A Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) dos Estados Unidos vasculhou diretamente os canais de comunicação usados pelo Google e o Yahoo para transferir enormes volumes de e-mails e outras informações entre centros de dados no Exterior, publicou o jornal The Washington Post ontem. Não está claro como a NSA acessou o material.
A reportagem, baseada em documentos da NSA vazados pelo ex-técnico de informação Edward Snowden, parece demonstrar que a agência se aproveitava da escassez de restrições em suas atividades no Exterior para explorar, de forma mais intensa do que se imaginava até agora, os dados de grandes empresas norte-americanas da Internet.
|
Reprodução |
|
|
|
Porta-voz do Google disse estar acelerando seus esforços de criptografia do tráfego interno |
Revelações anteriores feitas por Snowden davam conta de espionagem da NSA em material do Google e outras empresas dentro dos EUA sob ordem judicial. Já a interceptação recém-revelada, sob o codinome “Muscular”, ocorre fora dos EUA e, por isso, não há supervisão da Corte de Vigilância da Inteligência Estrangeira, um tribunal secreto norte-americano.
Um porta-voz do Google, empresa que recentemente disse estar acelerando seus esforços de criptografia do tráfego interno, disse: “Estamos perturbados por alegações de que o governo teria interceptado tráfego entre nossos centros de dados, e não estamos cientes dessa atividade”.
Uma porta-voz do Yahoo declarou que a empresa tem “rigorosos controles em vigor para proteger a segurança dos nossos centros de dados, e não demos acesso aos nossos centros de dados para a NSA ou para qualquer outra agência governamental”. O programa ora revelado, operado em conjunto com o GCHQ, equivalente britânico da NSA. Em nota, um porta-voz da NSA declarou que “não é verdade” que a agência, como sugeriu o Post, use a vigilância internacional para espionar cidadãos dos EUA, burlando restrições jurídicas internas.
NSA também vigiou o papa
A revista italiana “Panorama” informou ontem que os telefonemas monitorados pela NSA na Itália incluem o Vaticano e conversas do papa Francisco na época do conclave que resultou na sua escolha, em março deste ano.
Segundo a revista, que vai publicar mais detalhes sobre a denúncia hoje, entre os 46 milhões de telefonemas interceptados pela agência americana estão aqueles realizados no Domus Internationalis Paulo VI, em Roma, onde o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, 76 anos, ficou hospedado com outros clérigos durante o conclave. Após a revelação, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, minimizou o caso. “Não temos informações sobre o assunto e, de qualquer modo, não temos nenhuma preocupação com isso.”
EUA não vão espionar ONU
A Organização das Nações Unidas afirmou ontem que os Estados Unidos se comprometeram a não espionar as comunicações da entidade, depois de uma reportagem revelar que a NSA teve acesso ao sistema de videoconferência da ONU.
A ONU entrou em contato com autoridades norte-americanas após as revelações de espionagem feitas pela revista alemã Der Spiegel, em agosto, citando documentos vazados pelo ex-prestador de serviços da NSA Edward Snowden.
“Fui informado que as autoridades norte-americanas deram garantias de que as comunicações das Nações Unidas não são e não serão monitoradas”, disse o porta-voz da ONU, Martin Nesirky, a jornalistas ontem. O presidente norte-americano, Barack Obama, recentemente determinou que a NSA reduza as escutas na sede da ONU, em Nova York, como parte de uma revisão de vigilância eletrônica dos EUA, disse à reportagem nesta semana uma autoridade familiarizada com a decisão. A NSA não quis comentar.
A extensão completa da espionagem dos EUA sobre a ONU não é conhecida publicamente, nem está claro se os norte-americanos encerraram todo o monitoramento de diplomatas designados para a ONU em Nova York ou em outros lugares do mundo.
“A inviolabilidade de missões diplomáticas, incluindo as Nações Unidas, está bem estabelecida no direito internacional e, portanto, todos os Estados-membros devem agir em conformidade”, disse Nesirky.
Merkel envia assessor aos EUA
Os principais assessores de política externa e inteligência do governo alemão iriam conversar com autoridades norte-americanas ainda ontem em Washington sobre as denúncias de espionagem dos Estados Unidos à Alemanha, o que inclui o suposto monitoramento do telefone celular da chanceler Angela Merkel.
Vários funcionários da Alemanha e da União Europeia devem visitar os EUA nesta semana por causa das recentes revelações sobre a espionagem norte-americana na Europa.
Merkel quer que os EUA firmem um acordo de “não espionagem” com Berlim e Paris até o final do ano, e que pare a suposta espionagem contra dois dos principais aliados de Washington na UE.
“Posso confirmar que os dois altos assessores da chancelaria estão em Washington para conversas hoje”, disse Steffen Seibert, porta-voz de Merkel. “Como vocês veem, estamos em um processo de intenso contato com nossos parceiros dos EUA nos níveis político e de inteligência, e esse processo de contato e investigação vai demorar mais. O objetivo das discussões é estabelecer um novo fundamento para a confiança.”
A Casa Branca não confirma nem nega que a Agência de Segurança Nacional dos EUA (NSA, na sigla em inglês) tenha espionado o telefone de Merkel, mas diz que esse monitoramento não ocorre no momento.