Imagine se você tivesse investido em uma ideia chamada Facebook quando ela era sucesso apenas nas universidades americanas. O brasileiro Eduardo Saverin fez isso - e o resultado que conseguiu já entrou para a história. Agora, uma multidão de pequenos investidores brasileiros tem oportunidade semelhante, com o lançamento da primeira plataforma virtual que une micro e pequenas empresas aos que têm desejo de apostar em novos negócios.
No equity crowdfunding, empresários conseguem se financiar sem recorrer a bancos ou à bolsa. E os investidores têm a chance de, com sorte, repetir a história de Eduardo Saverin.
Essa nova maneira de investir, que deve movimentar US$ 166 milhões no mundo neste ano, segundo estimativas do especialista britânico David Drake, foi trazida ao Brasil pelo empresário João Falcão. O site foi batizado de EuSócio e é uma parceria com o Crowdcube, a primeira e maior plataforma desse setor no mundo, com 33 mil investidores cadastrados.
Quem apostar nessas micro e pequenas empresas poderá ganhar dinheiro com a distribuição de lucros, com a venda da empresa após seu crescimento ou com a posterior abertura de capital na bolsa. O investimento mínimo é de R$ 100, mas depende de cada empresa e do nível de conhecimento dos investidores, explica Falcão. Se a captação for bem sucedida, a empresa deve pagar 5% do valor arrecadado para a plataforma.
Esse modelo, porém, não é para amadores, já que se a empresa falir, o acionista não será reembolsado, alerta Falcão. “O investimento requer uma visão consciente e disposição financeira de longo prazo, pois dificilmente há lucro líquido nos primeiros três a cinco anos”, afirma.
O acionista também deve prestar atenção na dificuldade de vender as ações caso deseje ou necessite, problema que está sendo resolvido na Inglaterra. O fundador do Crowdcube, Darren Westlake, diz que, em até quatro meses, deverá lançar um mercado secundário para essas vendas. O EuSócio não adotará essa novidade inicialmente.
O site de Falcão não será o único a oferecer esse tipo de investimento no País. Com o nome provisório de BNI Equity,Vitor Sadalla, o fundador do Banco de Negócios Inclusivos da FGV, pretende colocar no ar outra plataforma no fim de agosto. A proposta é formar uma “rede social do investimento”, ao reunir investidores-anjos e startups (pequena empresa em período inicial) no mesmo ambiente.
O projeto já chamou a atenção do SmartPanda, que oferece soluções para lojistas de shoppings. Para impulsionar o negócio, o diretor-presidente da SmartPanda, Davi Barboza, quer vender 30% da empresa por R$ 250 mil, com a chance de recomprar em dois anos 50% das ações por um valor pré-fixado.
Vantagem brasileira
No Reino Unido, existem várias empresas que se beneficiaram desse modelo. Apenas no Crowdcube, em quase três anos, 54 delas conseguiram um total de £9,3 milhões. O Rushmore Group, dono de restaurantes, bares e casas noturnas em Londres, por exemplo, captou £1,5 milhão e abriu três empreendimentos. O próprio Crowdcube também levantou £1,5 milhão para financiar sua expansão internacional.
Uma das dificuldades do equity crowdfunding em vários países é de se adequar à legislação. Mas, no Brasil, as regras são mais flexíveis, diz o jurista Flavio Picchi. Nos Estados Unidos, por exemplo, as questões regulatórias são muito detalhadas e não foram totalmente solucionadas, o que deve adiar o início das operações para o próximo ano.
O Brasil, já em 2010, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) criou uma norma que permite às micro e pequenas empresas ofertarem ações sem necessidade de autorização. Elas precisam apenas comunicar a oferta e seguir algumas regras, como captar no máximo R$ 2,4 milhões por ano. O EuSócio, por exemplo, não tinha uma autorização formal para operar, mas a CVM não apresentou nenhuma objeção.
‘Crowd economy’ ainda está fora das escolas
As universidades brasileiras têm investido pouco na formação de profissionais que estejam preparados para a crowd economy. Ao contrário de países desenvolvidos, como os Estados Unidos, que apostam no ensino dessas novas ferramentas, os brasileiros saem da escola despreparados.
“O atraso se deve à necessidade de desenvolver e validar metodologias confiáveis para uso da inteligência coletiva”, afirma o professor do curso de Gestão Empresarial, da Faculdade de Tecnologia (Fatec), Claudio Leandro. Para ele, as plataformas de crowd são valiosas porque podem facilitar a busca por respostas aos mais variados tipos de problemas enfrentados por profissionais.
O publicitário Eric Hayashi conta que terminou a faculdade sem ter aprendido conceitos relacionados ao tema. “Em 2010, pouco se falava de mídias sociais, crowd economy ou empreendedorismo.” Neste ano, fez um curso de crowdsourcing e tornou-se um dos fundadores da Synapseshub, plataforma que oferece ferramentas digitais gratuitas para auxiliar empreendedores a desenvolver projetos e startups (pequena empresa em período inicial).
Há cursos oferecidos por escolas especializadas.
Uma delas é a Perestroika, com unidades em São Paulo, Rio e Porto Alegre, que dá aulas de empreendedorismo criativo, com duração de três meses Segundo Felipe Anghinoni, um dos criadores da escola, o curso é oferecido duas vezes por ano.