10 de julho de 2026
Articulistas

Alameda dos sonhos despedaçados

Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges
| Tempo de leitura: 3 min

Feliz o tempo em que as crianças não queriam crescer. Se forçar um pouco a mente, certamente você se lembrará de alguns flashs de sua infância. Coisas que o tempo e a impiedosa agitação da cidade não conseguiram apagar. A primeira vez que conseguiu amarrar, sozinho, o cadarço do seu tênis. Aquele machucado que resultou nessa cicatriz que só você enxerga. O dia em que, na ponta dos pés, esticando-se ao máximo, conseguiu apanhar aquela deliciosa romã no pé. Aquele choro quase saindo por causa de uma bronca, mas que conseguiu bravamente segurar. O gosto maravilhoso do requeijão (é, requeijão!). Coisas triviais que, inconscientemente, formaram o nosso caráter, os nossos gostos.

A subjetividade da memória das pessoas que têm mais de 30 anos é fascinante e infinita. Um turbilhão de sentimentos inexatos que definem parte de nosso ser. E como é bom lembrar disso. Faz parte da evolução humana. Aprender. Sentir a beleza e a pureza da vida nos detalhes mais insignificantes. Lembrar-se-á, também, caro(a) leitor(a) de que, por muitas vezes, quisestes parar de crescer. Não se imaginava adulto. Ou pior. Quando adulto, quis voltar a ser criança. O sonho que embalava o bebê anulava a efemeridade da vida e o transformava em Peter Pan. As crianças já não dormem.

A população infanto-juvenil, hoje, passa por um período em que a infância não é uma fase da vida, aquele período especial de que todos nos recordamos. A infância, hoje, é apenas a parte inicial de um ciclo. Algo sem importância, de pouco aprendizado e de futilidades. Não há mais histórias para dormir, devaneios pra imaginar, futuro para buscar. As crianças já não crescem. Os criminosos estão acabando com as nossas crianças. E com a infância delas. É assustador o número de adolescentes envolvidos em crimes. Por não poderem ser presos tornam-se peças valiosas nas mãos dos bandidos. E cada vez mais cedo as crianças ficam cientes desse "poder" que lhes é erroneamente impetrado e tornam-se indivíduos ruins, de má índole... e cedo demais! As crianças já não estudam.

Formas equivocadas de ensino ? principalmente no Estado de São Paulo - acabam por desestimular o aprendizado. A tal da "progressão continuada" funciona apenas no papel, pois na prática o que vemos é uma ?aprovação automática?, sendo que o aluno só reprova se não obtiver o mínimo de presença. Isso sem falar dos que são promovidos mesmo assim. E os efeitos disso são catastróficos: alunos sem interesse em aprender e demasiadamente preguiçosos, tendo sérios problemas em sua formação intelectual e cultural, fato em que, somente darão a devida importância, quiçá na faculdade, quando uma base escolar sólida fizer-lhes falta. As crianças já não respeitam.

Fala-se muito, atualmente, na ausência de respeito entre as pessoas. Essa característica tão triste é, infelizmente, cultivada na tenra idade. É cada vez maior o número de pais que são submissos aos filhos, que fazem o que querem e do jeito que querem. Além da irrefutável inversão de conceitos, podemos observar infindáveis efeitos colaterais dessa prática, o maior deles, talvez, seja na escola, onde os professores além de ensinar têm que educar muitos de seus pupilos. Mas na maioria das vezes isso não é possível. As crianças já não sonham.

As crianças do século 21 são tão diferentes das crianças do século 20... não que tenham que ser iguais, mas tem mais características negativas. Hoje a ingenuidade perde-se tão cedo. As brincadeiras de rua são trocadas pelo vídeo game ou pelo computador. A imaginação é substituída pela informação compacta e mastigada. As crianças, hoje, querem viver como adultos. As crianças não querem mais ser crianças. Querem crescer. E fazem isso cada vez mais depressa. O que nos resta fazer? Ter saudade de ver um guri todo emporcalhado brincando de esconde-esconde na rua não vai mudar nada. Temos que fazer algo. E o mundo, ora, o mundo não pode parar, pois temos que salvar as crianças enquanto ainda há tempo.

O autor, Otavio Augusto Amaral de Calmon Borges, é professor e servidor público municipal