11 de julho de 2026
Regional

Cicloturista viaja pela Rota Boiadeira

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 10 min

Viajar de bicicleta é uma paixão que Luis André Chella conhece desde a infância. Pequenos ou grandes trechos o atraem. Não é à toa que ele já viajou por quatro países da América Latina e 17 Estados brasileiros. Uma parte desses destinos foi cumprida pelo cicloturista na companhia de outro aventureiro. “Eu elaborei um projeto batizado de Pedal na Estrada em 1995, quando comecei a viajar.”


Recentemente, Chella pedalou 250 quilômetros em cinco dias, de Bauru a Araçatuba, e descobriu maravilhas em um trecho que ele batizou de Rota Boiadeira. “Eu viajei por uma estrada que acompanha a ferrovia Noroeste. Essa ferrovia fazia entroncamento com a Sorocabana e chegava até a Capital, transportando gente, gado e café no começo do século.”


Foram cinco dias de viagem sob chuva e muita aventura. “Fui registrando tudo através de uma máquina fotográfica. Choveu a semana toda. No retorno, desmontei a bicicleta e voltei de ônibus. Para embarcar a bike eu tenho que ter a nota.”


A estrada batizada de Rota Boiadeira é paralela à ferrovia. “Tem um trecho asfaltado e outro não. Aproximadamente 70% dela é de terra e 30% asfaltada. Estou fazendo a viagem em etapas. A primeira foi essa, de Bauru a Araçatuba. Nesse trecho passei por vários municípios e distritos onde estão instaladas as estações.”


A viagem começou em Bauru e passou por Curuçá, Val de Palmas, Tibiriçá, Nogueira, Avaí, Araribá, Mirante, Presidente Alves, Pirajuí, Toledo Piza, Ministro Calmon, Cincinato, Guarantã, Renato Wernek, Cafelândia, Paredão, Monlevade, Lins, Guaiçara, Promissão, Capituva, Avanhandava, Urutágua, Penápolis, Bonito, Engenheiro Napoleão, Glicério, Coroados, Birigui, Guatambu, Araçatuba.”



Animais na rota


A Rota Boiadeira, segundo Chella, foi desenvolvida através da ferrovia Noroeste no começo do século. “Pelas informações que eu obtive, o trem transportava gado também. Esses animais saíam das propriedades rurais e eram levados para a estação por essa estrada paralela. O gado embarcava em uma das estações e seguia para a Capital, porque a ferrovia Noroeste fazia entroncamento com a Sorocabana. Esses animais iam para São Paulo e Grande São Paulo.”


Ao redor dessas estações, vários municípios se desenvolveram. “Alguns municípios prosperaram às margens da ferrovia. A estação era um ponto inicial daquela comunidade. Essa estrada deixou de ser usada para transporte de gado, mas foi o início para que Araçatuba ficasse conhecida como distribuidora de gado para todo o Estado de São Paulo.”


Araçatuba, de acordo com o cicloturista, fica numa região central do Estado o que beneficiou a logística. “Araçatuba está geograficamente no centro do Estado. Próximo do Mato Grosso, perto do Triângulo Mineiro, mas próximo de São Paulo. Ali era comercializado o gado, na praça do boi em Araçatuba. O gado que vinha do Mato Grosso era distribuído para o centro oeste de todo o Estado de São Paulo. Por isso, essa estrada foi batizada de Rota Boiadeira.”

 

5 dias de aventura sobre duas rodas

A primeira etapa do roteiro traçado pelo cicloturista foi de Bauru a Araçatuba: 250km de paisagens e muitas histórias

A rota boiadeira percorrida de bicicleta por Luis André Chella começou em Bauru, no dia 29 setembro, e terminou no dia 4 de outubro. O cicloturista retornou à sua cidade natal, Bauru, com a bike desmontada dentro de um coletivo.


Pedalando a uma velocidade média de 50 quilômetros/hora, Chella cumpriu a primeira fase da viagem, de Bauru a Pirajuí, curtindo trechos cinematográficos e percebeu que a ferrovia era o motor propulsor do desenvolvimento da região.  


“Viajo com uma máquina fotográfica e vou registrando a trilha, a ferrovia, as paisagens, tudo o que encontro de interessante pelo caminho. Fotos minhas são poucas, sou fotografado apenas quando encontro um agricultor ou alguém disposto a bater um click.”


No trajeto o cicloturista encontrou, dentre outras coisas interessantes, a fazenda Val de Palmas. “Com a bicicleta, a velocidade é lenta. Sob chuva é ainda mais lenta. Quando o tempo está bom e a estrada é boa, consigo chegar a uma velocidade de até 100 km/hora. Percebi, nesse trecho, que ele tem características próprias do Interior Paulista.”


