Aos dois anos ele descobriu que era capaz de ler. Aos oito já lia em inglês. Na mesma idade começou a ter consciência de que sua inteligência para diversas coisas “era bem acima da média de adultos que, ao seu ver, eram pessoas bem inteligentes. Ele é Eduardo Glaeser, um jovem de 28 anos, portador da Síndrome de Asperger – enquadrada como autismo – e que espanta professores e todos à sua volta com a superinteligência.
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João Rosan |
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Eduardo Glaser: talento para pintura |
Duda, como é chamado em família e pelos amigos, monta maquetes à mão livre, em questão de segundos. De suas mãos hábeis e ágeis saem verdadeiras cidades em miniatura, como se tivesse em mãos uma ferramenta de Autocad, programa de computador usado por profissionais de engenharia e arquitetura capaz de criar imagens em três dimensões.
Ele faz o desenho a lápis, dobra rapidamente o papel e as casinhas térreas ou edifícios de vários andares vão surgindo. Facilmente ele então distribui as ruas e bairros inteiros com essas dobraduras. Uma reprodução perfeita em miniatura. Numa perspectiva perfeita. Essa habilidade ele também desenvolveu desde muito jovem. Aos 13 anos espantou um engenheiro e a própria família quando mostrou que dominava o programa Autocad (e aprendeu em inglês porque não existia a versão em português, à época).
Cores fortes
Mas se engana quem pensa que estamos diante de um futuro arquiteto, um especialista em maquetes ou vocacionado para cálculos – embora Duda também seja fera nisso, esse tipo de trabalho seria muito monótono para ele. É a pintura que mais chama sua atenção. Duda Glaeser tem alma de artista. Se sente bem quando pode expressar nas telas suas paisagens urbanas, “de forma diferenciada, com um tanto de caos”. Como ele próprio define seu estilo.
Todos os trabalhos, em óleo sobre tela, têm cores fortes, vibrantes e chamam a atenção. “Não sei explicar por que uso cores fortes, mas elas me atraem mais. Nunca pensei em pintar animais ou pessoas. Também não sei explicar o porquê, só sei que não me atrai”. Vez ou outra uma pirâmide, um sol, um planeta emergem no meio do caos, ou seja, do conglomerado de casas e telhados.
A mãe, Silvana Glaeser, incentivadora e conhecedora das habilidades do filho, já desistiu de pedir a ele que pintasse de outra forma. Ele até fez algumas frutas, natureza morta e arriscou um nu, numa concessão à mãe. Mas desde que encontrou seu estilo, não mais. E Silvana respeita hoje essa escolha. “Ficaram bonitos, mas não era ele, agora você olha o que ele faz e já diz: esse é um ‘Duda Glaeser’ né?”, rende-se a mãe, uma gaúcha que há sete anos, com toda a família, fixou residência em Bauru.
O estilo Duda Glaeser
E o que é estilo artístico de Duda Glaeser? Olhar para suas obras é mergulhar num mundo de cores. O emaranhado de edifícios, a paisagem que reflete vão expressando muito da vida moderna, do caos das habitações, como se fosse uma demonstração do centro caótico e congestionado de grandes cidades, grandes conglomerados, como se imaginássemos pessoas povoando cada um daqueles ambientes, cada qual com sua história.
Tanto que se lhe perguntam por que não fazer da sua habilidade em cálculos e projetos sua ferramenta profissional, ele é direto: quer viver da sua arte. Já fez uma exposição e quer fazer muitas mais. Está se preparando para isso, quer mostrar seu trabalho, frequenta um estúdio de pintura toda semana, o ateliê de pintura Carmela Nardi e, com dicas da professora, aprimora a técnica.
Tanto a professora Sumiê Komono quanto a sua colega de escola de pintura, Fujika Kassai Fernandes Silva, são entusiastas do trabalho dele. Acham que estão diante de um grande artista. Mas Duda ainda não foi “descoberto” por nenhum grande expert. O que não o desanima. Quer mostrar sua obra a críticos e expor seus trabalhos em grandes galerias.
“Se caso eu levar um não (de um expositor ou marchand), vou continuar a tentar. Escritores excelentes têm livros recusados por editoras”, sentencia. E quem há de contestar esse argumento?
Busca interior
Consciente de sua inteligência e também de limitações por causa da doença, Duda Glaeser procura caminhos para se desenvolver mais interiormente. É entusiasta de obras que podem ser chamadas de autoajuda, livros de psicologia e de descoberta interior. Aliás, ele memoriza o que lê facilmente. É capaz de ler uma obra e depois falar com exatidão em que página está determinado trecho.
A mãe explica que a Síndrome de Asperger, uma síndrome do espectro autista, diferencia-se do autismo clássico “por não comportar nenhum atraso ou retardo global. Sua dificuldade é a de interação social. Ele sempre vai precisar de alguém para tomar conta de sua vida pessoal”, diz ela. Duda sabe disso e valoriza o apoio da família. Mas busca também apoio em obras para superar o que chama de “aflição e melancolia interior”.
Hoje é aficionado da coletânea “Um Curso em Milagres”, escrito por psicólogos na década de 60/70, mas de profundo nível espiritual, com cunho cristão porque baseia-se na canalização de ensinamentos de Jesus.
“Numa das minhas melancolias (quase entrando em depressão) pensei que tinha que haver uma forma de eu sair daquilo, não tinha ânimo para nada, somente pensamentos de ataque e medo e isso já estava começando a me fazer mal”.
Assim, ele próprio despindo-se de preconceitos, “porque parecia um absurdo contra a minha inteligência”, se encontrou nessas obras e em teorias como as do ho’oponopono (que mostra a força do perdão, da autoindulgência).
Resultado: hoje Duda se declara feliz. “Posso dizer que sou uma pessoa feliz e realizada, graças a meus pais que me deram a oportunidade de fazer o que gosto. Assim como a maioria das pessoas tenho meus medos, a maioria já superados. Hoje a ansiedade pelo novo é o que me angustia um pouco”. Mas isso, com certeza, sua inteligência também o fará superar.