demais que manifesto é coisa de modernista. "A voz das ruas dirá quem é mais importante!", afirmou o poeta, insatisfeito com a decisão dos demais colegas.

A mudança da preferência das ruas ocorreu na calada da noite. Na manhã seguinte, carros e pedestres e ciclistas e motociclistas foram tomados de surpresa, e não sabiam como proceder. Os Olavo Bilac ficaram desnorteados: alguns freavam bruscamente próximo ao cruzamento; outros percebiam em tempo, reduziam a velocidade; outros tantos nem perceberam que haviam mudado o "Pare" de rua: "Trocaram o ?Pare? daquela rua? Meu Deus, nem vi", perguntou, estupefato, um colega de trabalho. Olavo Bilac ganhou um novo "Pare", portanto. As reações eram das mais diversas, mas a opinião era unânime: quem fez esse estudo fez cagada. Colocar um "Pare" na Olavo Bilac? Não tem cabimento...

Por sua vez, os Padre Nóbrega também quedaram-se bastante ressabiados com a mudança: alguns chegavam próximos ao cruzamento de forma lenta e atravessavam sem acreditar no que estavam vendo; outros, movidos pelo hábito, paravam em frente a rua; alguns outros, como se não bastasse pararem em pleno cruzamento preferencial, começavam a fazer sinal para que os Olavo Bilac passassem. Em suma, ninguém entendeu aquela busca mudança preferencial.

Olavo Bilac sempre teve mais movimento que Padre Nóbrega, porquê mudar? Padre Nóbrega ficou felicíssimo, pois começou a alcançar com mais rapidez o Colégio São Francisco de Assis. Por acaso, é um complô de santos e padres? Estão querendo favorecê-los? Padre Nóbrega poderia até possuir um bom relacionamento com a corte real portuguesa, mas duvido muito que tenha tanta influência assim lá na Emdurb. De todo modo, restou-nos observar que a preferencial foi mudada, sim. O "Pare" estava agora fixado na Olavo Bilac.

Todas as manhãs, Padre Nóbrega e Olavo Bilac passavam pelo mesmo tormento: ver os seus transeuntes ainda confusos com aquela mudançazinha do símbolo de um lugar para o outro, símbolo este que porta o significado de: "Pare". Porém, antes de pensar no "Pare" e no significado e no significante e no símbolo e em toda essa semiótica, devemos notar o quão difícil é desenraizar o costume da preferencial. Há um costume, um hábito adquirido.

Demoramos dias, meses para conseguir processar mentalmente que aquele cruzamento não é mais assim. Os estudos são mais importantes que nós, meros indivíduos com costumes adquiridos. Os estudos são maiores que nós, e eles é quem devem dizer se o "Pare" é na Olavo Bilac ou na Padre Nóbrega. E se a gente se acostuma até com coisa ruim, imagina com uma mudança boba dessas? Pois é... mas não foi o caso de Olavo Bilac e Padre Nóbrega. Aquele "Pare" estava muito estranho, mesmo. Era consensual. Todos comentavam que havia alguma coisa errada naquela mudança. Poderia melhorar o fluxo das ruas, do trânsito? Talvez. No entanto, continuava estranha aquela alteração.

Três semanas após todo esse imbróglio envolvendo o cruzamento, nova surpresa: Olavo Bilac ganhou a queda de braço, e o "Pare" voltou para Padre Nóbrega. Nada mais justo, a lógica do tráfego maior se fez. Padre Nóbrega, resignado com a destroca, voltou a demorar um pouco mais para encontrar-se com Santo Antônio e São Francisco de Assis. Olavo Bilac, por sua vez, comemorou redigindo uma carta para a Emdurb solicitando tapar um buraco de uma de suas quadras, mas o documento estava eivado de palavras tão rebuscadas que ninguém entendeu bulhufas e a carta foi devolvida, juntamente com os buracos.

Brincadeiras à parte, fica o apelo feito por nós, motoristas de todos os meios de transporte possíveis desta cidade, para que os órgãos competentes e responsáveis pelos estudos de tráfego façam as mudanças com o maior zelo e responsabilidade possíveis, a fim de evitar transtornos (como este) ocorrido no cruzamento das ruas Olavo Bilac com Padre Nóbrega. O poeta, o padre e a população em geral agradecem a atenção dos senhores.

Bruno Emmanuel Sanches