09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Luiz Antônio Bertozo Sabbag

Wagner Teodoro
| Tempo de leitura: 9 min

Ele nasceu em Cabrália Paulista, mas cresceu entre leitos e corredores do hospital de Duartina, observando o pai trabalhar. A impressão causada pela atividade diária do pai teve influência profunda em Luiz Antônio Bertozo Sabbag e a opção pela medicina foi natural. Da convivência com pacientes como o filho do doutor Semi Sabbag para assumir o comando do Departamento de Urgência e Emergência da Secretaria Municipal de Saúde de Bauru transcorreram-se décadas de acúmulo de experiência e capacitação. “Sou rato de hospital”, define-se com a autoridade de 30 anos de medicina e de quem passou incontáveis horas desde a infância no ambiente hospitalar.

 

Douglas Reis

Sabbag define-se como "rato de hospital"

Anestesiologista e intensivista, Sabbag revela preocupação constante de aprimoramento com vários cursos de especialização e pós-graduação. Trabalhou em Duartina, logo após se formar aproximadamente 15 anos e, depois, se mudou definitivamente para Bauru em 2000. Assumiu o departamento de urgência e emergência desde o início da gestão de Rodrigo Agostinho à frente da Prefeitura, em 2008. Cinco anos e um infarto autodiagnosticado depois, orgulha-se da evolução no atendimento à população, principalmente com a implantação das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), que descentralizaram o fluxo de pacientes no Pronto Socorro central.


O Jornal da Cidade conversou com Sabbag sobre sua carreira, a responsabilidade de comandar um departamento complexo e fundamental e suas convicções sobre medicina e opiniões sobre a saúde pública no Brasil.



Jornal da Cidade – A medicina é uma vocação desde a infância e uma herança paterna?


Luiz Antônio Bertozo Sabbag - Eu acompanhava meu pai no hospital. Meu pai é um médico que se formou em 1948 e, então, é o verdadeiro médico de família. É um médico que atendia na casa dele, as pessoas tocavam a campainha e ele atendia. Ele fazia partos em casa. Tudo isso me influenciou muito. Duartina tinha quatro médicos, desses médicos mesmo de família: eram o doutor Semi Sabbag, que era o meu pai, o doutor Orlando, primo dele, o doutor Gil Borges e o doutor Marcílio. Eles faziam de tudo. Tinha um hospital médio na cidade, eles internavam lá e cuidavam. Eu cresci dentro do hospital, eu via, acompanhava. Então, influenciou muito e me transformou no médico que eu sou. A visão que tinha do meu era daquele médico que sabia tudo. Só que hoje não dá mais para ser aquele médico antigo que fazia tudo.


JC – Sendo assim, qual especialização o senhor escolheu?


Sabbag – Logo que me formei, fiz anestesiologia. Fui trabalhar em Duartina e tinha dois primos, um que era cirurgião e outro, urologista. Começamos a trabalhar e fazíamos bastante cirurgias. Eu tenho duas especializações e a segunda é medicina intensiva. Sou intensivista, trabalho na UTI da Unimed e já trabalhei também na UTI do Hospital de Base e do Hospital Estadual. As duas especialidades têm muito a ver com clínica geral. Para ser anestesista, precisa saber cuidar do paciente em um todo. E o intensivista mais ainda. Lógico que temos outras especialidades que auxiliam.  


JC - Quais os desafios de estar à frente do atendimento de urgência e emergência em Bauru?


Sabbag – As pessoas falam para mim: “você foi pegar esta direção do Pronto Socorro, isso é a maior fria”. Mas não é, eu acredito que a gente pode melhorar e já melhorou muito. Eu acredito no SUS. Melhoramos com os atendimentos das UPAs e houve um retorno muito grande nisso. Quando estou investido no cargo de diretor como agora, tenho uma visão bem clínica da coisa e também tenho a parte administrativa, tentando, às vezes, mudar paradigmas das pessoas em relação ao SUS. Principalmente os funcionários públicos imaginam que estão fazendo um favor às pessoas, acham que a pessoa não está pagando nada e tem que aceitar qualquer coisa. E não é bem assim. As pessoas têm direitos adquiridos de serem bem atendidas em todos os serviços que a Prefeitura, governo do Estado e Federal prestam. A pessoa paga imposto. E é isso que é difícil mudar nos serviços que se adaptaram. O Pronto Socorro, por exemplo, se adaptou. Ele é anterior à criação do SUS, que surgiu em 1988 com a Constituição. O SUS foi sendo implantando gradativamente e este é o problema. As pessoas confundem muita coisa. A pessoa tem direito de ser atendida da mesma maneira que eu tenho o dever de fazer um serviço bem feito, mas existem regras. A filosofia da UPA mudou isso. Os funcionários que estão nas UPAs são mais novos e já entraram nesta filosofia.


JC – O pronto atendimento central é um local que ainda recebe muitas críticas...


