11 de julho de 2026
Bairros

?Roupa suja? sobrecarrega polícia nos fins de semana

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 5 min

Quando se pensa em final de semana, a associação mais comum é folga e lazer. Para a polícia, porém, não é bem assim. Sexta, sábado e domingo são dias de trabalho mais do que dobrado. É que, por conta do consumo de álcool e do maior convívio, o período potencializa as brigas. Especialistas apontam que, durante a semana, falta tempo para resolver os problemas.

Para se ter uma ideia, somente neste final de semana, foram registrados em Bauru, de acordo com levantamento extraoficial do Jornal da Cidade, 32 boletins de ocorrência (BOs) de lesões corporais, injúrias, ameaças e outros crimes envolvendo familiares.

A maior parte dos casos é de brigas entre casais. Porém, os conflitos se estendem para todos os laços familiares. No Ferradura Mirim, era por volta das 20h30 de domingo, quando um jovem de 18 anos começou a brigar com seu pai, um soldador de 47 anos.

Em determinando momento, as agressões verbais evoluíram para violência física e o garoto atirou um facão contra o pai. O golpe, porém, acertou a mãe do jovem, uma doméstica de 41 anos.

A mulher precisou ser levada ao Pronto-Socorro Central (PSC) com ferimentos leves na cabeça. O caso foi registrado como lesão corporal.

“Os finais de semana realmente apresentam um volume muito maior desse tipo de ocorrência”, confirma o delegado seccional de Bauru, Ricardo Martines. “E a explicação para isso é curta e grossa: aumenta o consumo de bebidas alcóolicas”.

A diferença entre os registros de crimes assim entre os finais de semana e o restante dos dias é tão grande que Martines realizou uma análise em conjunto com a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). “Verificamos nesse curto estudo que a violência doméstica aumenta muito nos finais de semana”, completa.

O comandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), tenente-coronel Walter de Oliveira, ainda afirma que o número de conflitos nos finais de semana é muito maior do que o registrado oficialmente.

De acordo com ele, dependendo das circunstâncias, muitos dos casos são resolvidos no local, sem que seja preciso o encaminhamento para a Polícia Civil.

“O convívio aumenta muito aos finais de semana. As pessoas se aproximam mais e, consequentemente, brigam mais”, pontua o tenente-coronel.


Falta tempo para solucionar problemas durante a semana

Uma espécie de funil, onde os problemas mal resolvidos acabam se encontrando e ganhando proporções maiores. É assim que o final de semana se apresenta para inúmeras famílias. É que, durante a semana, falta tempo para resolver esses problemas.

“Durante a semana, as pessoas ficam muito fora de casa. Elas estão correndo o tempo todo e não têm tempo para dialogar. No fim de semana, é quando elas estão mais próximas”, explica a psicoterapeuta Marilene Krom, que é doutora em psicologia clínica e autora de vários livros sobre família e casamento.

O problema, de acordo com a especialista, é que essa proximidade não se reflete em solução de conflitos.

“Nesse contexto, há ainda o agravante do álcool. Como há maior consumo, as conversas no fim de semana são menos produtivas. Um acaba acusando o outro e os conflitos evoluem”, destaca.

Para a psicoterapeuta, todo relacionamento – seja de marido e mulher ou pai e filho – é fundamentado em cuidado e atenção. Tendo em vista isso, para evitar que os finais de semana se transformem em “dias de guerra”, ela aconselha uma programação.

“É preciso programar o fim de semana. É preciso que a família pense em um tempo para ela. Inclusive, um tempo para cuidar um do outro. Um tempo para estimular o cuidado e atenção”, finaliza.

 

Briga de irmãos teve roda jogada em carro e barra de ferro na cabeça

Uma briga de irmãos com idades de 17 e 8 anos tomou uma proporção quase inacreditável no Júlio Nóbrega, em Bauru. O mais velho atirou uma roda contra o carro do pai e recebeu um golpe de barra de ferro na cabeça.

Segundo o BO, o caso ocorreu logo pela manhã de ontem. Após a confusão entre os irmãos, o pai, de 51 anos, foi intervir e acabou brigando com o filho mais velho.

Nesse momento, o garoto teria atirado uma roda de carro contra o parabrisa do veículo da família e ainda danificado o retrovisor. Nisso, o pai teria acertado o menino na cabeça com uma barra de ferro.

O garoto foi socorrido à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do Geisel, onde foi feito um curativo. Foi elaborado um BO por lesão corporal e ato infracional por dano.


Atrapalha muito

O delegado Ricardo Martines afirma que sexta e sábado são os dias com maiores picos dessas ocorrências. Aos domingos, elas continuam, porém em volumes menores.

Na maior parte delas, porém, as denúncias acabam não tendo seguimento. O delegado explica que um grande número desses casos não tem a representação da vítima.

“A briga ocorre no calor do fim de semana. Durante a semana, os ânimos vão se acalmando e a vítima resolve não fazer a representação”, explica.

Considerado por Martines um problema social além de policial, o grande volume de casos no fim de semana ainda cria um empecilho: desvia um tempo bastante precioso da polícia.

O comandante Walter de Oliveira afirma que esses registros “atrapalham e muito” a PM.

“Perde-se muito tempo atendendo essas ocorrências. Mesmo que não haja o registro posterior, a viatura perde muito tempo nesses atendimentos. Quando há o registro, então, as viaturas ficam horas algumas vezes no distrito policial”.

De acordo com ele, enquanto os policiais poderiam estar patrulhando – e evitando – crimes mais graves, acabam dispensando o tempo nessas ocorrências.

“É algo que nos preocupa muito. Demonstra toda a desagregação familiar. E isso é o que gera todo um contexto de violência”, finaliza o comandante do 4º BPM-I.


Entre beijos, socos e cotoveladas

O consumo de algumas cervejas foi o prelúdio da briga por volta das 19h na noite de domingo. A atendente de 30 anos conta que tentou conversar com o marido, de 34, porém, recebeu socos e cotoveladas.

“Estamos juntos há seis anos. No começo, houve uma briga, mas nada como foi neste domingo”, relata a mulher, que pediu para ter a identidade preservada.

Ela e o marido estavam dentro do carro em frente à casa em que vivem, no Santa Edwirges, quando a discussão ganhou maiores proporções. “Ele tinha dito que ia sair. Eu disse que não precisava. Foi quando tentei pegar a chave do carro. Ele puxou o meu cabelo e me deu cotoveladas e socos”, narra.

A vítima contou que o marido tinha ingerido algumas cervejas antes do ocorrido. Após a agressão, ela foi até a Central de Polícia Judiciária (CPJ) e registrou boletim de ocorrência por lesão corporal. “Eu vou conversar com ele e decidir o que vamos fazer”, revela.