11 de julho de 2026
Geral

Syca, o ?Homem-Notícia', será sepultado hoje, às 11h

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 6 min

Arquivo/Quioshi Goto

Syca, que marcou época no rádio por seu estilo inconfundível, morreu ontem

Será enterrado hoje, às 11h, no Cemitério Jardim do Ypê, o jornalista e empresário Sylvio Carlos Simonetti, o Syca, sócio-proprietário da 94 FM. Ele morreu nesta quarta-feira (23), aos 74 anos, às 12h30, no Hospital da Unimed, onde estava internado há 15 dias.

Simonetti lutava contra Mal de Alzheimer há mais de seis anos. Ele havia passado por uma cirurgia, há uma semana,  da qual, no entanto, não se recuperou.

Casado, deixa a esposa, Bravanil Nascimento Simonetti, as três filhas (Andrea, Fabiana e Claudia) e sete netos. Deixa também a mãe, Maria Odília, de 95 anos. E ainda os irmãos radialistas e sócios Paulo Sérgio Simonetti e João Simonetti Neto, o Netão. O corpo de Syca está sendo velado no Centro Velatório Terra Branca.

Jeito inconfundível

Dono de uma voz inconfundível Syca deixa ainda dois outros legados: o seu jeito diferenciado de transmitir as notícias de rádio, além de ter sido um grande incentivador esportivo, especialmente do basquete feminino do qual era aficionado Com seu estilo inconfundível, ele marcou época e, cada vez que se ouvia o marcante “e atençãaoooo”, todo mundo parava porque ouviria algo relevante. Noticiava com o enfoque que o ouvinte merecia. E não poderia ser diferente: Sylvio Carlos Simonetti era neto de João Simonetti, o pioneiro do rádio e da televisão em Bauru, filho de Leônidas Simonetti e tinha suas raízes profissionais fincadas no rádio, onde começou no final dos anos 50, na PRG-8 Bauru Rádio Clube.

Ainda exerceu a profissão nos tempos áureos da Jovem Auri-Verde, nas décadas de 70 e 80, posteriormente migrando para a FM. Sempre com o mesmo estilo.

Pioneiro

Desde o início se identificou com o jornalismo e o esporte. No final dos anos 50, início dos 60, havia apenas os jornais falados noturnos (de meia ou uma hora de duração), como o Grande Jornal Falado G-8, comandado por Luciano Dias Pires e Nélson Reginato.  Já antevendo a necessidade de mais notícias e para aproveitar a agilidade do rádio, Sylvio Carlos foi o pioneiro em sistematizar um trabalho de transmissão de notícias no formato de boletins diários ao longo da programação. De hora em hora, ele apresentava notícias locais, nacionais e internacionais, o que é usual até hoje. 

Amigo e professor

Um sem número de radialistas trabalharam sob sua liderança. Todos exaltam o profissional responsável e ético que foi. Gente como Jair Aceituno, João Jabbour, Luiz Malavolta, Pedro Norberto, Mário Moraes, Maria Dalva Hatore, Erlinton Goulart, Maria José Menezes, Ubiratan Alves da Silva, Carlos Alberto Soares (Carlucci), Chico Cardoso, João Bidu, Arnaldo Duran e Gérson de Souza, entre outros.

Uma infinidade de bons profissionais teve nele um professor dedicado, gentil e ético. Mais do que um chefe, um professor, um amigo. “Para mim ele não era apenas bom profissional, era amigo de todo mundo, era mais do que um chefe”, enfatizou Gérson de Souza, falando de cátedra, porque trabalhou com ele não apenas em rádio, mas também na assessoria de imprensa do governo do prefeito Tuga Angerami, que Sylvio Carlos comandou.

 

Aficionado do basquete feminino

Amante dos esportes, Sylvio Carlos Simonetti também se notabilizou por ser o primeiro no rádio a implantar o sistema de plantão esportivo. Enquanto os locutores cobriam os jogos do Noroeste, ele ficava no plantão informando os resultados dos demais jogos. Como fazia questão de marcar bem as sílabas antes de anunciar cada uma das notícias, criou um outro bordão – “essssssssssss...porrrrrrrr...tivas”.

