08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Vida cigana


| Tempo de leitura: 3 min

O grande jardim, de tão imponente que é, recebeu o nome popular de Bosque. Evidentemente, tal nome tenha surgido por causa da grande quantidade de árvores nascidas ou plantadas próximas uma das outras. Durante a semana, é ponto de referência na agitada cidade e é local de encontro de novos e velhos amigos, de empregados em folga e desempregados sempre na folga; feiras de artesanatos e bandas de música.

Aos sábados o jardim do Bosque é um palco contínuo, sempre ao ar livre, para exposição de quadros e aquarelas dos artistas anônimos em busca da luz para suas telas e para os seus nomes; exposição de pequenos animais para doação; variedades para todos os gostos. Aquele sábado foi diferente! Ao passar em frente ao Bosque, teve a oportunidade de ver ciganos e ciganas perambulando. Mais estas do que aqueles, que normalmente ficam em suas barracas na periferia da cidade.

Estes são vendedores de tachos e panelas de desconhecida procedência. Em suas andanças, mascateando, são acompanhados por alguns animais moribundos. São pessoas integrantes de um povo por tradição nômade. Vivem em grupos disseminados em nossa sociedade, subordinados a um código de ética próprio e se dedicam à música folclórica, vivem do disfarçado artesanato e fazem, como principal meio de sobrevivência a leitura da sorte para os desiludidos da vida, procurando injetar em cada um novas esperanças, confiança em dias melhores e que, segundo elas, está muito próximo de acontecer, pois está escrito na palma da mão sortilégio benéfico no campo do amor, da saúde e do dinheiro.

Para os que acreditam e confiam, não deixa de ser um grande benefício a chegada desse povo à grande cidade. Predizendo o futuro, recarregam as baterias das esperanças quase perdidas. Ciganas não são tímidas... ao contrário, são insinuantes e espertas! Usam vestidos longos, espalhafatosos, cheios de enfeites, babados e lantejoulas brilhantes, e mostram, quando sorridentes, uma lasquinha de ouro nos dentes incisivos. Sabem intuitivamente que a beleza visual é um atrativo para alcançar os seus objetivos. Estendem suas mãos aos passantes dizendo, com essa simples linguagem da comunicação, serem de paz; procuram, através da conversa amigável, manhosa, labiosa captar a confiança e em troca receber alguns trocados por dizer a grande sorte que está a espera de cada um.

As ciganas sabem que a ilusão alimenta a alma de muita gente. No visual de cada uma, a idade está escondida, pois todas conservam de qualquer forma a altivez, a desenvoltura e a conversa fácil quando fazem uma abordagem. Uma vaga e ainda distante beleza as acompanha, como uma recordação teimosa do passado. Assim como as andorinhas, logo, logo irão deixar o Bosque. Com toda certeza, irão ao encontro dos maridos, dos filhos, dos fraternos e agregados para reinício de uma viagem que um dia teve começo e não sabem quando será o fim.

Para transporte, utilizam-se de veículos velhos como velhas e desgastadas são também as lonas das suas barracas, assim como também seus velhos e fatigados animais. Sendo nômades, vão continuar a vaguear sem qualquer preocupação com endereço ou com a residência fixa. Disseram viajar para Bauru e ficariam instalados no Jardim Guadalajara. Enquanto houver esperança nos corações, a Vida Cigana estará preservada e, com certeza, seus remanescentes, vez por outra, irão aparecer para enfeitar com seus modos e vestimentas o bonito jardim de qualquer cidade.

Roque Roberto Pires de Carvalho