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Arquivo/Neide Carlos |
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Como tantos outros casos de abusos, menina teria conseguido romper o silêncio após cinco anos |
“Já o ajudamos muito. Dávamos até cestas básicas para ele. Como ele teve coragem de fazer isso?”. Esta é a pergunta que, desde a semana passada, tira o sono de um homem, de 38 anos. Segundo sua filha, hoje com 17 anos, um missionário e grande amigo da família teria abusado dela. O caso segue em investigação na Polícia Civil.
O crime teria ocorrido há cerca de cinco anos, porém, só foi descoberto pela família da adolescente na segunda-feira da semana passada. “Estávamos reunidos em família e ela disse que tinha algo para nos contar. Ela chorou muito”, conta o pai.
Todos os nomes dos envolvidos e detalhes que levem à identificação (como endereços) foram preservados pela reportagem. Pelo fato de a denúncia ainda estar em investigação e o suspeito, hoje com 37 anos, responder em liberdade, a identidade dele também foi mantida em sigilo.
A história tem peculiaridades, mas, em síntese, os pontos são comuns a tantos outros casos de violência sexual: a proximidade entre vítima e suspeito; a confiança da família; pais que trabalham bastante e o silêncio mantido por anos.
“Ele foi um homem que chegou a Bauru naquela época. Éramos membros de uma igreja e ele chegou como uma espécie de um missionário. Sempre se passou por um homem muito bom e conquistou a confiança de todos”, conta o pai da menina, que, hoje, é pastor.
A confiança era tanta que o missionário tinha até a “chave da igreja”. Na época, a família morava bem perto do templo e isso acabou estreitando os laços entre o recém-chegado e a família.
“Eu trabalhava até tarde da noite e nem ficava em casa. Nunca suspeitamos de nada. Nada mesmo. Ele parecia ser uma pessoa boa”, lamenta o pai.
O remorso ganha ainda mais força quando o pastor relembra o tanto que a família ajudou, sem nunca suspeitar de nada, o acusado. “Nós fazíamos o que podíamos para ele. Já comprei medicamento que ele precisava. Até cesta básica levávamos para ele. Como ele teve coragem de fazer isso?”, questiona.
O “isso” incomoda o pai a ponto de ele não querer repetir o que a filha relatou. A garota conta que o missionário teria apalpado sua genitália. “Um exame comprovou que ela ainda é virgem”, ressalva o pastor.
Perdão?
Qual o limite dos ensinamentos cristãos? Bastante temente a Deus, o homem conta que ficou transtornado ao saber da notícia e foi até a casa do acusado. “Eu queria olhar nos olhos dele. Queria ver a reação dele. Dependendo do que ocorresse, não sei o que eu faria”, desabafou.
Por sorte, o homem não estava em casa. Ao invés de outra tragédia em potencial, o pai resolveu ir até a Polícia Civil, onde o caso foi registrado.
Além da filha que fez a denúncia, o casal tem ainda outras duas meninas mais novas. “Uma delas contou que, um dia, ele deu um beijo nela. Mas disse que pareceu ser um acidente. Nada. Nós nunca suspeitamos de nada”, lamenta o homem.
Denuncie
Quem for vítima de abuso ou conhecer alguém que passa ou passou por esta situação deve acionar o Disque Denúncia Nacional pelo telefone 100. Outra alternativa é ligar para o Disque Denúncia da Polícia Civil, por meio do 181. O sigilo da denúncia é garantido em qualquer um dos casos.
Investigações
A Polícia Civil investiga o caso, porém, tem um grande inimigo: o tempo. Como se passaram cinco anos do suposto estupro, há poucas provas que podem ser colhidas agora. Assim, as apurações serão baseadas nas oitivas.
“O que nós iremos conseguir ficará por conta das provas testemunhais mesmo. A investigação nesses casos se concentra em oitivas. A garota foi ouvida e o suspeito também será chamado. Iremos ouvir outras testemunhas que possam ter presenciado o fato e até tentaremos localizar outras vítimas”, explica a delegada Priscila Bianchini, titular da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) da Central de Polícia Judiciária (CPJ).
Ela, porém, faz a ressalva que o caso deve ficar de alerta. “Os detalhes dessa denúncia devem servir para alertar os pais. São pontos bastante comuns de casos de violência sexual”, completa.