08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

O dilema do celular


| Tempo de leitura: 4 min

Em pleno final de semana, tentei fazer algumas ligações e não consegui. Enviava mensagens de texto, mas sem sucesso. Tentei entrar na Internet, mas a rede estava lenta. Liguei na operadora e todas as soluções possíveis de configuração foram feitas, novamente sem sucesso. Fui até a loja, e as opções possíveis também não surtiram efeito. Depois das artimanhas, de inúmeras dúvidas e tentativas, a alternativa apresentada foi a troca do meu celular. Relutei em aceitar, já que meu celular era relativamente novo, com dois anos de uso. Alguns até se espantariam, porque dois anos é muito tempo quando se trata de novidades que surgem no mercado de celulares.

Fui observar a vitrine com os modelos. Encontrei celulares que valiam mais de dois, três salários mínimos. A vendedora me apresentou com brilho nos olhos, espumando a boca ao descrever todas as peripécias e opções que um celular novo me proporcionava. Fiquei realmente encantado com a tecnologia. O design do celular era de dar água na boca, era sofisticado, bonito, elegante. Os aplicativos eram de causar perplexidade e possibilitavam a mim inúmeras formas de ?gastar? meu tempo.

Agradeci a paciência da moça. Disse que iria pensar e saí. Deixei a loja com uma miríade de dúvidas. Será que perdi um bom negócio? O celular me oferecia tantas possibilidades; ou será que tomei a atitude certa? Tentei me situar. Caminhando pelos corredores do shopping (e observando as diversas promoções que deixavam os clientes "felizes") eu me lembrava de quando estudei as primeiras formas de comércio, baseadas em trocas, escambos, metais preciosos. Depois, vieram tantas teorias, técnicas, análises. Existem o câmbio, taxas, inflações, protecionismo, impostos, enfim, a ciência é ampla, e alguns ainda tratam de deixá-la dentro de uma redoma de ilegibilidade.

O mercado é dinâmico, cada país possui suas regras, mas parece que, diante de tantos problemas já existentes, alguns têm prazer em "criptografar" o conhecimento. Mas, voltando à troca que estava pairando em minhas dúvidas, eu não estava com nenhuma sacola a oferecer. Eu tinha um documento de plástico que me possibilitava comprar aquele produto. Ou poderia ir até o caixa, tão fácil naquele shopping, há apenas alguns metros de mim, e tirar de lá cédulas de dinheiro, e meu "novo sonho" estaria realizado. Eu não tinha esse sonho até ter entrado na loja, e não precisava daquele celular até aquele momento, mas a vendedora me mostrou tantas "soluções" que me deixou engodado; e o banner da loja me "retratava". Aquele ator com o celular na mão era da forma que eu queria ser representado. Aquele celular tinha sido feito realmente para mim. A roupa era parecida com a minha; o garoto-propaganda estava tão feliz e poderoso com o celular em mãos. Mas espere um pouco: eu ainda tinha um dilema. E se eu não tivesse entrado na loja? Eu não teria sofrido com esse dilema; ah, mas corria o risco de eu ligar a TV e ver a propaganda dele e ficaria tentado do mesmo jeito.

Eu chego ao estacionamento e caminho em direção ao meu carro me perguntando: será que tem alguma alternativa? E se eu não lesse propaganda impressa, não visse TV, não escutasse rádio. Será que precisaria desse celular? Recordei que meus amigos têm celulares saídos de filmes de ficção científica, e, que, se não tivesse um parecido com o deles, poderia ser taxado de ultrapassado, alguém sem condições. Não sabia se encarava ou não esse ?desafio?. Um desafio moderno. Desafio de se sentir feliz mesmo não tendo o celular que "poderia" me fazer mais feliz. Saí com o carro do shopping e dei de frente para um outdoor. Nele mostrava que meu carro tinha ficado obsoleto. O outro era melhor: e era melhor porque tinha uma roda diferente, um farol diferente, uma tela cheia de graça, que me possibilitava interagir com o carro como nunca imaginei.

Percebi que estava realmente "fora de forma". Tinha gente melhor que eu. Tudo evoluiu, e eu não tinha evoluído. Eu tinha ficado para trás; comecei a contabilizar. Precisava de 15 mil para me atualizar com o carro, mais de 2 mil para ter um celular da moda. Mas não me importa, afinal, o que importa é ser feliz. Como dizia Drummond, no poema Eu Etiqueta: Eu é que mimosamente pago / Para anunciar, para vender... Da vitrine me tiram, recolocam, Objeto pulsante mas objeto / Que se oferece como signo dos outros / Objetos estáticos, tarifados / Por me ostentar assim, tão orgulhoso / De ser não eu, mas artigo industrial, Peço que meu nome retifiquem / Já não me convém o título de homem / Meu nome novo é Coisa / Eu sou a Coisa, coisamente.


Gerson Christianini