08 de julho de 2026
Geral

Nosso lixo: um desafio...

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

Parte de Bauru esteve de folga ontem. Em comemoração ao Dia do Servidor Público, os órgãos da administração direta e indireta das esferas municipal, estadual e federal não tiveram expediente. E isso afetou alguns serviços essenciais, como a coleta de lixo domiciliar. Em alguns bairros, os resíduos ficarão acumulados por quatro dias.

Quioshi Goto

No jardim Carolina, um boneco 'fiscaliza' a ação dos sujismundos

O problema é devido à escala da coleta de lixo domiciliar. Gerenciado pela Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano de Bauru (Emdurb), o serviço é realizado em dias alternados de acordo com a região da cidade. Em alguns pontos, a coleta ocorre na terça, quinta e sábado. Em outros, na segunda, quarta e sexta.

São nesses últimos bairros que está a dificuldade. Como não houve coleta ontem, o lixo, que está sendo acumulado desde sábado, só será recolhido amanhã.

Um desses bairros é o Alto Paraíso. Na quadra 5 da rua José Chaves de França, o acúmulo já começou. É lá que mora Dirce dos Santos, 63 anos. “Eu não sabia. Estava agora mesmo olhando esse monte de lixo e pensando no que eu vou fazer com ele”.

Na casa, moram seis pessoas. O suficiente para já ter descartado quase 20 sacolas pequenas de lixo. O volume é tanto que a lixeira não foi suficiente. Até a árvore em frente à residência foi utilizada para pendurar as sacolinhas.

“Tem lixo de comida, lixo de banheiro, lixo de tudo. Não dá para deixar aqui, né? O problema é que aqui na rua tem muitos cachorros. A minha lixeira é aberta embaixo. Eles vêm, puxam o lixo e esparramam tudo pelo chão”, reclama a dona de casa.

Um pouco acima da casa dela já havia realmente um saco de lixo aberto com os resíduos jogados pela calçada. Mesma situação flagrada pela reportagem na quadra 4 da rua Maria Honória D’Ávila Engler, no Parque Viaduto. Lá, um cachorro revirava o lixo colocado na rua.


Mais lixo

Quem também foi pego de surpresa pela paralisação da coleta de lixo domiciliar foi Marco Antônio Francisco, 48 anos. Também no Parque Viaduto, o eletricista já estava com sua lixeira “transbordando” de sacos de lixo.

“Coloquei de manhã esperando que fossem recolher. Agora, o jeito é recolher tudo de novo e deixar dentro de casa. Aqui fora não dá para deixar”, conta.

Marco têm duas crianças de 4 anos em casa e reclama do problema em deixar resíduos orgânicos perto delas. “Atraem um monte de pernilongos e moscas”, conclui o morador.


Boneco ‘proíbe’ jogar lixo

Será que, após os quatro furtos, o boneco que fazia a vigilância do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) na semana passada foi demitido? Ontem, a reportagem do JC flagrou um boneco semelhante, mas em outra função. Agora, ele estava executando trabalhos comunitários ao proibir que moradores joguem lixo no Jardim Carolina.

O boneco foi colocado na quadra 2 da rua Noé Onofre Teixeira, onde a população está cansada de conviver com o descarte irregular de resíduos. O fato desnuda como os moradores já estão de olhos abertos para o problema.

Conforme o JC divulgou na edição de ontem, uma grande quantidade de lixo praticamente interditou uma calçada na quadra 1 da rua São Luiz, na esquina com a avenida Cruzeiro do Sul.

Os resíduos, que foram jogados no local no sábado, ainda não foram retirados. A reportagem passou pelo local ontem e verificou que a situação continua a mesma.


Emdurb dá opção de descarte aos moradores

Por conta do problema nesses bairros que só terão a coleta de volta amanhã, a Emdurb aponta que os moradores dessas localidades podem levar os resíduos até a Diretoria de Limpeza Pública da empresa municipal.

A diretoria fica na rua Manoel Garcia, 1-80, no Jardim Santana. “Podem levar lá durante o dia de amanhã (hoje) que iremos dar o destino adequado”, afirma o presidente da Emdurb, Nico Mondelli.

Em relação à divulgação da paralisação dos serviços, ele afirma que é feita por meio da imprensa. “Foi como foi feito desta vez. Não temos o que fazer. É um dia de folga. Um dia atípico. Preciso dar o descanso aos servidores da Emdurb”, finaliza.

