Os contribuintes brasileiros destinaram R$ 806,44 bilhões aos cofres do governo em nove meses deste ano. Este valor é 0,89% maior em termos reais, ou seja, acima da inflação, se comparado ao mesmo período do ano passado. Não é coisa pouca. O Brasil pratica a terceira maior carga tributária do mundo. Esta carga tributária oscila entre 35% e 38% do Produto Interno Bruto e isso quer dizer que a cada R$ 100,00 produzidos no país quase R$ 40,00 são canalizados aos governos em todas as suas esferas. Por este volume arrecadado seria plausível imaginar que a política fiscal brasileira seria capaz de equilibrar o mercado de consumo brasileiro. Com recursos bem aplicados, ampliaríamos os gastos em investimentos, estimulando o aumento da oferta de produtos, atendendo a demanda que é crescente, sem desequilíbrios, permitindo o que tenhamos o que denominamos de crescimento sustentado.
Infelizmente, estamos distantes anos luz desta prática. Temos um setor público gastador, notadamente em custeio, sobrando muito pouco para investimentos. Até mesmo o atual governo se vale de "engenharia contábil" para fechar suas contas, com práticas condenáveis de apropriação de recursos de rubricas não adequadas a este fim, frutos de gastos sem fim.
Enquanto tivermos esta prática o monitoramento da economia se dará segurando a demanda. É isso mesmo. Como não há ampliação da oferta de produtos e serviços na magnitude que o mercado necessita, há fortes desequilíbrios, que levam a aumento de preços, gerando inflação e o caminho adotado, como prática recorrente, é segurar o ímpeto do consumidor, ou seja, a demanda, com crédito mais caro, juros maiores e todos os outros instrumentos previstos na política monetária, engessando a economia.
Além destes aspectos, o gasto em custeio é sem qualidade. Não é por acaso que os movimentos sociais, via protestos, vêm aumentando. Saúde agonizando, educação com indicadores com baixa qualidade e um cem números de outros setores sem um mínimo de qualidade aceitável e com desvios de recursos públicos.
Em resumo: o país arrecada muito, gasta muito e gasta errado. Esta lógica tem que chegar ao fim. O pior de tudo é ainda ouvir de parte da população que é preciso se sujeitar a baixa qualidade do serviço público por que é "de graça". Até mesmo alguns governantes alardeiam em suas realizações que oferecem alguns serviços "de graça" a população. Como de graça? E este volume astronômico de dinheiro?
Volto ao título deste artigo: o que você faria com R$ 806.400.000.000,00? Fiz questão de colocar a dimensão deste número para deixar claro que é muito expressivo. Sei que o trabalhador brasileiro, gente que faz mais com menos, teria sabedoria suficiente paga gastar muito melhor este volume de dinheiro do que muitos de nossos governantes. Fica o alerta: alguma coisa na gestão da coisa pública precisa mudar e urgente. Ninguém suporta mais esta carga tributária e o desperdício do dinheiro público.
O autor, Reinaldo Cafeo, é economista, diretor regional do Corecon e articulista do JC