Ele lembra que há muita criação de gado. “Até Guarantã não vi cana. Tem muito bosque de seringal, muita laranja, limão, mexerica. Tem muito eucalipto e pinho também. Há lugares lindos ao lado do pinheiral. A ferrovia de um lado e a estrada do outro. O resto é só natureza e eu com minha bicicleta. Os passarinhos cantando e eu pedalando. Fico emocionado... É realizador, maravilhoso.”


Alguns municípios, de acordo com Chella, tiveram o capricho de restaurar as estações ferroviárias antigas. “A de Guaiçara, por exemplo, parece uma casa de boneca. Tudo limpinho, arrumadinho. Tem uma pessoa lá limpando, passando um pano no chão, conservando. A estação de Coroados vive uma situação oposta. Virou um abrigo para desocupados e usuários de drogas. Tem muito lixo, é uma judiação”, relata.



História preservada


As vendinhas que conservam as características de um passado rico e próspero são um caso à parte. “No trajeto até Araçatuba descobri armazéns que ainda estão ‘em pé’. Os proprietários, senhores de bastante idade, são verdadeiras minas de história viva. Eles nasceram ali, viveram o auge do ouro negro (café) e da ferrovia. Também assistiram a ferrovia ‘morrer’.”


Ele comenta que, nos 250 quilômetros pedalados nesse trecho, só viu um trem passar. “Essas pessoas têm histórias interessantes. Do tempo das boiadas. Eles comentam da época em que passavam as comitivas, que tinha um lugar para os peões ficarem, celeiros que eles faziam fogueira para enfrentar o frio... coisa de boiadeiro. Tinha lugar para ficar o gado. Nesse tempo a ferrovia tinha grande movimento, o trem transportava gente, gado e café.”


Em Pirajuí, ele frisa que ainda há uma selaria. “É um comércio em extinção. O proprietário é um senhorzinho que me mostrou suas habilidades, suas ferramentas e comentou tanta história do tempo em que ele era um profissional muito requisitado. Se eu pudesse, ficava o dia todo com ele. Ele fez um cinto de couro na hora para mim.”


Os contrastes da cidade grande com as ‘relíquias’ do passado também foram admirados pelo cicloturista. “Araçatuba, embora seja uma cidade grande, conserva lugares que volta no tempo. Tem a venda do ‘seo’ Tião que fica na avenida da Saudade, hoje na área central. A venda comercializa laços, pinga artesanal, carne seca, camisinha para lampião e até querosene.”


Tião é uma “figura”. “Ele só usa camisa branca e calça preta. Tive muita sorte em conhecê-lo”, diz Chella.

 

Planejamento é exigência básica

Viajar de bicicleta por cinco dias em estradas de pouco ou nenhum movimento exige planejamento. Tudo começa com o estudo do local através de mapas e informações colhidas com pessoas que vivem na localidade ou que por ali trafegam.  


“Tenho que ter vários mapas dos locais por onde vou passar. Existe uma logística para cada viagem. Obtenho informações com mais de uma pessoa, porque alguns orientam errado. Para os ciclistas, três ou quatro quilômetros contam muito, porque se erro três quilômetros terei que andar seis, porque tem a volta,” explica Luis André Chella.  


Ele comenta que, se numa bifurcação seguir o lado errado, isso pode lhe custar passar a noite no mato. “Tenho que estar prevenido. Se acontecer isso, vou ter que dormir no chão porque não carrego colchão, só quando a viagem é mais longa, como quando eu viajei para o Uruguai e tive que levar o equipamento de subsistência. Nesse caso levei  barraca, saco de dormir, isolante térmico. De Bauru a Araçatuba não usei. Não foi necessário porque as distâncias  são muito próximas.”


Segundo ele, é preciso pensar em tudo, onde comer, onde dormir. “Antes de sair de Bauru, eu já sabia que em Presidente Alves não tem hotel. Então me planejo para parar de pedalar em uma cidade antes ou uma depois. Nesse caso, me preparei para ficar em Avaí ou ir até Pirajuí. No dia, fui até Pirajuí. Tenho que prestar muita atenção nisso.”


Chella conta que começa a pedalar às 7h30 e prossegue até 16h. “Se às 15h eu estiver em Pirajuí, por exemplo, e a próxima parada é Guarantã, me informo como é o trecho. De acordo com a informação, eu vejo se dá para ir ou se paro ali. Tenho que chegar ao local onde vou dormir até 17h, antes de escurecer.”