Foi um dos maiores incentivadores do basquete feminino de Bauru, inclusive nos anos 70, quando o Bauru Tênis Clube teve um time de destaque nacional. Graças ao apoio da rádio conseguiu, numa partida final na Hebraica, em São Paulo, levar uma torcida com 15 ônibus lotados, para uma final entre BTC e o Divino Salvador de Jundiaí. 

“O basquete feminino era sua paixão desde os tempos do Ernesto Monte x Guedes de Azevedo”, ressaltou Antonio Carlos Barbosa, ex-técnico da seleção brasileira de basquete e do BTC, em seu Facebook. Ao saber da morte do amigo, o treinador iniciou uma série de homenagens pela rede social.

 

Homenagens

Erlinton Goulart, em seu site futebolbauru.com.br, sobre  o que era o estilo Syca de noticiar: “Na Rádio Auri-Verde, a verdadeira Jovem Auri-Verde, ícone do moderno rádio de Bauru, nas décadas 1970/80, no último bloco de notícias do ‘Vanguardão’, original, se fazia anunciar, sob o tema musical ‘Un Homme et une Femme’, de Francis Lai, o ‘Homem-Notícia’.  Do fundo do rádio, rompia a voz única, indefectível: ‘E atenção, eis a nota final: “O papa João Paulo I acaba de falecer no Vaticano. João Paulo I, de 65 anos, que nasceu Albino Luciani, na Itália, ostentou por exatos 33 dias a coroa papal...”. Era quinta-feira, 28 de setembro de 1978, com a notícia transtornando o bispado de Bauru.

Gerson de Souza, repórter: E o tempo... o tempo segue bom, com nebulosidade variável. No elevado João Simonetti... bandeira azul nas piscinas...”. ”Esse bordão era tão importante para mim, essa frase é parte da história de Bauru, tanto que no documentário Bauruzão, eu e o cinegrafista Adauto Nascimento fizemos questão de deixar gravado isso”. O documentário está registrado na TV Câmara.

João Carlos de Almeida, o João Bidu: “Conheci o Syca jogando na várzea pelo Marabá e Internacional (ele foi goleiro). Nunca sonhei que um dia seria seu companheiro de trabalho. E foram nada menos que 30 anos de convivência diária, gostosa, proveitosa, alegre, pois ele, além de profissional competente e apaixonado pelo que fazia, era um grande cara: amigo, generoso, sempre incentivando os mais jovens. O redator, plantão esportivo, o Homem-Notícia, Syca trabalhava de domingo a domingo, chegando cedo à Auri-Verde e saindo no começo da noite. Tinha um pique invejável. E uma particularidade: embora datilografasse (batia à máquina, como a gente dizia naquele tempo) com extrema rapidez, só usava os dois dedos indicadores. Um fenômeno! Grande Syca, obrigado pelos 30 anos de amizade e camaradagem. Descanse em paz, meu velho!”.

Tobias Ferreira Filho, o Tuba: “Aprendi a admirar o Syca logo que cheguei na rádio (início dos anos 70). Ele era uma simpatia e, acima de tudo, formador de bons profissionais. A Maria Dalva Hatore era telefonista, trabalhava com o Flávio Pedroso e ele descobriu o talento dela. Lembro dele ensinando, incentivando. Fazia assim com todos os profissionais, descobriu inúmeros talentos, ele enxergava o potencial. Além disso era um grande amigo, simpático. Recordo-me até do casamento dele”.

Suzete Gobbi, ex-jogadora de basquete do BTC: “Para mim fica o amigo, o profissional amável que me acolheu desde a minha chegada de Penápolis. A força do basquete só cresceu com a divulgação que ele dava. A perda para nós já foi lá atrás quando ele parou as transmissões. Agora só saudades”.

Luciano Dias Pires, jornalista, trabalhou com ele nos anos 50: “Quando ele começou o rádio era bem diferente de hoje. Mas ele conseguiu se destacar de forma especial, aprendendo e, ao mesmo tempo, sem imitar o avô, o pai, o tio que trabalhavam também em rádio. Ele criou algo de seu, muito próprio, particular. apesar de ser seguidor da linha radiofônica da família. Uma perda irreparável”.

Walace Garroux Sampaio, presidente do Sindicato do Comércio, acompanhou desde a década de 70 a trajetória de Syca: “Foi um profissional de grande importância. É o homem da informação que ajudou a formar a opinião pública. Já nos faz muita falta”.