10 de julho de 2026
Nacional

Caso de cão cobaia levado para casa faz universidade proibir uso

Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Era uma tarde de 1997 quando o então estudante Thales Tréz soube que o professor abriria o tórax de um cão saudável em uma aula de biologia na Universidade Federal de Santa Catarina. A notícia revoltou o aluno.


"Cheguei um pouco antes da aula para conversar com o professor e colegas e dizer que aquilo não precisava acontecer. Só que cheguei e estava só o cachorro, ainda consciente, e ninguém por perto. Fiz o que muita gente faria. A ocasião faz o ladrão", conta ele, que levou o cachorro para casa e acabou denunciado à Polícia Federal.


Motivo: roubo ao patrimônio. "Começamos a discutir como a universidade podia tratar um animal como um objeto", relata. "Não sabia que tinha que matar uma série de animais para aprender coisas básicas da biologia."


O episódio motivou discussões na universidade sobre os efeitos do uso de animais nas atividades de ensino, e meses depois a UFSC acabou retirando a queixa feita à PF.


"Eles viram que era um tema pertinente, com fundamentação ética. A partir daquele ano, o departamento não usou mais cães e passou a ensinar com vídeos."


Além da mudança na forma de ensino, o resgate do "cão nº 51", como aquele vira-lata era identificado na instituição, foi o ponto de partida para que o aluno começasse a pesquisar o tema.


Tréz, 35, hoje leciona na área de ciências biológicas e saúde da Universidade Federal de Alfenas (MG), e pesquisa o uso de métodos como manequins, softwares e vídeos no lugar dos animais.


"Softwares, por exemplo, já foram tecnologias mais caras. Mas hoje há muitos tutoriais online e são programas bastante interativos."


Segundo ele, a discussão sobre o uso de métodos alternativos aos bichos avançou nos últimos dez anos, mas também há oposição.


"Há muita resistência em fazer essa migração do animal para a tecnologia substitutiva", diz o professor. Ele diz que universidades de alguns países já aboliram o uso dos bichos, até mesmo em cursos como medicina.


"A Inglaterra é o caso mais avançado. Desde 1986 eles formam médicos sem os animais", afirma Tréz, até hoje procurado por alunos com os mesmos dilemas que ele viveu há 16 anos.


E o que aconteceu com o cão resgatado? Tréz diz não saber se ele ainda está vivo, mas garante que teve uma boa vida. "O cachorro foi adotado por um casal de amigos, passou a se chamar Krieger e morou muitos anos na bela praia da Joaquina [Florianópolis]", conta o professor.