08 de julho de 2026
Ciências

Arte e dor: Vinícius pede passagem!

Alberto Consolaro
| Tempo de leitura: 4 min

Reprodução

O amor é o carinho

É o espinho que não se vê em cada flor

Aberta em pétalas de amor


Porque o samba é a tristeza que balança

E a tristeza tem sempre uma esperança

De um dia não ser mais triste não!

Há 100 anos, astros alinharam-se para concentrar energias do amor em 19 de outubro de 1913 e determinar o nascimento de Vinícius de Moraes. Ele adorava as palavras no diminutivo e por isso passou a ser conhecido como “o poetinha”. Há muito pouco tempo um orientado me disse: - já reparou como você usa palavras no diminutivo em suas aulas! Não pega mal? Confesso que fiquei meio ofendido e apenas, mais recentemente, descobri por que ainda faço isto: uma imitação inconsciente por nadar nas piscinas de palavras e poesias de Vinicius desde quando me conheço por gente!

O dia iria ser diferente no sábado, algo me dizia! No casamento que fui, um padre anglicano discursava aos noivos e convidados quando supreendentemente lançou palavras e pensamentos de Sartre sobre a arte de ser! Sartre proclama: passamos a existir não quando nascemos, apenas quando tomamos a consciência de porque existimos e vivemos! É o pai do existencialismo!

O dia dos 100 anos de Vinícius realmente não haveria de ser normal. No final, o padre disse: como última recomendação, vocês devem mudar o perfil de cada um no facebook, agora são casados! Os noivos decepcionaram o padre: - nós não temos perfil no facebook!  Senti o “plaft” na cara do padre! - Desculpem, mas é que todos os que casam estão ... Os noivos quase disseram: existe vida inteligente fora do facebook!

Acabei me divertindo, casamentos são engraçados. Os participantes ensaiam muito pouco os passos da cerimônia e os “foras” dos atores amadores são inevitáveis. Mas que coisa: nos 100 anos de Vinícius eu tinha que participar de um casamento? Sim, ele casou-se muitas vezes, teve filhos com várias mulheres e sempre se afogava nos mares do amor de corpo e alma. E quase sempre se dava mal!

Em toda sua obra musical, poética e em prosa Vinícius revela-se vários homens em um único corpo: poeta, escritor, diplomata e muito mais, sempre libertário! Questionado dizia: se fizesse sempre a mesma coisa e pensasse como todos eu me chamaria Vinicius de Moral e não de Moraes! Inteligente e perspicaz. Às mais resistentes, soltava pérolas incluídas em suas letras: mulher não bote banca por cima de mim, infelizmente eu não sou jornal!


Arte e dor

Na literatura e ciência muito se discute se haveria arte sem dor. Pessoas felizes escrevem grandes obras? Obras primas foram de tristes, mal amados e traídos ou construídas por satisfeitos, sorridentes, reconhecidos e felizes? Arte e dor parecem inseparáveis e condenados a viver juntos. Disseram para Vitor e Leo: não gravem esta música, o público não gosta de letras felizes! Inexplicavelmente estourou como sucesso popular: Vida Boa. Em Uberlândia, terra dos autores, virou nome de hangar no aeroporto!

Os grandes poetas e escritores viveram atribuladamente: sina ou requisito? Aos 66 anos em 1980, ele morreu. Alguns dizem: sua dedicação ao amor e à arte levaram-no a uma vida curta! Daria para ser o poeta inspirado sem o sofrimento da dor que o amor intenso provoca? Sem o cigarro e a bebida, faria as poesias e cantigas inigualáveis! Oh arte e dor! Se o primeiro amor lhe fosse comportado, sereno e único, teríamos Vinícius de Moraes ou Vinicius de Moral!?

Não critique os ousados, impetuosos e coerentes! Admirem os libertários, críticos e coerentes! Os de bom senso, os que procuram o meio termo e aqueles que a toda pergunta começa a resposta com “depende” ou “veja bem”, desconfie! Eles não constroem obras primas, nem poesias e canções maravilhosas. Sequer pintam e nem ao menos cozinham bem!

Sem a dor e amores intensos e proibidos, teria Vinicius escrito o Soneto do Amor Total que entre coisas diz: Amo-te como amigo e amante / Numa sempre diversa realidade /Amo-te afim, de um calmo amor prestante / E te amo além, presente na saudade / Amo-te, enfim, com grande liberdade /  Dentro da eternidade e a cada instante.

Na plenitude do amor, prevendo seu fim, teria a arte sem dor produzido o Soneto da Fidelidade: ... ao meu amor serei atento ... quero vivê-lo em cada vão momento ... E assim, quando mais tarde me procure ... Quem sabe a morte, angústia de quem vive / Quem sabe a solidão, fim de quem ama / Eu possa ... dizer do amor ... Que não seja imortal ... Mas ... infinito enquanto dure.

Arte e dor: sensibilidade e clamor. Subir e descer: inspirar e expirar. Viver e morrer, oh vida: a ciência procura explicá-la! Mas são 100 anos de Vinícius, a poesia pede passagem e a ciência diz: eis o amor sem métodos e critérios, mas cheio de doces mistérios!


Alberto Consolaro é? professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC. Email: consolaro@uol.com.br