Há muitos anos, encontro-me em São Paulo para fazer dois cursos. "Um certo Fernando Pessoa", com a doutora Beatriz Verrini. E "João Guimarães Rosa", com o doutor José Carlos Garbuglio. Já havia lido "Grande Sertão: Veredas".
Durante o curso, o professor falava da língua do grande escritor. E enfatizava: uma linguagem não aleatória. E exemplificava: "Riobaldo", rio ligado à vida que se escoa e "baldo", inútil. Assim, Riobaldo, personagem destituído de valor. "Diadorim", dádiva de Deus. "Hermógenes", o guardado do inferno. "Ricardão", egoísta, ambicioso, indiferente à honra, sedento de poder. E assim por diante.
Lembrei-me dessas aulas, depois de tantos anos, ao acompanhar o julgamento do mensalão. Lá estava, com direito a voto o juiz de nome Ricardo... Sua excelência descriminou todos os acusados opondo-se ao julgamento de Joaquim Barbosa da Silva, juiz que nos faz crer que nem tudo está perdido. Êmulo, por certo, de Rui Barbosa (5/11/1849-1/3/1923) faz-nos pensar na virtude, a não "termos vergonha de sermos honestos". Pena, pena mesmo, que o julgamento do grande juiz seja em vão. Pessoalmente, não posso acreditar na punição de nenhum dos acusados.
Os anos encarregaram-se de ensinar-me que tínhamos três poderes: o Executivo: presidente, governadores, prefeitos; Poder Legislativo: senadores, deputados, vereadores e Poder Judiciário: representantes da Justiça. E falavam de um quarto poder: a imprensa. Hoje, creio na imprensa. A imprensa livre, que registra, que mostra, que prova, que "não se esquece", que não tenta transformar em "mentira" o que todos sabem ser verdade!
No Brasil, bem que poderíamos ter um negro na Presidência da República, a exemplo dos Estados Unidos da América. Um negro de origem humilde, mas poliglota de alto saber que certamente faria com que os brasileiros não vissem "crescer a injustiça, a ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto". Não foi possível com Rui Barbosa em 1909 e 1919. Por que não doutor Joaquim Barbosa da Silva?! Não há, é verdade, "uma luz no final do túnel". Mas não custa nada acendê-la... Por que não acender?!
Álvaro Baptista Pontes