Nosso lixo: ... e um exemplo

José Aparecido de Moraes promove ação cidadã varrendo diariamente as calçadas e ruas do bairro Nova Esperança

Cuidar, no sentido de zelar pela qualidade dos relacionamentos, das amizades, do respeito às pessoas e ao ambiente em que se vive. Desde quando se mudou para a quadra 9 da rua Sargento José dos Santos, no Nova Esperança, em 1976, o aposentado José Aparecido de Moraes, 66 anos, varre a calçada e a rua do seu quarteirão e das vias próximas.

Douglas Reis

O aposentado José Aparecido de Moraes varre a calçada e a rua do seu quarteirão como ação cidadã

Todo dia pela manhã lá está ele com uma vassoura, uma pá e uma lata de tinta usada como lata de lixo. “Estou exercendo a minha cidadania”, define.

Os vizinhos da padaria e da farmácia e moradores aplaudem a disposição incansável de “Seo” Cido, como é conhecido no bairro. Ele não é uma pessoa do tipo sistemática, que tudo deve ser à sua maneira caso contrário ele mesmo faz. Ele é sim dono de uma vontade imensa de melhorar o ambiente em que vive, porém, distribuindo sorrisos e bom humor.

“É a maior alegria porque me sinto bem. Mesmo que as pessoas não reconheçam, elas estão vendo”, explica. “Seo” Cido se contenta com o pessoal ajudando a manter limpo o bairro.

Sol, chuva, dia nublado, vento ou frio não afugentam o morador. Após dar aquele trato na rua Sargento José dos Santos, ele segue trecho da rua Albano Capella. Depois retorna e segue até o Caic. “Seo” Cido também tira o mato que brota no vão do concreto das calçadas e no meio-fio. “Desço tudo por aí vou até embaixo”, acrescenta. 

“Seo” Cido não é bom apenas com a vassoura. Quando sua esposa, Maria José, quebrou o braço, ele assumiu todos os afazeres domésticos. Cozinhou, lavou a louça e limpou a casa para a mulher.

“Seo” Cido é nascido em Paulistânia (51 quilômetros de Bauru), onde morou na zona rural trabalhando desde muito cedo na roça. O casal possui cinco filhos. “Criei os cinco filhos aqui”, comemora.


Sorrir

Depois que se aposentou, José Aparecido de Moraes até manteve um breve tempo de “recesso” das muitas atividades simultâneas.

Contudo, percebeu que a aposentadoria poderia ser um problema. Ele comenta que os vários afazeres ajudaram a superar o vazio da aposentadoria.

“Seo” Cido conta que fez um curso de costura em máquina industrial. Não conseguiu fazer o curso de corte de peças, o que considera uma lacuna no seu planejamento pós-aposentadoria. “Passo meu tempo aqui”, comemora.

Em sua oficina de costura, ele faz reparos e recebe pequenos serviços como troca de zíperes de bolsas, mochilas, entre outros consertos. Ele também tem produções mais elaboradas, como bolsas femininas e estojos para Bíblia.


Reconhecimento

José Aparecido de Moraes, o “Seo” Cido, é observado pelo pessoal da padaria ao lado de sua casa e por moradores do bairro. A moradora Sônia Melchior mandou um relato para o JC como forma de reconhecimento pelo trabalho voluntário de “Seo” Cido muito antes do voluntariado ganhar a importância que detém atualmente.

Ela reside na rua de trás e se acostumou a vê-lo varrendo ruas pelo menos até o Caic. Porém, outro dia resolveu registrar a disposição de “Seo” Cido que varria na chuva.

“Debaixo de sol e de chuva lá está ele todos os dias, com o vassourão, o saco de lixo e o latão. Para dias de chuva ele tem um vassourão para varrer. Ele mora em frente a um ponto de ônibus e tiraram aquela cobertura do ponto. Ele fez um banco de madeira e todos os dias de manhã ele põe o banco para fora para que as pessoas que estão esperando o coletivo possam esperar sentadas. À noite, ele recolhe o banco pra que não seja roubado. Esse é um exemplo de cidadania, pois ele já é aposentado, não ganha para fazer isso e faz de livre e espontânea vontade, sempre feliz”.