A maleta com os primeiros socorros médicos, além de ferramentas e peças de reposição, aquelas que dão defeito mais frequentemente, e lanterna não podem faltar. “Tem ainda os equipamentos de segurança que uso: luvas, capacete e óculos. Sob chuva, tudo ficou mais difícil. Pelos meus cálculos, a viagem seria feita em quatro dias, mas por conta da chuva, demorei cinco.”


Pedalar sob chuva é sinônimo de mais esforço físico. “A bicicleta não corresponde 100%. A bike e os equipamentos ficam mais pesados. A sapata de freios gasta a engrenagem e os cabos vão travando. No fim do dia é certeza de manutenção. Tem que desmontar os cabos e deixar engraxados para o outro dia.”

 

Café da manhã reforçado

Um café da manhã reforçado e o almoço ao meio do dia. De quebra, muita fruta e barrinhas de cereais. Tudo isso para aguentar a força que o pedal exige.


“Eu tenho que calcular a água que eu vou levar. Consumo cerca de quatro litros por dia. Faço uma planilha para andar 20 quilômetros. No meu café da manhã tem pão com ovo, com queijo, bolacha, bolo e muita fruta, especialmente banana. Na mochila levo banana, maçã e barrinhas de cereais. A alimentação é muito importante. Durante todo o trajeto vou me alimentando, não posso ficar com o estômago vazio.”

 

Próximas pedaladas estão em estudo

O cicloturista planeja mais duas etapas de viagem para cumprir o trajeto total definido por ele, que vai até Corumbá

Cumprida a primeira etapa da viagem, de Bauru para Araçatuba (SP), o cicloturista Luis André Chella pretende completar a rota em uma segunda etapa, que já é alvo de estudos. “Eu percebi que é viável fazer outra viagem. Quero partir de Araçatuba e chegar a Três Lagoas (MS). Vou de ônibus até Araçatuba. Lá monto a bicicleta e vou pedalando. Estou fazendo a pesquisa. Outro estudo que estou fazendo é para chegar a Campo Grande (MS). Ainda tenho etapas para cumprir tudo. A última fase será de Campo Grande para Corumbá (MS). Eu preciso ver se é viável. Não sei se será possível, porque no Mato Grosso tem o Pantanal.”


Chella admite que está ansioso para realizar a segunda etapa. “Vai de Araçatuba até Três Lagoas. Deve ter outras características (o trecho). As paisagens vão mudando, cada lugar é diferente, embora todos sejam lindos. De bike dá para perceber tudo por conta da velocidade. É um veículo lento. A gente vai vendo e sentindo tudo.”


Para ele, a estrada é “outro mundo”. “Tem condições diferentes, é outro ritmo. Quem a gente encontra hoje, muito possivelmente nunca mais vai ver. O cara te ajuda, te doa um prato de comida, põe à mesa para jantar junto contigo e nunca mais você vai vê-lo. É de arrepiar. Isso existe só na estrada. É uma coisa que me fascina.”



Hospitalidade


As pessoas que vivem nas estradas, segundo ele, são muito hospitaleiras. “Tem sempre uma pessoa pronta a te ajudar em qualquer situação. Já precisei muito. Os caminhoneiros são gente boa, povo da estrada é mais fraterno. Eles passam por dificuldades e são socorridos. Quando a gente passa pelos mesmos obstáculos, eles acodem.”


Para pedalar durante a viagem, Chella treina musculação. “Faço musculação para manter o corpo firme e pedalo todos os dias. Tenho 44 anos e vou mais longe do que quando tinha 20 anos. Não fico um único dia sem exercício, porque tem que ser dinâmico. Também cumpro regras, além de me exercitar. Evito comer alimentos que sejam muito gordurosos, embutidos. Bebida alcoólica, raramente. O esporte tem essa vantagem.”


O cicloturista, durante as viagens, carrega um aparelho celular para falar com a família. “Eu não tenho mãe. O meu pai tem 80 anos. Minha filha tem 12 anos e mora em Araçatuba com a mãe. Me comunico com eles todos os dias quando estou cumprindo uma rota.”


Ele conta que se preocupa com a família, e o inverso também é verdadeiro. “Eu ligo para eles quando paro para dormir. Como meu pai é idoso, eu omito algumas dificuldades que passo para não deixá-lo preocupado demais. Mesmo que esteja chovendo e a situação complicada, falo que está tudo certo.”


Para sua subsistência, Chella trabalha como pizzaiolo, churrasqueiro. “Tenho um pequeno negócio. Sou contratado para cozinhar na casa dos clientes. É daí que tiro meu sustento. A verba dos patrocinadores é reservada para as viagens. Na rota boiadeira, gastei uma média de R$ 100,00 por dia com comida e hotel.”