Sabbag - Tenho muito elogio das UPAs. Já no Pronto Socorro eu tenho uma dificuldade imensa de mudar este paradigma das pessoas. Quem está lá acha muitas vezes que está fazendo um favor e o outro acha que tem todos os direitos e nenhum dever. As coisas se complicam e este é o grande entrave ali. Mas a gente está conseguindo mudar algumas coisas. Começamos por uma área que era mais crítica, que é a área de urgência e emergência. Quando eu assumi o Departamento de Urgência, a gente atendia 800 consultas por dia e mais 400 no infantil. Hoje, atendemos no Pronto Socorro, em média, 250 consultas por dia. E no infantil, 200. Nas UPAs são mais 1200 consultas divididas. Ou seja, você tirou 800 de um lugar só, que era uma superlotação, e pôs 200 aqui, 200 lá. Descentralizou tudo. Nas UPAs as pessoa são bem atendidas. No Pronto Socorro também são bem atendidas, mas não como eu gostaria. Porque, ali, é muito mais complexo. As urgências todas chegam lá, o resgate chega lá, o Samu leva paciente lá... O paciente que chega na urgência é atendido mais rapidamente mesmo. Mas quem fica na porta também teve o tempo de espera bem encurtado. Mas tem dias críticos, o que não é só em Bauru.


JC – Comandar o serviço público de urgência e emergência da cidade deve ser bem estressante. Como você lida com este desgaste?


Sabbag – Já foi mais estressante. Nós estamos agora em uma fase de calmaria. No começo foi muito difícil. Reestruturamos o departamento inteiro. Na época (há cinco anos) só tínhamos o Pronto Socorro central e o Pronto Socorro infantil. Hoje, temos cinco unidades atendendo ao mesmo tempo. Melhorou muito. Mas até chegar a este estágio, tive um infarto, tive que pôr um stent.


JC – E vale a pena?


Sabbag – Vale a pena porque é meu sonho. Tenho um sonho de ver as pessoas bem atendidas. Faço isso não é pelo dinheiro. Teve aquela polêmica quando saiu a Lei da Transparência e a Prefeitura começou a publicar o salário de todos os funcionários e aconteceu aquela celeuma de um médico meu que recebe R$ 40 mil, quase R$ 30 mil de plantonista. Eu não posso dar plantão por ser diretor do departamento. Não posso e não quero. Não tenho tempo. O meu tempo disponível eu acabo fazendo na iniciativa privada para aferir um pouco mais de rendimento. Tenho filho na faculdade de medicina e uma série de outras coisas. Você precisa ganhar dinheiro e trabalho nos finais de semana na UTI do Hospital da Unimed. No domingo, estou de plantão lá. Folgo um sábado por mês.


JC – Qual sua opinião sobre o Programa Mais Médicos?


Sabbag – As pessoas criticam muito, mas na verdade eu, que cresci junto com médico, acho que tem valor. Lógico que não é só colocar o médico, tem que dar algumas condições mínimas de atendimento. Mas os médicos que citei, os doutores Semi, Orlando, Gil e Marcílio, você poderia mandá-los para qualquer lugar do Brasil. Quando o médico é bem formado, faz qualquer coisa. Hoje, as pessoas têm muito medo. Não sei se a formação dos médicos não é muito boa ou se é por conta de uma série de tecnologias, as pessoas não fazem nada antes de pedir 200 exames. Os médicos que citei não faziam exame, o exame era clínico. Existe uma cultura de se comprovar tudo com exame. Aí, as pessoas criticam você colocar um médico lá no Norte, que não tem um raio-X, não tem um laboratório, não tem nada. Mas se este médico for bem formado, é muito melhor ele atender do que a pessoa não ter atendimento nenhum. Não acho que seja viável trazer o Programa Mais Médicos para Bauru, porque aqui você tem 200 médicos na rede. Mas tem uma cidadezinha, que se chama Paulistânia, e outra, que é Fernão Dias, que não têm médico. Não é melhor a pessoa ser atendida por um médico do que pelo motorista da ambulância? Porque ela é atendida pelo motorista da ambulância, que pega e leva para a cidade mais próxima onde tem um médico. Se tiver um médico lá, ele pode resolver 70% dos problemas. Os outros 30% que não dá, põe na ambulância e leva. Os médicos hoje, e vejo pelo meu filho que está fazendo faculdade, não querem se aventurar em uma cidade no Norte mesmo que pague bem. Eles vão ter medo se não tiver um raio-X, uma tomografia, um ultrassom. Como é que eles vão diagnosticar?


JC – Qual sua avaliação da saúde pública no Brasil?


Sabbag – Estamos muito atrasados em saúde pública. Falar de uma cidade como Bauru, que tem uma prefeitura que investe R$ 160 milhões por ano, o Estado investe mais um tanto e Governo Federal outro tanto, é obrigação servir bem. Mas se pegar uma cidade pequenininha, que não tem condição de investir e, ao invés de investir em saúde, compra ambulância para levar o paciente para fora, isso não é fazer saúde pública. Saúde pública tem que ser preventiva para que fique mais barato o custo. E ninguém investe nisso. A saúde pública no Brasil é muito centralizada no atendimento. As pessoas querem fazer hospital, isso, aquilo, porque aparece muito mais. Não se investe na base da saúde pública no Brasil total, principalmente no Norte e Nordeste. No geral, o Brasil arrecada muito e gasta mal.


JC – Fora do trabalho, nos poucos momentos de lazer, o que costuma e gosta de fazer?


Sabbag – Não tenho uma atividade específica. Procuro relaxar, gosto de sair para jantar, tomar um vinho, conversar com amigos. É difícil passar um sábado que eu esteja de folga em casa. Vejo pouco televisão, mais jornalismo. Às vezes, se tem uma festa, vou. Se tem um baile, vou. Mesmo que tenha que acordar 6h. Tenho que fazer isso, senão não me divirto.