“Quando contabilizamos a vigésima facada, o perito e eu paramos de contar”. A frase do delegado Kleber Granja denota a violência com que o açougueiro Anderson Felisberto de Souza, 29 anos, foi assassinado em Bauru. O autor, Giovani Rosa de Oliveira, 27 anos, confessou o crime, porém alega legítima defesa.
O corpo da vítima foi encontrado por volta das 10h de ontem dentro de um Voyage, com placas de Bauru, por dois guardas florestais que passavam por uma estrada de terra perto do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet).
As testemunhas informaram aos militares que viram um rapaz, com a mão sangrando, correndo em direção a um matagal. “Eles afirmaram que o homem que fugiu é magro, tem altura mediana e estava vestindo uma camisa de uma torcida organizada do Corinthians”, afirma o comandante da 4ª Companhia da Polícia Militar (PM), capitão Eraldo Monteiro.
Anderson Felisberto de Souza, que era morador do Jardim Redentor, tinha uma grande quantidade de golpes de faca na cabeça, pescoço e braços. Alguns deles chegaram a transfixar a pescoço da vítima.
O carro, que era da vítima, estava repleto de sangue tanto dentro quanto fora. O teto rasgado indicava intensa luta no interior do veículo.
Enquanto viaturas da Base Sudeste e o helicóptero Águia da PM faziam buscas no perímetro para tentar localizar o homem visto pelas testemunhas, a Polícia Civil e a Científica foram acionadas.
“Seguimos um rastro de sangue desde a cena do crime até um matagal. Ali, encontramos marcas de sangue pelas folhagens. O rastro acabava nos fundos do Zoológico”, narra o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) da Central de Polícia Judiciária (CPJ), Kleber Granja.
Confessou
Por volta do meio-dia, nas proximidades do Zoológico, um homem com a mão cortada e a roupa bastante suja de sangue disse à PM que havia sido vítima de um assalto.
Apesar de não convergir com as características do homem visto fugindo, por conta das circunstâncias, o garçom Giovani Rosa de Oliveira foi conduzido até a cena do crime, onde acabou confessando ter esfaqueado Anderson.
“O Giovani contou que é dependente químico e que estava sendo extorquido (leia mais abaixo) pela vítima e pelo outro rapaz que foi visto fugindo. No carro, após o Anderson tirar uma faca de cerca de 20 centímetros para ele, começou uma luta entre os dois. Giovani teria segurado a faca na lâmina, conseguido virar para o Anderson e desferido os golpes”, conta o delegado Kleber Granja.
Giovani de Oliveira, morador do Santa Luzia, foi conduzido ao Pronto-Socorro Central (PSC) por conta do ferimento na mão. Ele foi preso em flagrante por homicídio qualificado. A polícia ainda investiga a tese de legítima defesa argumentada pelo autor.
Familiares de Anderson confirmaram que ele andava com uma faca de açougueiro. A arma branca usada no assassinato, contudo, não foi localizada. Tanto o autor quanto a vítima não teriam passagens pela polícia.
29º homicídio
Anderson Felisberto de Souza, 29 anos, entra para a estatística da violência bauruense. O açougueiro assassinado a facadas ontem é a 29ª vítima de homicídio registrada na cidade em 2013.
O último assassinato havia ocorrido no último dia 19. Na ocasião, o empresário José Roberto Basílio, 36 anos, foi atingido por quatro tiros em frente a uma casa noturna. Conhecido como Dino, ele era jogador do time amador Oriente.
Garçom argumenta que foi ameaçado após ser confundido com informante
Após confessar que esfaqueou Anderson, o garçom Giovani Rosa de Oliveira disse que é usuário de drogas e alega que foi ameaçado pela vítima. “Ele conta que, ao sair do serviço, foi até o Ferradura Mirim em busca de drogas. Como não era conhecido lá, afirma que suspeitaram que ele seria um informante da polícia”, explica o delegado Kleber Granja.
Na versão de Giovani, o traficante teria mandado Anderson e mais outro homem dar um “presta atenção” nele. “Ele afirma que foi colocado no carro e, inclusive, a dupla passou em um caixa eletrônico e fez com que ele sacasse dinheiro”.
As imagens do circuito de segurança dessa agência serão analisadas pelos policiais para tentar comprovar a argumentação do acusado.
O garçom conta que foi colocado no banco de trás do Voyage e Anderson dirigia o veículo. O homem que foi visto fugindo por testemunhas estava no banco do passageiro. Na cena do crime, a vítima teria mostrado a faca e feito ameaças, foi quando Giovani conseguiu tomar a arma e a luta começou.
As investigações seguem para tentar localizar o homem que estava no carro e foi visto correndo próximo à cena do crime.
Filho da vítima nasceu há três dias
Os familiares de Anderson Felisberto de Souza ficaram inconformados com a notícia. Mais ainda a esposa do açougueiro. Segundo um tio da vítima, o filho do casal nasceu há apenas três dias.
“Ele era um sobrinho meio afastado de nós. Mas ele tinha acabado de ter um filho. A esposa dele ficou quase em estado de choque ao saber o que ocorreu”, conta Orlando Ferreira de Souza, 56 anos.
Questionado das acusações feitas pelo autor do crime de que Anderson teria o ameaçado a mando de um traficante, o tio alega desconhecer o fato. “Como eu disse, ele era afastado da família. Mas todos estão muito tristes”, conclui.